O que acontece com o corpo de um bebê durante o parto

A compressão de cabeça é apenas uma das muitas incríveis mudanças físicas sofridas pelo recém-nascido durante o parto

Após o parto, o fluxo placentário é interrompido. Em vez de ser bombeado do coração para a placenta, o sangue do coração do bebê precisa ser redirecionado para os recém-expandidos pulmões. Foto: Bigstock.Após o parto, o fluxo placentário é interrompido. Em vez de ser bombeado do coração para a placenta, o sangue do coração do bebê precisa ser redirecionado para os recém-expandidos pulmões. Foto: Bigstock.

A gravidez, o trabalho de parto e o parto em si exigem muito fisicamente das mulheres. Mas, para o bebê, o nascimento também não é um passeio no parque.

Um novo estudo revela o quanto a cabeça de um bebê é empurrada e distorcida pelo parto vaginal.

Ao gravar imagens de ressonância magnética antes e durante o parto, os pesquisadores mostram o quanto os ossos do crânio do bebê pressionam uns aos outros, permitindo que todo o crânio se amolde.


A cabeça do bebê ganha o formato de um pão sovado – um cone alongado, com uma ponta arredondada em uma extremidade – para transpor a pelve. O próprio cérebro também muda de formato à medida que isso acontece.

A compressão de cabeça é apenas uma das muitas incríveis mudanças físicas sofridas pelo recém-nascido durante o parto. O bebê sofre uma forte transição durante o trabalho de parto, à medida que sai do cômodo ambiente uterino para uma existência independente.

Muitos sistemas do corpo mudam para que isso aconteça. Alguns já estão em transição. Por exemplo, a produção de urina do feto contribui para o fluido amniótico (o líquido que envolve o bebê) na parte final da gravidez. Outros órgãos exigem uma mudança repentina nos primeiros momentos após o parto, como a expansão dos pulmões.

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Esses eventos biológicos são vitais para maximizar as chances de sobrevivência nos primeiros minutos fora do útero. Mas, surpreendentemente, ainda estamos aprendendo muitos dos detalhes.

Aumento repentino de oxigênio

Antes de o bebê nascer, o sangue passa pela placenta para se livrar de resíduos e obter oxigênio e nutrientes provenientes da mãe. O bebê consegue se desenvolver no útero com níveis relativamente baixos de oxigênio.

Após o nascimento, a criança é repentinamente exposta a níveis de oxigênio muito mais elevados (potencialmente perigosos). Essa mudança requer diferentes maneiras de proteger o recém-nascido – e por isso os sistemas do bebê são preparados para lidar com esse fluxo repentino de oxigênio.

Uma leve icterícia – amarelecimento temporário da pele, resultante de um atraso no funcionamento das enzimas do fígado – pode ser um dos mecanismos de proteção observados em muitos recém-nascidos.

Alterações físicas e na biologia e química dos sistemas corporais são necessárias para lidar com o mundo exterior.

A reconstrução tridimensional do cérebro fetal por ressonância magnética mostra o formato do cérebro de um bebê antes do parto (roxo em A, C, E) e durante a segunda fase do trabalho de parto (laranja em B, D, F). Imagem: Reprodução Olivier Amie e coautores.

A reconstrução tridimensional do cérebro fetal por ressonância magnética mostra o formato do cérebro de um bebê antes do parto (roxo em A, C, E) e durante a segunda fase do trabalho de parto (laranja em B, D, F). Imagem: Reprodução Olivier Amie e coautores.

Adeus, placenta

Antes do nascimento, a maior parte da circulação sanguínea do bebê passa pela placenta, mas não pelos pulmões.

Após o parto, o fluxo placentário é interrompido. Em vez de ser bombeado do coração para a placenta, o sangue do coração do bebê precisa ser redirecionado para os recém-expandidos pulmões.

Um novo estudo nos ajuda a compreender a relação entre primeiras respirações do bebê e a expansão do fluxo sanguíneo no pulmão.

Entender esses processos nos primeiros minutos serve de orientação para sabermos quando exatamente o cordão umbilical deve ser cortado, e quanto tempo de ajuda respiratória é necessário para recém-nascidos doentes ou prematuros.

Nem sempre sai como planejado

As muitas mudanças para as quais o bebê precisa estar pronto durante o parto nem sempre têm chance de acontecer.

