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“O K-Pop mudou minha vida”, diz paranaense que virou referência nacional no assunto

A descoberta do K-Pop transformou a vida de uma paranaense que investiu profissionalmente neste universo e agora é referência no assunto

Gabriela Brandalise se especializou no estilo coreano, escreveu um livro e tem um canal no Youtube que vai além do assunto: "muitos adolescentes me procuram para falar questões pessoais e eu acabo ajudando", conta. Foto: arquivo pessoal.

Às vezes descobrimos uma banda, um livro, uma série ou um filme pelo qual nos apaixonamos. Viramos fãs, mergulhamos naquele universo. Em certos momentos da vida – adolescência, principalmente – pode virar praticamente uma obsessão.

A jornalista Gabriela Brandalise passou por essas etapas quando descobriu o K-Pop, gênero musical da Coreia do Sul que envolve coreografias, muitos elementos visuais e uma dose de mistério sobre seus integrantes. Mas foi além. Aproveitou a descoberta de algo tão diferente das próprias vida e cultura e encontrou ali um caminho para uma transformação pessoal.

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“A Coreia surgiu em um momento em que eu estava questionando a minha vida profissional. Eu estava pensando muito sobre as coisas que eu tinha feito até aquele momento e estava sentindo falta de algum desafio. Meu texto estava igual, eu fazia a mesma coisa há muito tempo, fui jornalista muitos anos. É um trabalho interessante, mas eu comecei a pensar: o que mais eu sei fazer?”, conta a paranaense de 36 anos.

O primeiro contato com essa corrente cultural megalomaníaca foi com o Psy – aquele do Gangnam Style e a dancinha que finge estar montando em um cavalo.

O desconforto inicial com aquele vídeo tão fluorescente e histérico provocou uma curiosidade em descobrir o que mais existia naquele gênero. “Aquilo me oxigenou. Eu tive vontade de criar de novo. Me deu um monte de ideia. Eu pensava: ‘que universo é esse’?”.

O estranhamento, segundo ela, é grande. Um povo tido como frio, mas que em suas séries dramáticas – os doramas – apresenta um “herói” que chora copiosamente em todos os episódios. Regras “hollywoodianas” as quais estamos acostumados – uma vez que grande parte do que consumimos de entretenimento estrangeiro passa por lá – são quebradas.

“No começo, incomoda. Os clichês deles são estranhos porque você não consegue identificar que aquilo é um clichê. O herói coreano é o cara que chora e tem contato com seus sentimentos. É uma coisa muito esquisita. A partir do momento em que eu entendi, eu me apaixonei. Eu pensei: ‘preciso trazer isso para a minha bagagem, para o meu repertório’”, relata Gaby, como é conhecida.

O primeiro fruto profissional da paixão recém-descoberta veio logo. Em três meses ela escreveu o livro “Pule, Kim Joo So”, uma história inspirada em dramas coreanos. O livro, lançado em novembro de 2017, já está em sua 2ª edição, com 6 mil exemplares vendidos. Gabriela já tinha publicado um livro anteriormente, mas com o lançamento de seu dorama entendeu que havia uma demanda brasileira para esse tipo de conteúdo. A aposta comprada pela editora deixou uma pulga atrás da orelha: “o que mais tem demanda?”, se perguntou.

De repente, Youtuber

Jornalista com experiência no rádio, Gabriela já estava no mundo do vídeo há um tempo com um canal no Youtube que trazia conteúdo sobre como escrever. Segundo ela, o canal estava “empacado” há algum tempo – uns 6 mil inscritos.

Decidiu dedicar alguns vídeos para o K-Pop, algo bem introdutório com análise de álbuns e artistas que descobria. “Eu fazia uma narrativa apaixonada sobre as coisas que eu gostava. Nada mais é do que um Storytelling [usando técnicas de contar histórias]. Comecei a sentir que as pessoas gostavam porque fazia tempo que elas estavam procurando um vídeo de análise e não achavam. É um público que quer consumir, que tem uma carência seja de produtos, seja de conteúdo.”

Gabriela e sua vasta biblioteca de referências K-Pop. Foto: arquivo pessoal.

