Come pouco e engorda? Saiba o que pode estar minando sua dieta

Comer pouco não significa, necessariamente, ingerir poucas calorias. As calorias mais perigosas, muitas vezes, moram nos detalhes, como no cafezinho com açúcar ou nas balas de cada intervalo no trabalho

Comer pouco engordar não é uma desculpa. A responsabilidade pode ser de uma distorção do quanto seria esse "pouco". Foto: Bigstock.

Na hora de começar uma dieta, o que não falta é palpite alheio. Aquela fórmula milagrosa, aquele alimento secreto ou até crenças — algumas vezes equivocadas — sobre o funcionamento do nosso corpo. Em grande parte dos casos o metabolismo, a tireoide e a genética levam a culpa pela dificuldade em perder peso — mas será que eles são realmente os vilões?

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Entre os dilemas mais comuns, está o famoso “como pouco e engordo; deve ser o metabolismo”.

Para a fisiologista, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Anita Nishiyama, isso não é exatamente algo falso, mas há muitos outros fatores que não a deixam ser uma verdade absoluta. O primeiro deles é a forma como a pessoa se vê.

Quem tem algum distúrbio alimentar pode ter uma alteração na percepção cognitiva e emocional. Ou seja, ela acredita que está comendo pouco, mas na realidade não está.

“Não é uma mentira [acreditar que come pouco e engorda], muitas vezes a pessoa realmente acredita que é pouca [comida], mas é um julgamento distorcido”, comenta Anita.

A médica ainda explica que o padrão hormonal muda em cada época da vida — o que faz o metabolismo de uma pessoa de 20 anos ser diferente de uma pessoa de 40 anos, por exemplo.

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Doenças pré-existentes e hábitos alimentares também influenciam. É verdade “que duas pessoas comendo a mesma coisa e a mesma quantidade vão metabolizar de formas distintas”. No entanto, antes de afirmar que esse é o grande problema, existem outras variáveis que precisam ser eliminadas.

As calorias escondidas

Comer pouco não significa, necessariamente, ingerir poucas calorias. As calorias mais perigosas, muitas vezes, moram nos detalhes, como no cafezinho com açúcar ao longo do dia ou nas balas de cada intervalo no trabalho.

Até as frutas podem “enganar” a quantidade de calorias. Foto: Bigstock

Até mesmo as frutas podem enganar, salienta a nutricionista doutora em Alimentos e Nutrição e professora do curso de Nutrição da UFPR Angélica Aparecida Maurício. “Elas acham que fruta não engorda. A gente indica comer melancia, mas não comer a melancia inteira”.

“A grande maioria das pessoas se coloca por trás dessa frase [“como muito e não engordo”]. Mas isso não é uma verdade. O problema não é comer muito ou pouco, mas sim o que você come”, resume Angélica.

Esses alimentos que parecem inofensivos contêm o que a nutricionista e pesquisadora em Nutrição Medicinal Aline Quissak chama de calorias escondidas.

As bolachas do trabalho, quitutes de coffee breaks ou até aquela salada com molho no buffet do restaurante – “só o molho pode chegar a 800 calorias, praticamente dois terços do que ela precisa consumir o dia inteiro”, diz a nutricionista.

“Tem gente que chupa seis balas por dia. Isso é quase a mesma quantidade calórica de um hambúrguer — mas as pessoas acabam não contabilizando. Isso atrapalha o emagrecimento sem a pessoa perceber”, alerta Aline.

O exemplo também vale para outras refeições. Segundo a nutricionista, um prato grande de folhas, vegetais crus, carne, arroz e feijão tem, em média, 250 calorias.

Já um “inofensivo” pacote de bolacha chega a 600. “A pessoa acha que comeu pouco porque foram poucas unidades, mas elas têm muitas calorias”. Entra aí, também, outra desculpa. “Fiz tudo que o profissional pediu e não emagreço”, relembra Angélica.

Qualidade > quantidade

Outro ponto crucial que deve ser analisado é como o corpo recebe cada substância do alimento.

As calorias escondidas contêm, no geral, elementos que o corpo não consegue processar, os chamados obesogênicos. Isso dificulta a digestão, deixando o metabolismo mais lento, e vira acúmulo, já que eles não têm nenhuma outra função no organismo. Balas, açúcar e outros industrializados fazem parte desse grupo.

Se a pessoa tirasse essas calorias escondidas, ela nem precisaria fazer um dieta restritiva”, conclui Aline.

Segundo a fisiologista, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Anita Nishiyama, a questão das calorias já é ultrapassada, pois ela fala pouco sobre como o corpo vai receber aquele alimento.

“É preciso, sim, pensar na funcionalidade de cada alimento, o que nosso corpo vai fazer com as substâncias contidas neles”, diz Anita Nishiyama.

 O lado emocional da comida

Mente saudável, corpo saudável. Na nossa cultura, muitos momentos envolvem comida — seja para comemorar ou esquecer as mágoas e frustrações.

“Quando ela está triste e não consegue resolver um problema, quer um conforto momentâneo. E muitas vezes ela opta pela comida por saber que vai trazer felicidade automaticamente”, reflete Aline, que também é especialista em Psicologia da Nutrição.

A fisiologista Anita Nishiyama ainda alerta para o comportamento condicionado, aquele que o corpo aprende:

“A pessoa está ansiosa e aprende que comer uma barra de chocolate alivia, então ela passa a associar a diminuição da ansiedade com a ingestão de um alimento palatável.”

Os alimentos palatáveis são ricos em gordura e energia, aqueles que a maioria das pessoas gosta de comer. O estresse é um fator que condiciona a pessoa a priorizá-los – o que acaba por se tornar um círculo vicioso.

“Quando a pessoa vai engordando, o próprio peso se torna estressante, e assim ela vai comendo cada vez mais, isso gera mais estresse e, por isso, ela come mais”, explica Anita.

Outras “desculpas”

Tudo é tireoide

Segundo Aline, creditar à tireóide pelo aumento de peso é uma espécie de mito. Disfunções nessa glândula, como o hipotireoidismo, alteram o funcionamento do organismo – mas não são a causa do ganho de peso. “Só se ganha gordura ingerindo excesso de caloria. Ela pode comer pouco, mas estar consumindo muita caloria – a qualidade dos alimentos é que importa”, reforça.

É só inchaço

A retenção de líquidos existe, mas não pode ser culpada pelo ganho de peso. “Pode até acontecer, mas ninguém dobra de peso por inchaço”, alerta Angélica.

Questão de genética

É o mesmo caso do metabolismo, compara Angélica. Em muitas situações as crianças são obesas porque os pais têm hábitos alimentares muito ruins. “A maioria dos casos vem de hábitos alimentares errados que são passados de geração em geração – e acaba se tornando uma desculpa”, contextualiza.

Descontrole hormonal

Esse descontrole hormonal pode ser gerado por falta de serotonina, resistência à leptina (má comunicação do corpo, em que a pessoa não consegue perceber que está satisfeita) ou problemas no fígado. “Quando [o paciente] percebe que tem algo mais forte do que ele e seus esforços, precisa procurar um nutricionista para fazer uma avaliação hormonal”, indica a nutricionista.

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