Sem água ou energia elétrica: como médicos tratam o câncer no Haiti

Médico brasileiro relata as dificuldades, e conquistas, em trabalhar com pacientes oncológicos em um dos países mais pobres da América

Médico relata dificuldades e conquistas do tratamento oncológico no BrasilPhillipe Abreu já foi três vezes ao Haiti. Na foto, ao lado de colegas médicos e pacientes (Foto: arquivo pessoal)

Os pacientes com câncer no Haiti carregam a esperança no olhar. Essa foi uma das primeiras percepções que o cirurgião-oncologista Phillipe Abreu teve ao chegar ao país. Consultor internacional da ONG Innovating Health Internacional, que promove acesso à saúde em países em dificuldades, o médico visitou por três vezes a nação mais pobre das Américas, e saiu de lá com cerca de 60 cirurgias realizadas. Todas impactantes, segundo ele, mas uma das últimas foi especial:

“Toda aquela realidade em volta deles, com sujeira nas ruas, falta de água encanada, energia elétrica falhando, mas a esperança que eles têm na cura é incrível. Da última vez que fui para lá, uma paciente não pode ser operada no dia porque estava com a pressão alta. Quando fomos avisar a família, eles disseram que não podiam levá-la embora. Como o câncer de mama estava bem avançado, acometendo a pele, o cheiro da infecção impregnava a casa. Ela ficou no hospital e, depois que conseguimos operar, ela dizia que estava sem dor. A dor do pós-operatório não era nada comparada à dor do câncer, então imagina como era antes”, relata o médico.

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Sem acesso aos cuidados mais básicos de saúde, como água encanada nas casas, boa parte dos moradores de Porto Príncipe com câncer acabam morrendo sem saber da doença, ou sem nem ter a chance de tratá-la. Em todo o país, não há aparelhos que façam o exame de endoscopia, colonoscopia ou mesmo radioterapia — tratamento importante para alguns tipos de câncer.

Médico relata dificuldades e conquistas do tratamento oncológico no Brasil

Dificuldades no atendimento oncológico no Haiti se mescla à esperança do povo haitiano (Foto: arquivo pessoal)

“Não tem endoscopia ou colonoscopia, e como faz com quem tem câncer de estômago? A pessoa morre sem saber que tem, assim como câncer de fígado e intestino. A gente trata no momento que está lá os cânceres mais externos, que conseguimos examinar, como mama e colo do útero. As biópsias são enviadas para Miami, já que não há também laboratório de patologia. É uma dificuldade logística muito grande, é realmente um desafio”, conta Abreu.

Quando o paciente chega aos médicos, a primeira medida é começa-lo na quimioterapia — antes mesmo da cirurgia. “Varia muito de câncer para câncer, mas de forma geral tentamos controlar um pouco a doença, quando está em forma avançada. É uma medida que nos permite ganhar tempo, porque não estamos o tempo todo no país”, explica o médico, que geralmente permanece uma semana no Haiti a cada visita, e boa parte do tempo dentro dos centros cirúrgicos ensinando médicos moradores do país.

Na falta da água, a orientação dada aos pacientes para limparem os ferimentos das doenças é com o uso de iodo. “Na primeira vez que fui ao país, fui tentar descobrir porque eles tinham infecções nas feridas e sentei para conversar com os pacientes. Foi então que descobri que eles não tinham água em casa. Sem água, a ferida fica suja, o que complica a cirurgia. Damos aos pacientes um pote de iodo que, embora atrase a cicatrização, é melhor do que deixar sem limpar”, explica o médico. 

Médico relata dificuldades e conquistas do tratamento oncológico no Brasil

Imagem flagrada pelo médico durante visita ao Haiti mostra lixo espalhado pelas ruas da capital Porto Príncipe (Foto: Arquivo pessoal)

Curar às vezes, confortar sempre

Seja no Haiti ou em qualquer outro lugar do mundo, quando se fala em tratamentos oncológicos, os especialistas têm um mantra: “curar algumas vezes, aliviar outras e confortar sempre”.

“A cirurgia, ainda mais lá no Haiti, por mais que seja paliativa, consegue dar uma qualidade de vida melhor àquela pessoa, um pouco de conforto. A diferença é que lá é como voltar no tempo: a dificuldade de acesso à saúde e o preconceito com as doenças parece o Brasil há 50 anos. Ir ao Haiti é uma volta no tempo, embora tenhamos conseguido importar medicamentos quimioterápicos com os recursos da ONG”, conta Phillipe Abreu, cirurgião oncologista.

Médico relata dificuldades e conquistas do tratamento oncológico no Brasil

Haiti é um dos países mais pobres da América, sofre com a falta de água encanada, energia elétrica constante e violência (Foto: arquivo pessoal)

Além do atendimento aos moradores, os médicos estrangeiros da ONG vão até o país treinar os colegas especialistas em técnicas novas na oncologia. “O meu maior orgulho na última viagem foi ensinar os médicos locais e deixarem eles fazerem três cirurgias sem que eu precisasse participar. Eles têm dificuldade de formação, de base, não há pessoas treinadas para esse tipo de situação e muitos achavam que não conseguiriam aprender. Mas a dedicação deles é muito grande”, relata.

“O que mais impressiona é como as pessoas conseguem lutar, sobreviver no dia a dia. Na primeira vez que fomos, oferecemos pizza à equipe de funcionários e depois vi eles disputando pelos pedaços que tinham sobrado. Os pacientes, depois de liberados, não querem ir embora, porque não têm comida em casa. Há muito lixo nas ruas, que são jogadas para o lado por um trator. Vi pessoas revirando o lixo procurando comida, disputando com bode, porco. É assustador.”

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