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O comprimido não tem um papel tão impactante na prevenção de eventos cardíacos. Foto: Bigstock
O comprimido não tem um papel tão impactante na prevenção de eventos cardíacos. Foto: Bigstock| Foto:

A fama de a aspirina ser a protetora dos corações contra enfartes não funciona para todo mundo. Nos últimos meses de 2018, dois grandes estudos (ARRIVE e ASPREE) foram divulgados por revistas científicas reconhecidas, como Lancet e New England Journal of Medicine (NEJM), e confirmam o que os médicos desconfiavam: o comprimido não tem um papel tão impactante na prevenção de eventos cardíacos entre quem nunca passou por um problema do tipo (chamada de prevenção primária), e ainda aumenta o risco de sangramento.

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Isso significa que, quem faz uso da aspirina diariamente, sem orientação médica, na tentativa de manter a saúde cardíaca, na maior parte dos casos não vai obter os efeitos desejados.

“A redução potencial que o paciente poderia ter com a adição da aspirina não é maior que o risco de uma complicação do medicamento, que normalmente é o sangramento gastrointestinal”, explica Rodrigo Cerci, médico cardiologista e diretor científico da Sociedade Paranaense de Cardiologia.

Uso das aspirinas entre pessoas que nunca tiveram um evento cardíaco importante não traz os efeitos protetores imaginados pelos pacientes (Foto: Bigstock)
Uso das aspirinas entre pessoas que nunca tiveram um evento cardíaco importante não traz os efeitos protetores imaginados pelos pacientes (Foto: Bigstock)

Embora não tenha um efeito importante na prevenção primária, a ação da aspirina é diferente — e muito mais indicada — na prevenção secundária, ou entre pessoas que já passaram por enfartes, derrames ou obstrução das artérias, cirurgias de ponte de safena ou stent no passado. Quem enfarta tem um risco maior de ter um novo evento cardíaco, conforme alerta Cerci, e o ácido acetilsalicílico reduz essa probabilidade.

Eficácia

O medicamento, no entanto, não está excluído das opções terapêuticas na prevenção primária.

“Ainda fica uma brecha para usar a aspirina em indivíduos com muitos fatores de risco (hipertensão, diabetes descontrolada, colesterol alto e obesidade), onde você acredita que a probabilidade de sangramento é baixa. O paciente que sangraria mais com a aspirina é aquela com histórico de úlcera ou com sangramento digestivo. Nessas, não vale a pena usar a aspirina”, explica José Rocha Faria Neto, médico cardiologista do hospital Marcelino Champagnat e professor titular de Cardiologia da PUCPR.

Mudar hábitos é melhor substituto

Manter hábitos de vida saudáveis, como alimentação adequada e exercícios físicos regulares, tem efeito muito maior no controle de doenças cardíacas que a aspirina, segundo Rodrigo Cerci, médico cardiologista.

“A aspirina é como um seguro do carro. Ela não vai evitar que você bata o carro, mas entre aquelas pessoas mais propensas a bater, ou que já bateram o carro antes, caso se envolva em um acidente, vai reduzir os danos. A aspirina não evita a aterosclerose, mas se a placa romper, o medicamento diminui o risco de o enfarte ser mais grave, e possibilita mais tempo para que o paciente chegue ao hospital”, explica Cerci.

Para Mário Sérgio Cerci, médico cardiologista do hospital VITA, hospital do Coração e professor de Medicina da UFPR, entre usar ou não a aspirina, o melhor a fazer é consultar um médico de confiança. “O paciente dá mais crédito ao que o médico fala quando há uma boa relação entre eles.”

Por que a aspirina faz “sangrar”?

O risco de sangramento favorecido pela aspirina acontece porque ela, ou o ácido acetilsalicílico, tem uma ação antiplaquetária. Quando há um corte na pele, por exemplo, as células plaquetas se deslocam ao local da lesão e, ao se agregarem uma a outra, formam os coágulos, fechando o machucado. Se a pessoa faz uso da aspirina, a atuação das plaquetas fica comprometida, favorecendo o sangramento do paciente.

“Uma das formas de determinar o risco em um paciente sem evento cardíaco prévio é o exame de escore de cálcio. É uma tomografia do coração, feita sem contraste. Quando há cálcio, indica um risco maior, indica a aterosclerose. Mas acontece muito são pessoas com casos de enfarte na família que fazem esse exame e apresentam resultado zero, e muitas tomam aspirina sem necessidade” – Rodrigo Cerci, médico cardiologista e diretor científico da SPC.

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