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Ele vive de luz: o médico que há 17 anos optou por reduzir drasticamente sua alimentação

O psiquiatra Leocádio Gonçalves, de 68 anos, passou por um processo de 21 dias para não sentir mais fome e afirma que pode viver tranquilamente sem água e comida

O psiquiatra ficou sete dias sem comer e beber para iniciar o processo de reprogramação alimentar. Foto: Leticia Akemi

Foi durante um atendimento em seu consultório que o curitibano Leocádio Gonçalves, de 68 anos, ouviu falar em viver de luz pela primeira vez. “Estávamos em 2001 e um paciente me contou que havia assistido a uma entrevista no Programa do Jô com uma mulher que não comia e nem bebia nada há dois anos”, relata o médico psiquiatra.

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A mulher — Evelyn Levy — e o marido, Steve Torrence, haviam passado por um processo de 21 dias para reprogramar o organismo a fim de não sentir mais fome e não ter necessidade de comer. “Nós paramos de nos alimentar”, afirmou a mulher de aparência saudável no programa exibido dia 30 de abril de 2001. Na entrevista, ela também explicava que seu aparelho digestivo havia sido desligado para que as glândulas pineal e pituitária, localizadas no cérebro, transformassem luz solar em energia para o funcionamento de seu corpo. “Você desatrofia seu cérebro”, pontuou.

Ao saber da entrevista, o psiquiatra curitibano decidiu tirar suas dúvidas a respeito do procedimento lendo o livro “Viver de Luz”, escrito pela australiana Jasmuheen. “Foi ela que iniciou esse comportamento ao ficar dez anos sem comer. Fiquei admirado por nunca ter ouvido falar daquilo”, afirma o morador do Centro de Curitiba, que estava determinado a seguir a mesma dieta. “Como eu atendia ao requisito de não ter nenhuma doença prévia, quis tentar”. No entanto, ele não recomenda a prática e afirma que pessoas já morreram tentando o processo.

“Só assumi os riscos porque eu sou médico, então estaria atento ao meu corpo e interromperia o processo se me fizesse mal. Passar por isso é muito perigoso”, alerta.

Ao saber da decisão do marido, a psicóloga Marli Terezinha Guebert, de 64 anos, tentou argumentar com ele. “Perguntei se era aquilo mesmo que ele queria porque eu estava preocupada”, recorda a moradora do Centro de Curitiba. Segundo ela, além do perigo para a saúde do marido, a decisão também poderia afetar a rotina familiar. “Hoje eu sinto muita falta de ter a família reunida em volta da mesa, por exemplo”.

Leocádio vive de luz, mas não recomenda a prática porque pessoas já morreram durante o processo. Foto: Leticia Akemi

No entanto, ela apoiou o companheiro, que passou sete dias sem comer e beber, e outras duas semanas à base de sucos. “Dizem que o corpo humano não resiste nem mesmo três dias sem água, mas eu estou aqui para provar que é possível”, afirma o psiquiatra.

De acordo com o site “Viver de Luz”, que divulga o tema no Brasil, esse processo de reprogramação alimentar elaborado pela autora Jasmuheen só deve ser realizado com acompanhamento de alguém que já passou pelo procedimento. “Só que eu não conhecia ninguém, então decidi fazer sozinho”, recorda o curitibano, que continuou trabalhando em seu consultório durante o processo.

“A orientação também é se isolar durante 21 dias em uma chácara ou algum local tranquilo, mas eu não conseguia cancelar o atendimento aos meus pacientes. Então, só reduzi um pouco minha agenda e comecei”.

Vegetariano desde 1997, Leocádio estava acostumado a ter uma dieta baseada em frutas e verduras, o que o ajudou no processo de desintoxicação. “Eu já não sentia falta da carne, então foi mais fácil”, relata o curitibano que, mesmo assim, passou dias angustiantes. “Algumas experiências que vivi nesse período são até difíceis de falar porque as pessoas não acreditam”.

Uma delas está relacionada à temperatura corporal. “Eu comecei o processo dia 24 de maio de 2002, quando já estava frio. Só que eu ficava de calção e ainda sentia calor”. Segundo ele, seu corpo não apresentava febre, mas tinha maior resistência à baixa temperatura. “Eu via o Leocádio tomando banho frio naqueles dias e ficava muito preocupada porque eu estava vestindo casacos e colocando o chuveiro no modo quente. O que ele estava fazendo não era normal”, recorda a esposa Marli.

