Dieta paleolítica: devemos evitar o que os homens das cavernas não comiam?

A dieta paleolítica consiste em ingerir alimentos de caça e pesca, além daqueles de origem vegetal

A dieta "do homem das cavernas" é a seguinte: se o homem das cavernas não comia, você também não deve comer. Mas será que esse é um conselho nutricional seguro? Foto: Bigstock

Hoje em dia parece que, de cada três pessoas, uma está fazendo a dieta paleolítica ou planejando começá-la, com o objetivo de emagrecer ou melhorar a saúde – mas certamente não de salvar o planeta.

A premissa do regime é a seguinte: se o homem das cavernas não comia, você também não deve comer. Mas será que esse é um conselho nutricional seguro?

Vamos começar com três fatos básicos:

1. Não existe “uma” dieta paleolítica. O período durou 2,5 milhões de anos e envolveu populações diferentes e em evolução contínua, com uma diversificação dietética determinada pelo clima, geografia, estação e disponibilidade.

2. O ser humano de hoje e a composição dos alimentos que consome não são os mesmos do tempo paleolítico. Mudanças genéticas e cruzamentos resultaram em organismos bem diferentes de ambos.

3. Não há estudos de grandes grupos que sigam as versões populares atuais da dieta para avaliar os efeitos em longo prazo à saúde.

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Não se pode esquecer que a expectativa de vida das pessoas antes do advento da agricultura, há quinze mil anos, raramente chegava ou excedia os 40, ou seja, o risco de desenvolverem as chamadas “doenças da civilização” é desconhecido.

Porém, há uma premissa básica da dieta da qual a saúde geral pode se beneficiar: evitar todos os alimentos embalados e/ou processados. Dito isso, vejamos o cardápio diário de 2.200 calorias sugerido em um livro popular que ensina como comer como um homem das cavernas:

Café da manhã: 340 gramas salmão grelhado, 1 xíc e 3/4 de melão cantalupo.

Almoço: 85 gramas de carne de porco magra assada, 4,5 xícs. de salada temperada apenas com suco de limão.

Jantar: 227 gramas de maminha de forno, 3 xícs. de brócolis no vapor, 4,5 xícs. de salada (sem óleo, embora algumas versões permitam azeite), 1 xíc. de morangos.

Lanchinhos: 1/2 laranja, 3/4 xíc. de cenoura picada, 1 xíc. de salsão.

Deficiências nutricionais

Alimentos de origem animal são a base da dieta.  Foto: Pixabay

Com tantos legumes e frutas, a dieta garante bastante fibra e a maioria das vitaminas e minerais essenciais. Apesar de algumas deficiências nutricionais sérias, como cálcio e vitamina D geradas da falta de produtos lácteos, desprezados pelos adeptos, ela parece bem saudável – contanto que seus rins lidem com o excesso de proteína.

Mas será que ela é prática? Quanta gente que tem que levar os filhos para a escola de manhã e, ao mesmo tempo, se aprontar para o trabalho, tem tempo de assar salmão? O que fazer quando se come fora, principalmente na casa dos outros? E o mais importante de tudo, será que a pessoa consegue permanecer no regime indefinidamente e viver feliz sem um pedaço de pão, uma bolacha ou – horror dos horrores – uma bola de sorvete?

Fico imaginando se os seguidores da dieta, diante das opções atuais disponíveis, conseguem se manter fiéis aos alimentos de origem animal magros (carne orgânica, frango caipira sem pele etc.) – ou será que ficariam tentados a optar por cortes mais calóricos, mais gordos e suculentos, tipo peito, hambúrguer e costeleta de …
porco? Pior ainda, podem escolher carnes processadas como bacon (permitido em algumas versões) e linguiças, que já foram ligados a um alto risco de câncer e doenças coronárias. Será que se rendem ao uso da manteiga e do sal para melhorar o sabor dos legumes cozidos?

Como incorporar as dietas na vida moderna

Em minha opinião, uma dieta no estilo mediterrâneo – hoje promovida por muitos nutricionistas e pesquisadores que estudam o efeito do que comemos – é muito mais fácil de incorporar na vida moderna com riscos mínimos à saúde. Sem contar que é muito mais bem balanceada em termos nutricionais e infinitamente mais saborosa.

Como adaptar a dieta aos dias atuais? Foto: Bigstock

Segundo seus preceitos, consome-se apenas pequenas porções de alimentos de origem animal, pois a proteínas são obtidas principalmente de fontes vegetais, como as leguminosas. Inclui azeite e outras gorduras monoinsaturadas. É mais variada, mais acessível, menos danosa ao meio ambiente e mais fácil de encaixar nas exigências da vida que vivemos hoje.

Diversos estudos em curto prazo com pequenos grupos (geralmente sem grupos de controle) sugerem que a dieta paleolítica seja mais eficiente que a mediterrânea em termos de emagrecimento e redução de fatores de riscos para diabetes tipo 2 e doenças cardíacas, mas ainda assim meu voto vai para a segunda, mais flexível e que passou por muitas pesquisas mais.

E o leite?

Uma alegação comum entre os adeptos da paleo, entre outras, é a de que somos os únicos mamíferos que bebem leite após o desmame, o que é verdade. Muita gente perde a capacidade de digerir a lactose do leite ainda na primeira infância. Por outro lado, como a bióloga evolucionária da Universidade de Minnesota, Marlene Zuk, observa, muitos outros desenvolveram uma capacidade vitalícia de produzir a enzima de conversão lactase, mudança que vem ocorrendo de cinco a sete mil anos e é apenas um exemplo de como o ser humano pode mudar e já mudou, com relativa rapidez, desde os dias paleolíticos.

E embora seja aconselhável (de acordo com a paleo) comer bem menos amidos, principalmente farinha branca e grãos refinados que nosso organismo transforma rapidamente em açúcar, Zuk notou que as pessoas continuavam a desenvolver genes para a amilase, enzima que catalisa os amidos na saliva e no intestino delgado.

É verdade também que nosso microbioma – os bilhões de organismos que residem em nossa flora intestinal – é completamente diferente hoje do que o dos tempos paleolíticos e afeta a forma como nosso corpo processa o que comemos.

Por fim, há um outro aspecto crítico referente às populações paleolíticas que é completamente diferente da vida que levamos hoje em dia: as pessoas daquela época eram caçadores-coletores e passavam a maior parte do tempo andando e buscando alimento, com tempo de sobra para prepará-lo e consumi-lo.

Se você está disposto a fazer tudo isso, vá em frente.

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