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O adeus a Saul Trumpet, o gênio da música instrumental do Paraná

Ao unir carisma e talento, trompetista virou lenda na boemia curitibana e formou gerações de músicos

Saul Trumpet fotografado para entrevista na Gazeta do Povo, em 2013. Foto: Marcelo Andrade

Silêncio na noite. O músico Saul Trumpet morreu nesta quarta-feira (1) aos 74 anos, vitima de um câncer. Encerra-se assim a carreira de seis décadas do trompetista e compositor mais talentoso e carismático de Curitiba.

Saul foi figura central da chamada “cultura do jazz” em Curitiba.  Foi um elo entre a geração de músicos surgida na primeira metade do século XX e uma geração que aprendeu a tocar jazz vendo-o brilhar madrugada adentro no lendário Saul Trumpet Bar, casa que administrou entre 1984 e 1997, na Rua Cruz Machado.

O músico era amado pela cidade boêmia. Sempre pronto para tocar, Saul lançou e apadrinhou dezenas de jovens músicos. Como fez  com o pianista Jeff Sabbag, que estreou tocando com Saul com apenas 17 anos, apenas para citar um nome.

Para o pianista, Saul foi o “músico mais original” que ele conheceu. Ele lembra que o mestre do trompete foi o parceiro com quem ele mais tocou durante 36 anos de parceria. “Acho que tocamos juntos umas dez mil vezes”, diz.

Segundo Sabbag, o trompetista traduzia “a essência do músico da noite”. “É aquele cara que pode até ter tem menos formação do que um músico de palco, mas com uma verdade musical maior”.

Sabbag também destaca a coragem de Saul em ser o primeiro musico a abrir seu próprio bar.

Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

“Foi uma espécie de beco das garrafas curitibano (em alusão ao conjunto de bares no Rio de Janeiro onde surgiu a bossa nova). O Saul Trumpet Bar ensinou o público a gostar de jazz, formou uma geração de músicos e transformou inclusive a região da rua Cruz Machado.”

Sabbag, que hoje é um dos sócios do Dizzy Café Concerto, lembra que fez questão de convidar Saul para inaugurar a casa do jazz ao lado de seu pai, o pianista Gebran Sabbag (falecido em 2015).

“Tinha que ser ele. A magia dele era tanta que ele todos ficavam hipnotizados. O jazz que é uma musica difícil ficava fácil na mão dele. Ele quebrava a quarta parede e trazia o público para dentro da música”.

O guitarrista Celso Loch foi parceiro musical e amigo íntimo de Saul por mais de 40 anos. “Tocamos, criamos, viajamos e gravamos juntos. A nossa relação era mais do que amizade.”

Loch foi um dos últimos músicos a tocar com Saul há uma semana no Volken Pub, na praça da Espanha. Ele conta aos dois tinham sido convidados para participar do Ostrajazz, em Guaratuba, na próxima semana, tocando o repertório do músico Chet Baker.

Como homenagem ao parceiro, Celso vai manter a apresentação com o saxofonista Raul Valente substituindo Saul.

“Saul era genial e generoso como ninguém mais. Fica a memória das coisas boas que ele deixou. O Saul é uma luz que não se apaga.”

Saul Trumpet Bar 

Saul nasceu na cidade de Bandeirantes, no Norte do estado, em 1943. A música, porém, surgiu quando a família morava em Umuarama e ele começou a improvisar no bombardino que o pai tocava aos domingos, na igreja matriz.

No carnaval de 1957, foi convidado a entrar na banda de baile da cidade. Um vizinho, o presenteou “com um trombone de pistão, vagabundo que só ele”, lembrou Saul em entrevista à Gazeta do Povo.

“Toquei cinco noites e duas matinês. Depois daquele carnaval, fui tocar nas bocas e nunca mais parei. Um dia, um balé chegou na cidade e eu fui embora com os caras”, disse.

Saul rodou com a trupe até chegar a Porto União (SC), onde resolveu se estabelecer .“Eles foram, eu fiquei. Tocava na zona e nos clubes. Virei músico de verdade”. Depois, mudou-se para Pato Branco, onde chegou a ter uma lavanderia. “Podia ter virado o Saul Tintureiro”, brincou na entrevista.

Em 1970, em Curitiba, entrou para a Aquarius Band, a orquestra líder do mercado local de bailes. Foi logo reconhecido como um dos melhores músicos da cidade. Tocava, compunha e improvisava, mesmo sem saber teoria.

Ganhou aulas gratuitas (caderno pautado e método Bona) de um tenente da PM que ensinava solfejo aos soldados e era seu fã. Até então, também nunca tinha ouvido as grandes bandas de jazz.

“Eu tocava o que tava no ar. Miles Davis, Freddie Hubbard demoraram a chegar até mim. Quando ouvi, percebi que estava na mesma praia dos caras sem saber.”

Em 1984, abriu o Saul Trumpet Bar, na rua Cruz Machado. A casa virou ponto obrigatório para os jazzistas e fãs do gênero e também para músicos de passagem pela cidade. “Era um bar pequeno. Mesmo cheio, dava trabalho e não lucro. Mas tocávamos jazz de segunda a domingo. Esperávamos uma escola ao lado fechar e depois o pau cantava até de manhã”, lembra.

Prêmio Saul Trumpet

Em 1997, Saul teve um aneurisma e o bar fechou. “Pensaram que eu ia morrer e criaram um prêmio com o meu nome”, revelou.

O prêmio Saul Trumpet laureava os melhores do ano na música paranaense. Teve oito edições. Saul lançou três álbuns e tocou com todo mundo. Waltel Branco, Mauro Senise, Hermeto Pascoal, Leny Andrade, Arismar do Espírito Santo, Proveta, Hélio Brandão

Nos últimos anos, Saul trabalhava incessantemente  tocando em eventos, bailes, casamentos e na noite da cidade em locais como o Dizzy Café Concerto , O Pensador e Full Jazz (ou onde fosse convidado.) e dava aulas de trompete no Conservatorio de MPB de Curitiba e na Escola de Musica Vila Lobos.

Em abril deste ano foi diagnosticado com câncer na próstata. Os amigos e parceiros organizaram uma vaquinha e alguns shows para ajudar com o pagamento das despesas. Num deles, em maio no Teatro José Maria dos Santos, contrariando a recomendação médica Saul apareceu para tocar.

“Parece que a energia do palco fez a saúde dele melhorar e ele voltou a tocar regularmente”, lembra Loch.

O musico trabalhou até a véspera  de ser internado, há pouco menos de um mês no Hospital da Cruz Vermelha, quando a doenças se agravou. Na manhã desta quarta-feira (1) o artista faleceu. Saul deixa a esposa Sônia e a filha Tuani. O sepultamento acontece no cemitério Água Verde.

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