Por exemplo, se um bebê nasce prematuramente, algumas ou todas essas adaptações talvez não ocorram.

Bebês prematuros podem ter problemas para abrir seus pulmões ou dificuldades para conseguir fechar partes importantes do “encanamento” que redireciona o fluxo sanguíneo aos pulmões. Ou, simplesmente, talvez lhes seja difícil fazer a troca de oxigênio e outros gases pulmonares.

Outros sistemas do corpo, como pele, intestinos e as reações químicas do organismo, também correm o risco de estar relativamente despreparados.

Apesar disso, todos, exceto bebês muito prematuros, podem se beneficiar do trabalho de parto, se possível. As mudanças associadas ao início do trabalho de parto, especialmente inflamação, acionam os sinais biológicos que dizem para o bebê se preparar para nascer.

Parto cesárea

Surpreendentemente, mesmo uma pequena anormalidade em uma gestação normal e completa (cerca de 40 semanas) pode ter efeitos adversos.

Bebês nascidos por cesariana não fazem a transição para o mundo exterior tão bem quanto aqueles que passaram pelo trabalho de parto. Eles têm maior índice de internação em unidades neonatais por problemas respiratórios, mesmo após terem se adaptado para superar outros fatores de risco. Cada semana antes do período de 40 semanas de gestação duplica o risco de internação na unidade neonatal.

As recomendações mais recentes buscam equilibrar os riscos do parto com esses riscos da prematuridade, e não fazer o parto muito cedo a menos que seja medicamente necessário.

Alguns desses efeitos podem ser alterados por esteroides produzidos naturalmente pelo corpo, inclusive em bebês. Também conhecidos como “hormônios do estresse”, os esteroides são especialmente importantes para assegurar a maturidade pulmonar no nascimento.

Esteroides podem ser ministrados para a mãe com o intuito de “enganar” o bebê para “preparar um plano de fuga” e deixar seus pulmões prontos para o parto prematuro.

A propósito da prematuridade moderada, os pesquisadores estão fazendo um estudo minucioso para determinar se há qualquer problema de saúde a longo prazo e no desenvolvimento o bebê nascer por cesariana, sem o processo de trabalho de parto.

O fato de andarmos eretos criou uma inclinação em nossa pélvis que estreita o canal de nascimento (a abertura entre os ossos da pelve através da qual o bebê tem que passar). Ilustração: Bigstock.

O fato de andarmos eretos criou uma inclinação em nossa pélvis que estreita o canal de nascimento (a abertura entre os ossos da pelve através da qual o bebê tem que passar). Ilustração: Bigstock.

Cabeça esmagada

Ora, por que temos um tal sistema de parto de alto risco, no qual o crânio do bebê é literalmente deformado para que ele possa nascer?

Os seres humanos são definidos pelo cérebro. No processo de evolução da nossa espécie, o tamanho e a maturidade do cérebro foram balanceados (em termos de sobrevivência) em relação ao risco de obstrução no trabalho de parto.

Bebês humanos são relativamente imaturos em comparação com alguns de nossos parentes primatas mais próximos, mas nosso cérebro não pode crescer mais com segurança antes do parto. Para nós, esse crescimento adicional tem de ocorrer durante o primeiro ano ou após o nascimento.

Além disso, o fato de andarmos eretos criou uma inclinação em nossa pélvis que estreita o canal de nascimento (a abertura entre os ossos da pelve através da qual o bebê tem que passar).

O nascimento ainda é um risco. No mundo inteiro, a obstrução no parto é responsável por muitas mortes de mães e bebês, e uma das principais causas de incontinência a longo prazo em mães que sobrevivem. Essa corda bamba sobre a qual os seres humanos se equilibram – o tamanho da cabeça e o risco potencial para mães e bebês – é, em essência, o fator determinante para a existência da obstetrícia moderna.

Esperamos que mais pesquisas científicas tenham como objetivo compreender o equilíbrio desses riscos e como os bebês fazem a transição do útero para o mundo exterior, pois vão nos ajudar a conduzir melhor um parto seguro. Isso também melhorará a curto e longo prazos a saúde das mães e seus bebês.

* Ian Wright é professor de Pediatria e Pesquisa em Saúde Infantil da Universidade de Wollongong.

Tradução de Ana Peregrino.

©2019 The Conversation. Publicado com permissão. Original em inglês.

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