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Neofobia alimentar: por que crianças com autismo resistem mais a certos alimentos?

Trabalho de incentivo alimentar deve ser gradual e em parceria entre pais, psicólogos e educadores

Já ouviu falar em neofobia alimentar?Já ouviu falar em neofobia alimentar? Trata-se de uma resistência a algum alimento, motivado pelo cheiro, cor ou mesmo textura (Foto: Bigstock)

Muitos pais reclamam que seus filhos são resistentes na hora da alimentação, mas você sabia que existe até um nome para isso? Trata-se da neofobia alimentar, ou o medo do ingerir alimentos desconhecidos, que afeta principalmente crianças até 7 anos de idade. Entretanto, em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), essa fase pode demorar mais tempo para passar.

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É o caso do pequeno Matheus, de 11 anos, filho da bancária Camila Marzo. “Cada prato novo incluído no cardápio é uma vitória!”, conta a mãe. A mais recente delas foi a aventura para provar um pastel de carne, que o menino acabou gostando. “Nem sempre são as opções mais saudáveis ou as que gostaríamos que fossem, mas a gente tem que comemorar cada avanço”, explica Camila.

“Crianças com autismo podem apresentar hipersensibilidade, e a recusa em experimentar novos alimentos pode se dar por vários fatores, inclusive o cheiro, a textura ou até mesmo o sabor. Os sentidos sensoriais podem estar mais sensíveis, fazendo com que a criança perceba o alimento de maneira diferente dos demais”, detalhe a psicóloga Gabriella Pimpão Policeni.

O autismo se manifesta de diferentes maneiras: em crianças hiposensíveis, os estímulos mais fortes, como corantes, texturas e sabores, não incomodam. Porém, aquelas com hipersensibilidade podem apresentar diferentes reações ao toque, ao cheiro, à visão e à audição – ambientes muito coloridos ou barulhentos podem incomodar, por exemplo.

E é por conta da hipersensibilidade que algumas acabam desenvolvendo a neofobia alimentar. “Pode ser por conta do cheiro para um, para outro pode ser só pela cor, ou até mesmo tudo isso combinado”, detalha a psicóloga infantil Carolina Celli Cadena, que possui especialização em inclusão de crianças. No caso do Matheus, trata-se dessa combinação de fatores. “Às vezes ele reclama da cor, em outras do cheiro; não existe um padrão”, detalha Camila.

Efeitos da neofobia alimentar

A neofobia alimentar precisa ser tratada já que, em casos mais graves, pode levar à desnutrição da criança. “[Às vezes] a recusa é tão grave que o mínimo que ela aceita de alimentos não é suficiente para suprir o gasto calórico necessário no dia a dia”, explica a psicóloga Gabriella. Nesses casos, pode ser necessário o uso de sondas e suplementos nutricionais.

Outro problema de saúde que a criança pode desenvolver diz respeito à própria musculatura facial. “Crianças que preferem alimentos pastosos podem desenvolver problemas de mastigação, pois não utilizam os músculos da face na intensidade e frequência necessárias para fortalecê-los”, detalha Gabriella.

É por isso que a neofobia deve ser tratada o quanto antes. “Dependendo da idade que se começa o tratamento, perde-se muita coisa. Não que a gente não consiga recuperar, mas quanto menor a criança, mais facilidade a gente tem para estimulá-la a ter autonomia”, incentiva Carolina.

Segundo a psicóloga, a alimentação deve ser tratada a partir da dessensibilização das crianças autistas que sofrem com a neofobia.

Esse trabalho precisa ser feito de maneira gradual e orientado por especialistas. Os pais devem incentivar os mesmo alimentos em diferentes ocasiões, momentos e receitas, mas jamais devem forçar os filhos.

“A criança precisa se sentir segura para entrar em contato com os alimentos, seja cheirando, tocando ou colocando na boca sem necessidade de engolir”, ensina Gabriella.

Outra tática inclui transformar a alimentação em algo mais lúdico, através da inclusão de brincadeiras e formatos inusitados para a comida. A psicóloga Gabriella incentiva o jogo da memória com bolachas desenhadas ou a construção de colares de macarrão.

Também se deve criar uma rotina em casa para que a alimentação se transforme em um momento familiar. “Se cada membro da família come em um horário e em diferentes cômodos da casa (quarto, sala, cozinha) a criança terá dificuldades em entender que a refeição faz parte do dia a dia”, detalha.

Escolas por dentro da rotina

Por fim, é importante que as escolas e os colégios entendam as condições de cada aluno, inclusive daqueles que estão passando por um processo de neofobia alimentar.

“Hoje as escolas estão muito cientes dessa parte de inclusão de crianças com autismo e também com outras síndromes e transtornos, então é sempre muito importante que a escola esteja ciente para não se perder nenhum processo conquistado pelos pais e psicólogos”, explica Carolina.

Na questão da alimentação, isso pode ser um processo mútuo: alguns pais preferem mandar os alimentos que seus filhos comem, mas algumas escolas já estão preparadas para ter um cardápio mais seletivo e específico. “No começo eu mandava, mas, como agora o Matheus come bolacha, eu deixo que a escolinha tente a merenda do dia ou forneça os biscoitos que meu filho gosta”, explica a mamãe Camila.

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