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o exame de PCR é feito a partir de uma coleta simples de sangue, no qual será dosada a concentração da proteína C reativa, uma proteína produzida no fígado e elevada no sangue em condições especiais. Foto: Bigstock.
o exame de PCR é feito a partir de uma coleta simples de sangue, no qual será dosada a concentração da proteína C reativa, uma proteína produzida no fígado e elevada no sangue em condições especiais. Foto: Bigstock.| Foto:

Quem tem o hábito de avaliar a saúde realizando exames de sangue deve ter se deparado com o exame da proteína C reativa (ou PCR) no pedido médico.

Porém, ao contrário de outras análises mais convencionais – como as dosagens do lipidograma e hormonais, por exemplo –, o PCR costuma deixar algumas dúvidas nos pacientes quanto ao seu propósito e serventia.

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Segundo o endocrinologista Mauro Scharf, o exame de PCR é feito a partir de uma coleta simples de sangue, no qual será dosada a concentração da proteína C reativa, uma proteína produzida no fígado e elevada no sangue em condições especiais.

“Esse marcador é muito sensível e aumenta na presença de processos inflamatórios, infecções agudas – principalmente aquelas causadas por bactérias –, e outras condições médicas crônicas, como doenças reumáticas, por exemplo”, explica.

Mais requisitado

A solicitação desse exame tem crescido de forma marcante no Brasil, apesar de ser um teste antigo (a PCR foi descoberta na década de 1930). Além de detectar inflamações e infecções, o teste tem outras aplicações. Para se ter uma ideia, elevações nos níveis da proteína foram observadas em mais de 70 condições clínicas que incluem, além das infecções agudas e doenças reumáticas, diferentes tipos de neoplasias (câncer) e infarto agudo do miocárdio.

Isso não significa, entretanto, que o exame de PCR seja a primeira escolha para o início da investigação de todas essas doenças, mas, sim, que se trata de um exame que complementa vários outros (inclusive o tradicional hemograma) em cada contexto. “Qualquer doença que desencadeie uma reação inflamatória no organismo pode cursar com níveis elevados de proteína C reativa no sangue”, diz o médico.

Porém, não é só isso. “Em resumo, esse exame atua em dois braços: o primeiro deles é checar o nível de inflamação e infecção em curso, além da presença de doença crônica. O segundo é a predição de risco cardiovascular, como AVC e infarto.

Ou seja, o nível detectado de PCR, fora de uma situação de infecção, pode ser associado a uma maior ou menor chance de evento cardiovascular, especialmente em indivíduos que compõem o grupo de risco, como aqueles com doenças ateroscleróticas e outras cardiopatias de base”, continua.

Exame complementar

O exame da PCR, contudo, é inespecífico. Isso significa que ele é capaz de apontar (inclusive precocemente) apenas a existência de uma inflamação ou infecção. O que ele não é capaz de fazer é identificar a origem ou, em outras palavras, a doença que está provocando tal quadro. Para isso, o médico precisa de muitos outros dados, exames complementares e interpretação da história clínica e dos sintomas manifestados pelo paciente. “Além da detecção, o exame também serve para acompanhar a eficácia do tratamento”, complementa Scharf.

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Com aplicações tão distintas, o que muda também são os parâmetros, critérios de análise e linhas de corte da amostra de sangue, em função do que se busca pesquisar. Para avaliar o risco cardiovascular, por exemplo, a análise é mais específica: o teste é o da proteína C reativa determinada por métodos de alta sensibilidade (PCR-as) ou ultrassensível (PCR-us).

Ou seja, o exame é performado conforme o que o médico busca saber. Por isso, também cabe a ele a devida interpretação do resultado, com base em inúmeras variáveis individuais de cada paciente.

Outros diagnósticos 

O PCR também identifica processos inflamatórios, infecções agudas, doenças reumáticas e predizer o risco cardíaco do paciente (em função de inflamação constante nas paredes dos vasos sanguíneos e acúmulo de colesterol nesses vasos), levando a um acompanhamento mais rigoroso de sua condição.

O risco cardíaco do paciente também pode ser detectado no exame. Foto: Bigstock.
O risco cardíaco do paciente também pode ser detectado no exame. Foto: Bigstock.

Também está relacionado ao diagnóstico e prognóstico da sepse e altera mediante certos tipos de neoplasias e várias outras situações clínicas possíveis (apendicite, pancreatite, queimaduras, pós-operatório, doença inflamatória intestinal e muitas outras).

Auxilia tanto na identificação quanto no monitoramento da atividade inflamatória e acompanhamento do tratamento (como em uma antibioticoterapia, por exemplo).

PCR E CÂNCER

No câncer, um processo inflamatório ocorre em resposta ao desenvolvimento de um tumor. No momento em que o organismo percebe o crescimento de células inadequadas, o sistema de defesa entra em ação, desencadeando um processo inflamatório que faz aumentar a secreção de proteína C reativa pelo fígado e, consequentemente, seu lançamento na corrente sanguínea.

Hoje, o que se investiga em estudos maiores é a relação da PCR com o prognóstico de alguns tumores, como os gastrointestinais, de rim, mama, pâncreas e pulmão.Provavelmente, essas são as neoplasias mais relacionadas ao aumento da PCR por desencadearem processos imunogênicos, capazes de recrutar mais células imunológicas do que outros tipos. Assim, quanto maior a liberação de fatores inflamatórios, também maior é a secreção da PCR”, explica a médica oncologista Maria Cristina Figueroa Magalhães.

Exame PCR revela se há infecção em curso e até mesmo pode indicar tumores. Foto: Bigstock.
Exame PCR revela se há infecção em curso e até mesmo pode indicar tumores. Foto: Bigstock.

Auxílio na descoberta

Atualmente, na prática da oncologia, a PCR é utilizada para auxiliar no diagnóstico e acompanhar processos infecciosos e inflamatórios associados, sendo um exame comumente solicitado na prática clínica. Também pode aventar a suspeita da doença neoplásica.

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“O maior desafio dos estudos que envolvem câncer e PCR é chegar à padronização dos valores de referência, além de dados mais robustos que validem a direta relação do aumento dessa proteína com um processo neoplásico. Mas, o que já temos são estudos que associam PCR aumentada no momento do diagnóstico a uma pior evolução e desfecho da doença, em certos tipos de câncer”, avalia.

Ela cita um estudo dinamarquês que acompanhou duas mil pacientes com câncer de mama e apontou prognósticos piores naquelas com a PCR mais elevada. Outra pesquisa para câncer de intestino também relacionou prognósticos piores nos casos de quadro inflamatório muito elevado anterior à manifestação clínica da doença.

“Em uma metanálise que relacionou aumento da PCR com câncer de pâncreas, porém, apenas três de seis estudos indicaram que a PCR poderia estar associada ao aumento da sobrevida. Enfim, para estabelecer esse marcador como fator prognóstico em câncer, ainda é necessária a validação de estudos maiores”, salienta a oncologista.

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