Misofonia: quando até o barulho de alguém mastigando incomoda

Chato, ranzina e sistemático são só alguns dos rótulos dados para as pessoas que identificam os sons baixos e repetitivos de forma padronizada, mas essa sensibilidade extrema não é frescura

Quem tem misofonia sofre com aversão a barulhos bem específicos, de volume baixo e repetitivos, agudos e até quando estão muito distantes, como alguém mastigando. Foto: Bigstock

O som dos passarinhos cantando, um celular vibrando em cima da mesa, um jovem assobiando na esquina ou alguém mastigando uma maçã. Qualquer um desses barulhos poderia passar despercebido na rotina. Para quem tem misofonia, entretanto, até os ponteiros de um relógio de pulso podem ser o suficiente para acabar com toda a concentração e levar a pessoa a uma crise de irritação profunda.

O nome estranho surgiu só em 2000 para determinar a Síndrome da Sensibilidade Seletiva a Sons. Quem tem misofonia sofre com aversão a barulhos bem específicos, de volume baixo e repetitivos, agudos e até quando estão muito distantes.

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O engenheiro mecânico Cassio Marcelino Tozarini, 40 anos, garante que do sexto andar de seu prédio consegue ouvir até um rangido de mau funcionamento no portão externo. “Sou tachado de louco, chato, sistemático. Aprendi a não reclamar mais, porque me chateiam esses rótulos. Então para não reclamar e não me irritar acabo sendo muitas vezes antissocial”, resume o engenheiro que há pouco mais de cinco anos descobriu sofrer com a síndrome.

A rotina é exaustiva. Para dormir ele usa protetor auricular. No transporte público evita os horários de pico ou vagões muito cheios. “Eu nem sento porque sei que vai ter alguém escutando música nos fones, enviando e recebendo mensagens. Eu escuto tudo no ambiente”, relata.

No trabalho ele precisou conversar com os colegas para tentar reduzir os ruídos. “É sempre bom quando encontro pessoas que entendem minha situação. Mas esse meu problema me afeta, porque deixo de ir a festas, casamentos, na casa dos parentes… Minha esposa já me proibiu até de ir ao cinema, porque na última vez briguei com um rapaz por causa do barulho da pipoca, do saco e das conversas baixinhas”, conta.

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Quem sofre com misofonia normalmente é tachado de chato e ranzinza. Foto: Bigstock

Sofrendo desde os 12 anos com a irritabilidade, o engenheiro disse já ter procurado tratamento para a misofonia, mas não teve bons resultados. “Hoje eu tento levar da melhor forma possível. Entrei num curso de música, por exemplo, porque quando tocamos em orquestra isso tem utilidade”, pontua.

>>”Sono atrasado em apenas 16 minutos prejudica concentração do dia seguinte”

A otorrinolaringologista Tanit Ganz, especialista em zumbido e outros transtornos acústicos, explica que as reações emocionais negativas a barulhos podem ir desde raiva, ódio e irritabilidade até o nojo. Por esse motivo, muitos dos que sofrem com o problema são considerados, desde a infância, pessoas ranzinzas, o que dificulta o relacionamento pessoal, profissional e familiar.

“Muitos são considerados a ovelha negra da família, porque sentem incômodo com alguém comendo, fungando ou tossindo ao seu lado. Como qualquer problema medicinal, a misofonia tem graus e também pode estar ligada a afetividade com a pessoa que está emitindo o som”, explica. “Se alguém que já não gosto está fazendo barulho,  o paciente faz associação ao som que detesta. Em outros casos a tolerância é menor. Pode ser Jesus, Buda ou Maomé fazendo barulho. Vai incomodar do mesmo jeito”,  arremata.

Misofonia geralmente está associada a outras síndromes

Além da misofonia é comum que os pacientes diagnosticados também sofram com hiperacusia (incômodo com o volume dos sons), fonofobia (medo de se expor ao barulho) e zumbidos. Também não é raro que os afetados apresentem sintomas ligados a ansiedade, depressão ou TOC (Transtorno obsessivo compulsivo).

Outro aspecto importante é que quem sofre com a misofonia possui uma dificuldade extrema para se concentrar, pois não conseguem ignorar o som, como outras pessoas.

Isso é explicado pelo processamento do som no córtex auditivo. Por enquanto, sabe-se que quem sofre com a síndrome possui conexões cerebrais mais ativas principalmente no sistema límbico, que é o centro das emoções e no córtex pré-frontal, responsável por nossa atenção.  “Essa áreas tem muito a ver com a sensação de medo, raiva e angústia e estão super ativadas em quem tem essa condição”, pontua Ganz.

Os tratamentos percorrem linhas variadas, que passam desde a estimulação sonora, expondo o paciente a sons neutros e irritantes, até meditação e terapias cognitivas que treinam a concentração do paciente, para ignorar os sons considerados ruins. O uso de medicamentos que tratam ansiedade e depressão, até o zumbido e a hiperacusia podem ser receitados de acordo com o quadro geral do paciente.

Outra opção é a busca de apoio em grupo que tratam do assunto e, acredite, até o envio de e-mails anônimos para quem está emitindo os barulhos. Essa última ferramenta, batizada de SOS Misofonia é uma criação do Instituto Ganz Sanchez. “Quem envia o email fica anônimo, escolhe os sons que o incomodam e que gostaria que as pessoas soubessem. Quem recebe o email vai ler várias informações sobre misofonia, incluindo os sons que foram escolhidos por quem enviou”, esclarece o informativo sobre a plataforma.

Para a fundadora do instituto, é importante que o tema seja abordado para a melhora de qualidade de vida dos pacientes. “Cerca de 10% das pessoas que procuram meu atendimento possuem misofonia. É algo que está marginalizado e precisa ser trazido à luz para termos mais estatísticas e pesquisas sobre o tema”, comenta Ganz. “O que temos de indicação até agora é que a síndrome pode ser hereditária”, finaliza.

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