Hoje o canal, que leva o nome dela sem qualquer referência direta ao K-Pop, chegou aos 45 mil inscritos. Seus vídeos têm legenda em inglês – um deles em coreano.

Seu público é formado principalmente por brasileiros, mas ela já foi reconhecida, na Coreia, por seguidoras de Cingapura, da Alemanha e do Japão. As análises continuam apaixonadas, mas ela busca entregar um conteúdo diferenciado trazendo referências e links, sempre do seu ponto de vista. Não considera que já chegou ao seu ápice. “Eu sinto que já dei alguns passos. Ainda tem muita coisa para fazer.”

A exposição também já rendeu frutos. Gaby já foi procurada para fazer conteúdo patrocinado, trabalhou diretamente para uma das maiores empresas de K-Pop, a SM Entertainment, escrevendo conteúdo em português sobre shows dos artistas, publicou artigo em revista Teen. Por causa de um vídeo, em que tratou do suicídio de um dos ídolos da indústria, passou a ser procurada por pessoas que passavam por momentos difíceis e identificaram nela alguém com quem poderiam se abrir.

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“Volta e meia eu recebo mensagem de adolescentes, e até gente da minha idade, que quer se matar. Dizem que não sabem mais o que fazer, pedem um conselho. Falam: ‘tentei me matar pela terceira vez, vi seus vídeos e como você fala apaixonada sobre as coisas’. As pessoas me veem como alguém madura.”

Ela não é a maior youtuber que fala sobre K-Pop no Brasil, mas acredita que oferece ao seu público algo diferente. “Eu faço um trabalho mais jornalístico dentro do K-Pop. Jornalismo literário, porque eu trago um texto da literatura, mas ao mesmo tempo eu trago informação. O foco não está em mim, mas no que eu estou falando. Eu sou essa youtuber, a jornalista dentro do gênero.”

As lições em solo coreano

Daqui do Brasil, Gabriela buscava cada vez mais entender a Coreia do Sul. Estudou a língua – algo que considerou fundamental para entender o jeito com que os ídolos se expressam, uma vez que poucos usam inglês em suas letras de música –, lia sobre os costumes, a relação deles com o trabalho, como lidam com relacionamentos. Mas todo esse conhecimento não impediu o baque ao finalmente pisar em Seul e estar frente a frente com aquelas pessoas.

Estudar coreano e ir até o país foi fundamental para as pesquisas da jornalista. Foto: arquivo pessoal.

“Curtir K-Pop e cultura coreana daqui é uma coisa. Agora ir para lá é outra. A Coreia pode ser um país muito duro, as pessoas não são amorosas, não são afetuosas, o coreano não é simpático. Você sente uma tensão andando em Seul. Pensa: ‘isso aqui vai explodir a qualquer momento’. Você vai para lá e entende melhor a cultura. Não dá para dizer que está errado ou certo, tem que ter essa maturidade para compreender. Foi um baque para mim. Eu não moraria lá, por exemplo.”

Ela conta que finalmente entendeu o conceito “choque cultural”, algo que não sentiu em viagens anteriores aos Estados Unidos ou Canadá.

“É quando você não consegue ler, com a bagagem que você tem, outro ser humano. Porque a cultura dele é muito distante da sua. Por mais que você pensa: ‘ele está bravo’, você não sabe. Isso é choque cultural: estar perdido entre pessoas numa sociedade que você não entende o que está rolando. Ao mesmo tempo é muito enriquecedor.”

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Desde a primeira viagem, ela já retornou outras duas vezes. Hoje considera que se vira bem em Seul. Mas foi um aprendizado duro. “Eu comecei a ver vídeos no Youtube de pessoas que foram [para a Coreia do Sul] dando dicas. Vi vários, mas isso só me ajudou em 20%. Ninguém fala inglês na Coreia! Ou falam, mas fingem que não falam porque eles não querem falar com você, porque eles têm vergonha. Eles têm um medo de errar, o que é surreal. Eles não querem lidar com o fracasso, uma situação em que talvez não acerte toda a gramática do inglês. Pesquisei alguns termos que eu deveria saber na ponta da língua para usar. Aí eu comecei a entender o que pode e o que não pode lá. E para isso tem que fazer pesquisa.”

