Vídeos ensinam a furar os dedos de vítima de AVC: por que isso não é eficaz?

Apenas uma postagem com um vídeo que sugeria a prática de furar um paciente com um AVC em curso obteve 37 milhões de visualizações e 900 mil compartilhamentos, mas isso pode ser perigoso

No caso do AVC não há tratamento que possa ser feito em casa. Foto: Bigstock.No caso do AVC não há tratamento que possa ser feito em casa. Foto: Bigstock.

Quem usa a internet já deve ter se deparado com vídeos que “ensinam” uma técnica que consiste em furar os dedos de uma pessoa que acabou de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC), para socorrê-la. Já avisamos: esse suposto jeito de atender um paciente nessas condições é fake news (e das mais perigosas).

Basicamente, o que os vídeos propagam é a ideia de que se deve furar com uma agulha o indivíduo que sofreu o derrame para fazê-lo sangrar e, então, esperá-lo melhorar ou recobrar os sentidos.

Apesar de apresentarem uma série de informações aparentemente endossadas, é preciso saber desconfiar desse tipo de conteúdo. Especialmente quando eles falam sobre saúde e oferecem soluções fáceis para questões complexas, como um AVC.

A médica neurologista Catarina De Marchi, do Hospital Angelina Caron, comenta que esse é um boato antigo, originado fora do Brasil, mas que alguém resolveu traduzir por aqui.

“Encontrei comentários sobre isso nos Estados Unidos que datam de 2006. Sempre que via os textos em português, me pareciam uma tradução malfeita, então imaginei que fossem informações de fora”, diz.

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Segundo ela, esses conselhos por vezes aparentam não fazer mal, contudo, no caso deste específico, traz alguns problemas que o tornam nocivo. “Algumas versões do boato sugerem sentar a provável vítima de AVC. Na realidade, preferimos que o paciente permaneça deitado para evitar que haja queda da pressão arterial de maneira súbita, o que pode piorar o quadro do AVC em andamento”, coloca.

Em caso de AVC, o paciente deve ser encaminhado ao atendimento médico o mais rápido possível. Foto: Bigstock

Sobre o principal conselho dos vídeos – furar os dedos e causar algum sangramento – Catarina comenta que o problema maior é essa conduta não oferecer benefício algum em uma situação em que se está correndo contra o tempo, indo na contramão de todas as recomendações atuais de uma emergência como essa.

“Além disso, imagino o estresse emocional causado no paciente que pode estar confuso pelo AVC e tem seu dedo machucado por alguém que provavelmente também está nervoso. Estresse emocional libera substâncias nocivas no sangue e pode piorar o quadro. Receita para um desastre, portanto”, continua a médica.

A melhor conduta

Infelizmente, no caso do AVC não há tratamento que possa ser feito em casa. O paciente precisa, obrigatoriamente, de assistência médica de emergência (nas classificações de emergência em pronto-socorro, essa é uma das prioritárias). De acordo com Catarina, o ideal é que o paciente esteja no hospital o mais rápido possível, pois o tratamento do AVC isquêmico (o que falta sangue no cérebro e também o mais comum) precisa ser instituído em até quatro horas e meia a partir do momento em que os sintomas se iniciaram. Porém, quanto mais cedo, melhor.

Sendo assim, no caso de suspeita de AVC, chamar o serviço do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) seria a opção mais adequada. “Na cidade de Curitiba e região metropolitana, por exemplo, já existe um protocolo que direciona esses chamados para ambulâncias que poderão levar o paciente para o hospital mais próximo capacitado a fornecer o tratamento do AVC.

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Nesses casos, mesmo que o paciente possua convênio, poderá ser usado o Sistema Único de Saúde (SUS) para o primeiro atendimento, já que a pressa é para que o primeiro medicamento seja administrado o quanto antes. Caso se opte por levar o paciente diretamente, sem ambulância, para um pronto-socorro, é importante verificar se o hospital possui protocolo de atendimento ao AVC, para não perder tempo”, orienta Catarina.

