“É impossível fazer antivacinas voltarem atrás”, diz representante do Ministério da Saúde

O que o ministério está fazendo, segundo seus representantes, é tentar agir no grupo que hoje hesita, para que ele não pule para o outro lado

Caso os sintomas de mal estar persistam ao longo dos dias, talvez sejam sinais de que a pessoa, ao se vacinar, já estava com o vírus da gripe. Foto: Bigstock.Caso os sintomas de mal estar persistam ao longo dos dias, talvez sejam sinais de que a pessoa, ao se vacinar, já estava com o vírus da gripe. Foto: Bigstock.

Argumentar com uma pessoa que se convenceu de que as vacinas são armas da indústria farmacêutica ou do governo para reduzir a população mundial ou infectar crianças com doenças parece (e é) uma tarefa hercúlea. Mas convencê-los não é impossível, e é preciso tentar.

O impacto de dizer “não” às vacinas está cada vez mais claro e perigoso, com o retorno de doenças consideradas erradicadas em diversos países. O sarampo é o exemplo mais atual, com 28 casos confirmados em 2019 no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde até o dia 19 de março. Parece pouco, mas em 2018 a doença somou 10.326 registros, com destaque aos estados do Amazonas, Roraima e Pará.

Nos Estados Unidos, o sarampo já ultrapassou 700 casos, especialmente na região de Nova York, neste início de 2019. E, pelo medo da doença, uma das medidas do governo local para conter o surto foi banir o acesso de crianças não vacinadas de áreas públicas, como escolas e parques, além de reforçar a vacinação.

Tanto os Estados Unidos quanto o Brasil são países onde a doença foi considerada erradicada do território nacional. Aqui, a certificação foi perdida com a confirmação de um caso endêmico de sarampo no dia 23 de fevereiro, conforme destaca o Ministério da Saúde. Os norte-americanos ainda contam com a certificação, recebida em 2000, mas o avanço da doença a coloca em risco.

“Grupos antivacinação existem [no Brasil]. Eles não têm a força como têm na Europa, e nos Estados Unidos. Lá, eles são capazes de mobilizar toda uma comunidade. Você não tem o que fazer com eles. Eles acreditam que a vacina é uma conspiração do divino, que é feito para as farmacêuticas ganharem dinheiro, para diminuir o INSS, que tem muito idoso… Você pode fazer o que quiser, não vai conseguir convencer”, disse Carla Domingues, coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI) à Gazeta do Povo*, durante o IV Workshop SBIm para Jornalistas, promovido pela Sociedade Brasileira de Imunizações no início de abril.

Embora os antivacinas sejam impossíveis de serem revertidos, há esperança entre os hesitantes – maioria no Brasil, de acordo com Domingues. “Esse grupo antivacina [no Brasil], se crescer, vai fazer com que o grupo hesitante acredite nele. O que estamos fazendo com esse movimento Vacina Brasil [campanha do Ministério da Saúde para incentivo à vacinação] é fazer com que esse grupo que hoje hesita, não pule para o outro lado. Se isso ocorrer, podemos ter um movimento como há nos Estados Unidos”, reforça a coordenadora.

Redes sociais são os locais de discussão do movimento antivacinação no Brasil e no mundo, e o futuro será do WhatsApp

Redes sociais são os locais de discussão do movimento antivacinação no Brasil e no mundo, e o futuro será do WhatsApp (Foto: Bigstock)

Como convencer um antivacina?

Antes de tentar argumentar com uma pessoa que afirma ser contrário às vacinas, é preciso entender de onde vem esse posicionamento. E um dos pontos centrais é o medo. Um dos “heróis” do movimento antivacinação mundial é o médico britânico Andrew Wakefield, autor de um estudo, divulgado em 1998 pela revista científica Lancet, que associava a vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola) com o surgimento do autismo.

Os resultados encontrados por Wakefield jamais foram confirmados em outros estudos – sendo o mais recente divulgado em março, por pesquisadores da Dinamarca – e a pesquisa foi, anos depois, refutada pela revista científica. Ainda assim, o medo gerado por Wakefield continua angariando adeptos.

“Acredito que as vacinas sempre foram toleradas pela população. Elas toleram porque sabem que vai trazer algum bem para o coletivo. Mas quando aparece alguém que diz por que as vacinas não devem ser toleradas, esse é o combustível ideal para fazer com que mudem de ideia”, sugere Paulo Roberto Vasconcellos-Silva, professor pesquisador da área de Comunicação e Saúde da Fiocruz, do Laboratório de Inovações em Terapias, Ensino e Bioprodutos (LITEB).

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Para Vasconcellos-Silva, embora seja difícil imaginar como mudar o pensamento de alguém, os discursos antivacinação são cíclicos, e eles se encerram:

“Não sei se é um ciclo longo, se vai durar décadas ou não. Mas é um ciclo, porque todo conjunto de ideias que vigoram muito forte tem uma contradição inserida. A pessoa que não vacina, e vê a criança adoecendo de algo que poderia ter sido evitada, isso pode provar a ela que talvez haja um erro. Não é que ela vai pensar: o outro lado está certo. Mas talvez exista uma dúvida, um erro no pensamento dela”, explica o pesquisador.

WhatsApp: futuro dos antivacinas

Além de não ter como prever quanto tempo esse ciclo durará, não se sabe também o que poderá substituir. “Agora temos as tecnologias, a comunicação, tomando cada vez mais partes maiores da vida das pessoas. Os algoritmos do Facebook que identificam o seu interesse por certo tipo de ideia e passam a oferecer conteúdos nesse sentido. No WhatsApp você cria grupos com pessoas que pensam como você. Isso reforça uma crença básica, de reforço naquilo que você acredita. O WhatsApp é perfeito para isso [discussão antivacinal]”, diz Vasconcellos-Silva.

Para o futuro, o pesquisador prevê um aumento no debate antivacinação – bem como na afirmação do terraplanismo, na negação das mudanças climáticas etc. De um mundo onde se aumentava uma discussão de tolerância às diferenças, voltamos ao problema da relativização:

“É muito difícil para uma pessoa que tem uma cabeça de meados do século XX absorver isso [as mudanças, tolerância à diferença]. É mais simples criar uma ideia de bem e mal, o pensamento dicotômico. Pessoas dizendo o que é certo, o que é errado, colocando tudo em termos de azul para meninos e rosa para meninas. Acho que ainda veremos um crescimento [do discurso antivacinas] por aqui”, conclui.

*A repórter viajou a São Paulo a convite da Sociedade Brasileira de Imunizações.

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