Na bagagem, traz “bugigangas” para vender a outras fãs de K-Pop. Álbuns, chaveiros, pasta, foto oficial, broche oficial. Aqui, revende e ajuda a pagar parte das despesas com a viagem que somente em passagem consome R$ 6 mil.

Um futuro no K-Pop

Apesar de considerar que a cultura sul coreana ainda tem muito espaço para crescer por aqui, Gabriela não coloca todas as fichas em uma carreira voltada para esse universo. Mas garante que seu destino profissional estará sempre atrelado ao aprendizado que o K-Pop trouxe.

Na casa da jornalista, uma coleção reflete o universo K-Pop, com objetos, livros e CDs trazidos da Coreia. Foto: arquivo pessoal

“A Coreia me fez descobrir que eu posso fazer o que eu quiser. Desde que eu me prepare para isso e desde que eu estude sobre isso. A Coreia tirou um medo que eu tinha de fazer coisas diferentes. Experimentar novos trabalhos, sentir frio na barriga de novo, de dar a cara a tapa. Eu vislumbro uma Gaby que a hora que ‘passar a Coreia’ vai se achar outras coisas novas para se aprofundar. E com isso nunca vai parar de trazer coisas novas para a própria vida.”

Na opinião da paranaense, o empreendedorismo precisa ir além da abertura de um negócio. “Se eu quero alguma coisa eu tenho que empreender uma jornada para chegar aonde eu quero. Seja para uma realização pessoal, seja para encarar algo novo, seja para enfrentar algum medo que eu tenha. Eu tinha medo de morrer fazendo a mesma coisa. De descobrir que eu não sei fazer mais nada além de reportagem. E a Coreia tirou tudo isso de mim.”

Transformação física

Desde que descobriu o K-Pop, Gabriela enxugou medidas, mudou o modo de se vestir, aprendeu a usar maquiagem e acredita que essas mudanças estão todas conectadas. “A partir do momento em que eu entendi que eu podia fazer o que eu quisesse, isso acabou se refletindo na minha imagem. Porque não tem como você descobrir tanto a seu respeito dentro e isso não vir para fora. O comodismo se reflete nas roupas que você usa, no seu cabelo, nas escolhas que você faz de comida, na sua alimentação. O comodismo e o medo que eu tinha também – e nem sabia que tinha – de tentar algo novo estava nas roupas, estava em tudo, no meu peso. Eu não saía do meu peso por quê? Porque eu não saía do lugar.”

Algo que nunca imaginou acontecer, virou referência paras as amigas que pedem o nome do cabeleireiro e ajuda para compor looks e se maquiar. “É por causa do K-Pop? Não. É por causa desse empreendedorismo. Você começa a se mover e movimento atrai movimento e, quando você vê, mudou tudo. E você nem viu direito em que momento isso aconteceu. Eu comecei a me interessar por maquiagem. Eu comecei a me interessar por moda. Eu comecei a ler sobre isso. Porque a maneira que eu me via no espelho não condizia mais com a maneira como eu me sentia. Essa inquietação interior veio para fora e aí foi derrubando tudo.”

O K-Pop

1992 é o ano considerado de nascimento do K-Pop, com a apresentação da banda SeoTaiji & Boys. O ritmo misturava o pop norte-americano com a cultura sul coreana e sua música de lançamento ganhou o topo das paradas musicais.

De lá para cá, o estímulo ao K-Pop tornou-se uma política de governo, inclusive com orçamento público para tal. A indústria é formada por grandes empresas que montam e treinam artistas para serem cantores e dançarinos.

O termo “K-Pop” foi criado como uma referência para estrangeiros. Existem bandas e artistas para os mais diversos tipos de públicos, desde crianças e adolescentes – muitos com estilo “fofo” e infantil – e outros com conceito mais maduro, sensual.

Hoje o K-Pop abrange diversos estilos musicais, como K-Indie, K-Rock, K-Hip-Hop, entre outros. Nos últimos anos, o K-Pop tornou-se um fenômeno global. Maior hit internacional, Gangnam Style, de Psy, lançado em 2012, tem atualmente 3,3 bilhões de visualizações no Youtube. Estima-se que a indústria movimente cerca de 5 bilhões de dólares por ano na Coreia do Sul.

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