Leocádio (ao centro) iniciou o processo para viver de luz aproximadamente três anos após bater essa foto: “hoje estou bem melhor”. Foto: Arquivo pessoal/Leocádio Gonçalves

Ainda segundo ela, o marido também cheirava os alimentos ingeridos pela família para lembrar do gosto. “Ele se aproximava para sentir o cheiro do pão, do leite e do que estivéssemos comendo porque isso fazia passar sua vontade, só que me irritava”, brinca a esposa, que também via o marido se controlar para não beber água. “Ele sentia muita falta, mas não se rendia e ainda continuava disposto para trabalhar”, conta.

Após superar a primeira semana do processo, o psiquiatra voltou a ingerir líquidos para auxiliar na limpeza do organismo. “Comecei com sucos de frutas bem diluídos por mais sete dias e passei para a última etapa com sucos mais concentrados”, recorda o curitibano, que finalizou o processo de 21 dias sem sentir fome.

“Ainda que o objetivo não seja emagrecer, ao final do processo eu havia perdido 16 quilos e percebi que não precisaria mais comer porque o alimento havia deixado de ser uma necessidade orgânica. Se eu quisesse, poderia viver somente com o oxigênio e a luz do sol”.

Rotina vivendo de luz

No entanto, nem todas as pessoas param de se alimentar completamente após o processo. “Se quiser, você pode comer somente por prazer, para sentir o gosto dos alimentos. Só que a quantidade será muito menor porque não há fome”, explica o psiquiatra, que passou a se alimentar-se raramente. “Quando eu vou a um restaurante, por exemplo, sirvo um pouco de arroz, palmito e até um pedacinho de peixe, mas a quantidade é tão pequena que parece um prato daquelas crianças que não gostam de nada”, diz.

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Os momentos da família reunida em volta da mesa são raros e, quando ocorrem, Leocádio apenas toma seu café ou degusta algum alimento. Foto: Leticia Akemi

Além disso, ele gosta de ingerir uma fruta de vez em quando e de beber um bom cappuccino no lugar das tradicionais refeições. “É muito difícil eu comer alguma coisa, mas sempre tomo meu cafezinho porque é prazeroso. Comer por prazer é degustar alguma coisa de vez em quando, assim como as pessoas que gostam de vinho fazem”.

Sem alimentar-se, ele afirma receber a energia que precisa ao respirar e sair no sol. “E eu não fico horas olhando para o sol, não. Basta caminhar normalmente até meu trabalho, um trajeto de oito minutos que eu faço quatro vezes ao dia”, garante.

Com essa rotina há 17 anos, nem a família acreditava que o curitibano estivesse tão bem de saúde como parecia. Por isso, recentemente o filho Gabriel Guebert Gonçalves, de 22 anos, fez uma aposta com o pai.

“Eu tinha certeza que os resultados dos exames das vitaminas B12 e D, por exemplo, estariam baixas. Só que o pai fez todos os exames e estavam ok. Realmente é inacreditável”, afirma o caçula da família.

E, segundo Leocádio, não foram apenas os resultados dos exames que melhoraram após a mudança na rotina alimentar. “Hoje eu tenho mais disposição e não sofro com as dores nas costas e nos joelhos que me incomodavam frequentemente antes de 2001. Inclusive, acho que minha aparência também está ficando cada vez melhor. Estou desenvelhecendo”, afirma.

Para ele, isso ocorre porque quase 90% das doenças são causadas pela alimentação inadequada. “Sem contar que, a cada dia, vemos pesquisas falando que um alimento faz bem e outros estudos falando que o mesmo alimento faz mal. Não há consenso”, pontuou o psiquiatra.

Sem necessidade de comer, Leocádio se alimenta por prazer e esvazia uma xícara de café todas as manhãs. Foto: Leticia Akemi

Sem comprovação científica

No entanto, a endocrinologista e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Rosângela Réa condena a prática da não-alimentação porque não há base científica que a comprove.

“Desconheço qualquer evidência científica de que as glândulas pineal e pituitária comecem a transformar a luz solar após o processo de 21 dias realizado pelos praticantes desse comportamento”, afirma.

Além disso, ela pontua que o perigo maior está nos primeiros sete dias do processo porque o ser humano não pode viver sem água. “Esse jejum total não é recomendado para ninguém e pode trazer sérios prejuízos à musculatura e ao organismo como um todo”.

O que ela concorda, entretanto, é com os benefícios de diminuir a quantidade de alimentos ingerida. “Existem vários estudos mostrando que comer pouco promove maior bem estar, melhora o sono e influencia na longevidade. Só que não deve ser algo drástico como parar de comer. Apenas reduzir a quantidade é suficiente”, orienta Rosangela.

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