Novo estudo mostra a relação entre uso de alguns remédios e a demência

Os pesquisadores investigaram os registros médicos de pacientes diagnosticados com demência e examinaram os remédios prescritos desde 11 anos até um ano antes de receberem o diagnóstico

demencia-medicamentoO estudo sugere que as pessoas que tomam há muito tempo medicamentos de uma classe terapêutica comum, as chamadas drogas anticolinérgicas, podem estar mais suscetíveis a desenvolver demência à medida que envelhecem. Foto: Bigstock

Um novo estudo sugere que as pessoas que tomam há muito tempo medicamentos de uma classe terapêutica comum, as chamadas drogas anticolinérgicas, podem estar mais suscetíveis a desenvolver demência à medida que envelhecem.

Essa não é uma hipótese nova sobre esses remédios, usados para tratar uma grande variedade de doenças, desde depressão até epilepsia, passando por incontinência urinária. Mas o estudo, divulgado na publicação científica “JAMA Internal Medicine”, é extenso, e examinou o uso das medicações mais detalhadamente e durante um período maior do que pesquisas anteriores.

Estas são as descobertas disponíveis sobre a possível relação entre drogas anticolinérgicas e demência:

De quais remédios estamos falando?

Os anticolinérgicos incluem o antipsicótico clozapina; a darifenacina (comercializada como Enablex), usada para tratar incontinência urinária; o remédio contra enjoo escopolamina; o broncodilatador ipratrópio; o relaxante muscular tizanidina; anti-histamínicos como a difenidramina (entre as marcas existentes, Benadryl); e antidepressivos como a paroxetina (como o Paxil).

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Tais medicações atuam bloqueando um neurotransmissor chamado acetilcolina, envolvido em muitas funções do sistema nervoso, incluindo movimentos musculares, frequência cardíaca, dilatação de vasos sanguíneos, funções respiratórias e contrações musculares no estômago durante a digestão.

Os adultos com idade mais avançada são os mais suscetíveis a serem medicados com essas drogas simplesmente por estarem mais predispostos a problemas de saúde. Alguns especialistas afirmam que, por produzirmos menos acetilcolina à medida que envelhecemos, as medicações que inibem esse neurotransmissor podem ter um efeito mais forte sobre os indivíduos mais velhos.

Os adultos com idade mais avançada são os mais suscetíveis a serem medicados com essas drogas simplesmente por estarem mais predispostos a problemas de saúde. Foto: Visual Hunt

O que as pesquisas anteriores indicavam?

Outros estudos também apontaram maior risco de pessoas mais velhas desenvolverem demência em consequência do uso prolongado de algumas medicações anticolinérgicas.

Por exemplo, uma investigação de 2015, conduzida por pesquisadores da Universidade de Washington, descobriu que os indivíduos com idade a partir de 65 anos que tomaram esses fármacos por, no mínimo, três anos apresentaram risco 54 por cento mais alto de desenvolver demência do que aqueles que tomaram os mesmos remédios por menos de três meses.

Uma revisão de 2014 encontrou mais de 30 estudos que indicam que a confusão mental e outros sintomas de declínio cognitivo aumentam de acordo com a quantidade de remédios anticolinérgicos ingerida por alguém.

O médico Malaz Boustani, diretor do Centro Regenstrief de Inovação em Saúde e Ciência da Implementação, da Universidade de Indiana, criou uma ferramenta batizada de escala de carga anticolinérgica cognitiva, que classifica os fármacos por seus possíveis efeitos sobre a cognição. Os especialistas sugerem evitar o uso prolongado de remédios com nota 3 na escala – ou combinações de drogas que, juntas, atinjam nota 3.

O que estava envolvido no novo estudo?

A pesquisa, conduzida por Carol Coupland, professora de estatísticas médicas em cuidados primários da Universidade de Nottingham, na Inglaterra, e colegas, avaliou drogas anticolinérgicas prescritas a quase 285.000 pessoas a partir de 55 anos. Aproximadamente 59.000 delas foram diagnosticadas com demência. A informação veio de uma base de dados de prontuários médicos de pacientes em mais de 1.500 atendimentos primários na Grã-Bretanha, afirmaram os autores.

Os pesquisadores investigaram os registros médicos de pacientes diagnosticados com demência e examinaram os remédios prescritos a eles desde 11 anos até um ano antes de receberem o diagnóstico. Eles compararam as medicações durante essa janela de tempo com as ingeridas por pessoas sem o diagnóstico de demência.

Além disso, catalogaram quais dos 56 fármacos anticolinérgicos foram prescritos, em que dosagem e por quanto tempo. Levaram em consideração fatores como índice de massa corporal, tabagismo, consumo de álcool, outras condições médicas e uso de outros remédios.

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O estudo encontrou um aumento de 50% no risco de demência entre pessoas que usaram um forte anticolinérgico diariamente por cerca de três anos dentro daquele período de uma década. A pesquisa garante que a associação foi mais intensa para antidepressivos, remédios contra incontinência, antipsicóticos e medicações para epilepsia. Os cientistas não encontraram nenhum risco aumentado de demência com uso de anti-histamínicos, broncodilatadores, relaxantes musculares ou drogas usadas para dores abdominais ou arritmias cardíacas.

Os autores também relataram que a conexão entre fármacos anticolinérgicos foi mais potente em pessoas diagnosticadas com demência antes de completarem 80 anos e em indivíduos com demência vascular, em comparação aos acometidos pela doença de Alzheimer.

Quais são as limitações da pesquisa?

Uma importante ressalva em relação a esse tipo de estudo é o fato de ele ser observacional – ou seja, não há como saber se o uso da medicação teve papel direto na causa da demência. Só fica provado que o risco de desenvolver demência é aparentemente mais alto em pessoas que tomam alguns desses fármacos.

Os autores observam também ser possível que algumas condições, como a depressão, sejam precursoras do comprometimento cognitivo. É possível, por exemplo, que as pessoas que tomam antidepressivos estejam na verdade sendo tratadas para o que virá a ser o sintoma inicial de demência; portanto, é a depressão que está relacionada ao risco aumentado de demência – e não o remédio tomado para tratá-la.

Qual a conclusão?

É possível, apesar de não comprovado, que alguns remédios anticolinérgicos aumentem o risco de demência. Se você precisar de tratamento em longo prazo para uma das condições médicas relevantes, converse com seu médico sobre outras opções medicamentosas fora da classe dos anticolinérgicos, como os antidepressivos Citalopram e Prozac. Em muitos casos, eles podem figurar como opções.

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