Enquanto o socorro não vem

Se furar os dedos do paciente nunca é uma opção, a médica neurologista Catarina De Marchi dá dicas do que pode ser feito enquanto o socorro não chega. “Manter o paciente calmamente deitado, idealmente se possível, de lado, pois isso ajuda a evitar que ele se engasgue com a saliva. Não fornecer nada via oral, nem água, antes de chegar ao hospital”, diz ela.

Isso porque há a possibilidade de o paciente não estar engolindo adequadamente, o que pode acabar causando broncoaspiração (quando o alimento vai para o pulmão) e pneumonia.

“Como é um momento de estresse emocional para todos os envolvidos, recomendamos anotar o horário de início dos sintomas ou a última hora que o paciente foi visto saudável. Essa informação é muito preciosa para o atendimento e, infelizmente, é comum que haja esquecimento desse horário. Também convém recolher todas as medicações que o paciente fazia uso contínuo, ou suas receitas médicas”, continua a médica.

Na hora da admissão do paciente no hospital, é fundamental que haja um acompanhante que possa informar, além desses dados, o peso do paciente e toda informação relativa ao seu histórico de saúde. “Nessa hora é muito importante sabermos sobre cirurgias feitas nos últimos meses, bem como história recente de batidas de cabeça importantes e acidentes. Isso tudo influencia muito no tratamento, e é triste quando não dispomos das informações de saúde do paciente, pois isso pode impossibilitar o tratamento correto ou mesmo causar complicações”, avalia Catarina.

Durante o AVC

Em alguns casos, pode ser que os sintomas típicos de AVC se apresentem junto com uma crise convulsiva. Nesses casos, a calma também é fundamental e as orientações gerais permanecem iguais.

“O mais importante é verificar se o paciente está longe de objetos cortantes ou que possam causar machucados. Se possível, colocar um travesseiro abaixo da cabeça. Nunca tentar segurar a língua do paciente ou colocar algo na boca – além de não ser necessário, pode causar uma mordida involuntária e machucar quem está tentando ajudar. Normalmente a crise convulsiva, por mais dramática que seja, dura menos de cinco minutos”, explica Catarina.

Para ajudar alguém infartando, ligue para emergência

O mais importante é verificar se o paciente está longe de objetos cortantes ou que possam causar machucados. (Foto: Bigstock)

Segundo ela, mais uma vez é importante que seja verificado com exatidão o tempo de duração da crise. Também ajuda muito saber se os sintomas começaram em um lado do corpo e depois acometeram o corpo inteiro, por exemplo. Ou seja, para muito além de buscar qualquer solução caseira, observar e anotar todo detalhe é importante.

O que diz a American Heart Association (AHA), entidade autoridade em assuntos relativos a doenças do coração, circulação e AVC

Segundo a AHA, apenas uma postagem com um vídeo que sugeria a prática de furar um paciente com um AVC em curso, em uma rede social, obteve 37 milhões de visualizações e 900 mil compartilhamentos.

Especialistas da associação afirmam, em documento publicado, que não há base fisiológica para que isso funcione. “Além de sangramento desnecessário, isso causará um atraso no tratamento adequado do AVC. A cada minuto sem tratamento, milhões de células cerebrais morrem e não há como recuperá-las”, diz o texto.

Ainda de acordo com a AHA, há uma suspeita da origem exata do boato. Pesquisadores da entidade rastrearam a alegada ciência relatada nesse tipo de vídeo e chegaram a um relatório de 2005 da publicação Journal of Traditional Chinese Medicine (JTCM), que mostrou que picar os dedos e os lóbulos das orelhas de pacientes com um derrame leve melhorou a consciência.

O problema é que essa não foi uma solução de primeiros socorros (já que os pacientes testados estavam hospitalizados há três dias), mas uma fase de reabilitação com acupuntura – um ramo da medicina tradicional chinesa que requer, além de prática, muito estudo e conhecimento.

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