Melatonina para combater insônia: quem precisa mesmo dela?

A substância influencia vários processos fisiológicos, com efeitos no metabolismo e nos sistemas cardiovascular, reprodutivo, imunológico, respiratório e endócrino

Especialistas defendem que o uso da melatonina para a insônia deve ser a última cartada para a resolução do problema.

O uso de melatonina como forma de combater a insônia e regular o sono vem ganhando força sem precedentes em todo o mundo. O que muita gente não sabe, é que especialistas defendem que essa deve ser a última cartada para a resolução do problema.


Questões associadas à má qualidade do sono, como exposição à luz e fatores comportamentais, devem ser abordadas em primeiro lugar. Além disso, se a melatonina for realmente indicada, a produção natural desse hormônio deve ser cuidadosamente levada em conta, para a definição da dose correta a ser administrada.

Para se ter uma ideia, a explosão do uso da melatonina (vendida sem prescrição médica nos Estados Unidos e em alguns países da Europa) para regular o sono geral de pessoas saudáveis, levou os norte-americanos a gastarem mais de US$ 400 milhões em suplementos desse hormônio no último ano, segundo o Medscape.

Então, profissionais da saúde passaram a levantar questões importantes relacionadas à segurança do uso do hormônio e seus efeitos, inclusive em crianças.

Dois pesquisadores brasileiros, José Cipolla-Neto, médico do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP) e Fernanda Gaspar do Amaral, professora da universidade, fizeram recentemente uma revisão aprofundada da literatura sobre a melatonina e sua utilização.

Eles também elaboraram recomendações relativas ao hormônio e sua administração, publicadas em dezembro último no periódico acadêmico Endocrine Reviews.

Mecanismo de ação

A melatonina é um hormônio produzido naturalmente pelo organismo. “É o neurohormônio do sono”, diz Fábio Porto, neurologista do Hospital Sírio-Libanês.

O médico afirma que, quando o sono chega, ele fica relativamente estável na maioria das pessoas. Então, o papel da melatonina é apenas inibir os neurônios de vigília, promovendo a mudança desse estado para o estado do sono.

Não é para todo mundo

Segundo os pesquisadores, tem sido demonstrado que a melatonina, para muito além do sono, influencia vários processos fisiológicos, com efeitos no metabolismo e nos sistemas cardiovascular, reprodutivo, imunológico, respiratório e endócrino.

Em um comunicado de imprensa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Cipolla-Neto comentou a respeito da complexidade dos estudos que envolvem a melatonina, uma vez que há inúmeras variáveis envolvidas no processo.

“Acima de tudo, deve-se ter em mente que os efeitos da melatonina dependem não somente da via de administração e da concentração usada, mas também da hora de sua administração, entre outros fatores”, pondera o médico.

Além disso, uma determinada dose de melatonina pode alcançar diferentes níveis plasmáticos entre as pessoas, graças a particularidades de cada um em sua forma de absorção, distribuição, metabolização e eliminação – processos influenciados pela idade, pelo estado geral de saúde e pelo desempenho do trato gastrointestinal, fígado e rins, por exemplo.

Os autores afirmam, no estudo, que se esses fatores não forem adequadamente considerados, a eficácia clínica da melatonina é alterada.

“O tratamento adequado de reposição hormonal regular da melatonina só é alcançado quando a dose e a apresentação são criteriosamente escolhidas, adaptadas a cada paciente e controladas de modo a exercer o efeito clínico desejado”, observa Cipolla-Neto.

Indicação

Uma das maiores questões envolvendo a melatonina é se ela deve ser tomada por pessoas que não têm diagnóstico de doença ou mesmo se esse é o tratamento mais adequado para os pacientes com indicação clínica.

O que a comunidade médica não questiona é que tomar melatonina à noite pode ajudar a adormecer, embora não haja evidências de que ela ajude a manter o sono por longos períodos caso o corpo já a produza naturalmente.

O tratamento adequado de reposição hormonal regular da melatonina só é alcançado quando a dose e a apresentação são criteriosamente escolhidas. Foto: Bigstock.

O tratamento adequado de reposição hormonal regular da melatonina só é alcançado quando a dose e a apresentação são criteriosamente escolhidas. Foto: Bigstock.

O Departamento Científico do Sono da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) informa que, oficialmente, a melatonina não faz parte do arsenal terapêutico para o tratamento do transtorno da insônia.

Segundo Porto, como a melatonina é produzida naturalmente pelo organismo ao cair do dia, quem tem a produção normal e se afasta de fontes luminosas (especialmente da luz azul) costuma ter um bom ritmo biológico.

“No entanto, há pessoas com deficiência na secreção do hormônio ou que até mesmo não produzem adequadamente em função do estilo de vida. Nesses pacientes a melatonina pode agir com bastante eficácia”, avalia.

Fora desses casos, portanto, antes de partir para o seu uso, deve-se considerar os fatores e comportamentos capazes de perturbar o sono. Lembrando que, em boa parte dos casos, a dificuldade de adormecer e/ou de acordar pela manhã esteja ligada a algo bastante simples: o relógio biológico está ajustado para adormecer em um horário muito mais tarde do que o adequado para as demandas diárias.

Para reajustar o relógio biológico para mais cedo, de modo a garantir mais horas de sono, é preciso contar com o apoio da luz, além de muita disciplina. Isso implica em se expor à luz do sol pela manhã e diminuir a exposição à luz durante a noite.

Smartphones, tablets e computadores contam com recursos para adequar a luminosidade e a temperatura da cor das telas, ajudando os usuários a combater a insônia ao reduzir a quantidade de luz emitida e, consequentemente, seu impacto nas funções cerebrais.

Efeitos indesejados

Melatonina em excesso, em pacientes que não têm indicação clínica para o seu uso, pode causar sonolência, cefaleia (dor de cabeça), enjoo e hipotermia. “Efeitos menos recorrentes, mas possíveis, são contrações musculares, irritabilidade, alterações cognitivas e diminuição da pressão arterial”, alerta Porto.

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