É verdade que comer menos nos faz viver mais?

Quem nunca invejou a vitalidade de alguém mais velho e foi aconselhado a “comer como um passarinho”? Para especialistas, reduzir calorias abruptamente pode ser perigoso

A quantidade de calorias é apenas um dos fatores que contribuem para um envelhecimento saudável. Entram nessa conta dados como o metabolismo da pessoa, a quantidade incorporada de vitaminas, minerais e hormônios, além de exercícios físicos para compor o ponto de equilíbrio, responsável pela qualidade de vida. Foto: Bigstock.A quantidade de calorias é apenas um dos fatores que contribuem para um envelhecimento saudável. Entram nessa conta dados como o metabolismo da pessoa, a quantidade incorporada de vitaminas, minerais e hormônios, além de exercícios físicos para compor o ponto de equilíbrio, responsável pela qualidade de vida. Foto: Bigstock.

Quem nunca viu esta cena? Um idoso, em plena atividade, chamando atenção por seu vigor. Onde ele passa sempre tem alguém que não se aguenta e pergunta: “quantos anos ele tem”? Depois do choque do público, ao contar as décadas e mais décadas nos dedos, aparece um conhecido no meio da roda para carimbar: “fulano está assim porque come feito um passarinho”.

Mas, contar cada grão não é garantia alguma de longevidade. É o que explica o nutrólogo e geriatra, Emerson Tobias Fischer. O médico é especialista em longevidade saudável e acredita que o corte indiscriminado de calorias pode representar um perigo.

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“Ainda não vi estudo que me convencesse de que o corte, seja com restrição de horário ou consumo calórico, nos faça viver mais. Pelo contrário. Já tive casos de pacientes que vinham evoluindo a cada consulta e do nada, pelos exames, eu percebi que estavam perdendo massa magra. Bastava perguntar para que me respondessem que estavam fazendo o jejum intermitente, porque todo mundo está falando”.

O médico explica que a quantidade de calorias é apenas um dos fatores que contribuem para um envelhecimento saudável. Entram nessa conta dados como o metabolismo da pessoa, a quantidade incorporada de vitaminas, minerais e hormônios, além de exercícios físicos para compor o ponto de equilíbrio, responsável pela qualidade de vida.

“O quanto devemos comer varia de pessoa para pessoa, por conta do gasto energético. Tenho pacientes, que com 70 anos tem uma indicação para comer mais de 3 mil calorias por dia, porque estão com os outros aspectos equilibrados. E tenho outros pacientes, bem mais novos, que tem indicação de comer metade disso, pelo seu estilo de vida e por precisarem de algum nível de reposição”.

Cada pessoa tem uma necessidade nutricional e é por isso que fazemos várias análises de composição corporal e levamos em consideração as preferências alimentares e o ritmo de vida, para chegar a um cálculo ideal de calorias para cada um. Foto: Bigstock.

A nutricionista Josiele Hister Ventura acredita que a associação entre a magreza de um idoso e sua vitalidade se fia apenas em coincidências e que devem ser considerados fatores naturais no desejo do idoso de comer menos.

“Eles ficam com a digestão mais lenta, mesmo a dentição já não ajuda em uma mastigação efetiva e os priva de alguns nutrientes e, em certa medida, também é esperada uma redução natural da massa magra. Por isso não é possível estabelecer esta relação direta entre a redução do prato e o aumento dos anos. Está muito mais ligado ao estilo de vida que cada um levou antes desse período”, diz a nutricionista Josiele Hister Ventura.

A nutricionista diz que reduzir as calorias sem acompanhamento profissional pode levar o paciente a desenvolver problemas sérios. “Dizer que devemos cortar tanto de calorias ou copiar a dieta que viu de um amigo, é como tentar pintar uma casa à distância. Cada pessoa tem uma necessidade nutricional e é por isso que fazemos várias análises de composição corporal e levamos em consideração as preferências alimentares e o ritmo de vida, para chegar a um cálculo ideal de calorias para cada um. Todo corte de alimentos precisa ser visto com o olho clínico, pois gera um desgaste grande. Vimos muito isso com a antiga dieta dos pontos”, relembra.

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No fundo dos mitos, um Nobel

Quando o Nobel de medicina Yoshinori Ohsumi venceu o prêmio há três anos, por uma pesquisa sobre autofagia das células, provavelmente não imaginava o frisson que iria causar nos entusiastas das restrições calóricas.

De lá para cá, qualquer nutricionista não deixou de notar o aumento dos pacientes que os procuram para seguir um dos dois caminhos: a vontade de iniciar o famoso jejum intermitente ou reduzir, em pelo menos 30%, a quantidade de calorias que normalmente ingere.

A grosso modo, a pesquisa de Ohsumi comprovava que nossas células, quanto expostas a um grande estresse — como falta de alimentos ou uso de cigarro, por exemplo — passam a se auto consumir, começando pelas partes ruins. Uma verdadeira faxina no organismo que, se prolongada, pode levar à destruição completa das mesmas.

Para a nutricionista Josiele Ventura a reciclagem das células sob estresse não serve a qualquer um. “Para quem já mantém uma dieta saudável, com ingestão de óleos bons e carboidratos complexos, por exemplo, esta pode ser uma opção. Mas para quem ingere muito açúcar e alimentos processados vai estar se sujeitando a um risco, com picos glicêmicos, que serão prejudiciais à saúde”, alerta.

O colega Emerson Fisher concorda. Para ele, o corpo precisa de um período longo para se adaptar a uma alteração tão brusca na dieta. “Nós vemos que em algumas pessoas que têm aplicado o jejum ou o corte, existe até a perda de músculo em vez da massa gorda, em muitos casos levando até a uma sarcopenia (redução da massa magra e enfraquecimento muscular). Para mim, quem quer envelhecer de forma saudável tem que buscar seu ponto de equilíbrio e saber que não se deve mexer em algo que está quieto, quando nos sentimos bem”.

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