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Fazia pouco mais de cinco horas que o avião havia saído do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, com destino ao aeroporto Fiumicino, em Roma, na Itália, quando uma forte turbulência sacolejou os passageiros e tripulantes. O movimento não tinha sido tão forte, mas um passageiro sentiu-se mal logo depois, gerando uma emergência no avião.

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Sem conseguir acalmá-lo, e por sentir fortes dores no peito, a tripulação achou melhor encontrar um médico na aeronave – e foi aí que a viagem de Marília Cristina Milano Campos de Camargo, especialista em clínica médica, se transformou em um “plantão médico”.

“Quando eles perguntaram se havia algum médico, eu me identifiquei. Fui atender no meio da turbulência e a chegada até a cadeira dele foi meio ruim. Porque, teoricamente, ninguém poderia se levantar. Mas eu fui, conversei com ele e com a família, olhei toda a medicação que tinha com ele e a própria companhia aérea me disponibilizou o que eu precisava, estetoscópio, aparelho de pressão”, relata a médica.

Era a primeira vez que ela havia atendido um paciente durante um voo e, até hoje, ela não passou por nenhuma outra situação similar – para seu alívio. “A gente passa por um estresse muito grande. Você não tem certeza de nada e não tem muito o que fazer. Na caixinha de medicamentos do avião tem analgésicos, antitérmicos, mas são medicamentos bem básicos. Por sorte ele tinha os medicamentos próprios e conseguimos medicá-lo com o que ele tinha”, conta Marília. 

Depois de muita conversa, a médica percebeu que o paciente havia tido uma forte crise de ansiedade, mas que, mesmo assim, exigia atenção constante.

“O voo estava cheio e ninguém trocou de lugar comigo, então fiquei sentada no chão, ao lado dele, durante um bom período. Percebi que ele mantinha os dados cardíacos estáveis e acabei convencida que foi uma reação de ansiedade. Voltei ao meu lugar, mas até a chegada em Roma fiz alguns passeios entre a minha poltrona e a dele, conversando”, explica a médica, que recebeu informações do paciente depois do desembarque, através da companhia aérea, que disse que o diagnóstico da ansiedade estava correto.

“Você não dorme mais. Você tem medo de dormir e, de repente, ver que o paciente não está bem. A minha viagem foi um plantão. Eu sentava, dava um tempo e ia vê-lo. Não foi uma experiência que eu diria prazerosa, mas quando descemos, e ele estava bem, isso me deu uma alegria” – Marília de Camargo.

“Ninguém deixa de ser médico durante as férias”

Em dois momentos, Gustavo Justo Schulz, médico gastroenterologista superintendente médico do Hospital VITA Batel, foi chamado a prestar atendimento durante uma viagem de avião. Na primeira, em um voo nacional, o cuidado foi rápido e sem maiores problemas, visto que o passageiro tinha sintomas de enjoo. Bastou um remédio para que passasse e o voo voltasse ao normal.

A segunda vez, no entanto, exigiu um pouco mais de atenção e memória do médico para os problemas que podem surgir quando estamos trancados há 11 mil metros de altitude. Mesmo que o avião esteja pressurizado, não é impossível passageiros sentirem os efeitos da altura, e uma das principais intercorrências é a síncope vasovagal, com a queda súbita da frequência cardíaca e da pressão arterial, resultando em desmaio.

“Foi mais complicado porque o paciente perdeu a consciência. Como o espaço do avião é reduzido, levamos para a área traseira do avião, ali onde eles preparam as refeições, que é um pouco maior que o espaço do corredor”, relata Gustavo. Lá, o médico ajudou o paciente a voltar à frequência cardíaca normal e, uma vez estabilizado, o voo continuou sem maiores problemas.

“Em situações mais graves, o médico entra em contato com a tripulação e piloto para solicitar o pouso forçado. Mas não é comum, não é algo que o médico diga que acontece sempre. A possibilidade, porém, faz parte. Ninguém deixa de ser médico durante as férias. Mesmo se você estiver andando pela rua XV e vir alguém passando mal, não pode passar reto, tem a obrigação ética de ajudar” – Gustavo Schulz, médico gastroenterologista. 

Os principais problemas que podem surgir durante um voo

Quando entramos em um avião e viajamos a uma altitude de cruzeiro, o organismo passa por adaptações físicas importantes.

Ocorre a expansão do volume dos gases, normalmente presentes em cavidades como orelha interna, seios da face e trato gastrointestinal. A tensão do oxigênio presente no sangue arterial, por outro lado, reduz. E esses fatores podem colaborar com algumas das intercorrências mais comuns dentro do avião, como a síncope vasovagal (desmaio), sintomas respiratórios, cardíacos, convulsões, náuseas, vômitos e reações alérgicas.

Nem sempre os médicos lembram desses detalhes a cada viagem e o Conselho Federal de Medicina compartilhou uma cartilha aos profissionais com orientações gerais para os médicos que estiverem a bordo. Embora traga informações voltadas aos médicos, futuros passageiros também têm acesso ao conteúdo.

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