Como o Paraná virou a meca da cirurgia bariátrica no país

O estado virou referência quando o assunto é a intervenção, que reduz o estômago e geralmente parte do intestino: 60% das cirurgias bariátricas são feitas no Paraná

cirurgia-bariatrica-foto-bruno-stuckertEstrutura hospitalar explica liderança do Paraná no número de cirurgias bariátricas. Foto: Bruno Stuckert

A cada dez pacientes que fazem a cirurgia bariátrica no Brasil, seis passam pelo procedimento em hospitais paranaenses.  O estado virou referência quando o assunto é a intervenção, que reduz o estômago e geralmente parte do intestino. Somente entre janeiro de 2017 e começo de 2019, mais de 13 mil pacientes passaram pelo procedimento no Paraná, tanto na rede pública quanto na privada.

O número nada tem a ver com um reflexo de má alimentação ou uma estatística de obesidade elevada apenas entre a população do estado. Os médicos da área são categóricos ao afirmar que o Paraná tornou-se a meca da bariátrica devido ao pioneirismo no desenvolvimento da cirurgia e a estrutura hospitalar disponível.

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“Não é o estado mais obeso do Brasil. O que acontece é que aqui se criou uma estrutura que praticamente zerou a fila de espera no sistema público, por exemplo, e hoje inclusive atende pacientes encaminhados de outros estados”, comenta o médico Caetano Marchesini, diretor científico da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica.

“O Paraná tem relevância porque foi o segundo estado a começar a fazer essa cirurgia, isso em 1996. Somos referência porque temos experiência”, pontua o cirurgião Caetano Marchesini, que nas últimas duas décadas operou 7 mil pacientes.

Caminho rumo à bariátrica

No SUS, o caminho dos pacientes inicia no posto de saúde. Para aqueles que apresentam um índice de massa corporal entre 35 e 40, associado a outras doenças como diabetes e hipertensão, a cirurgia é indicada.

De lá, o trajeto passa pelos centros de referência no assunto de cada cidade, até o encaminhamento para exames pré-cirúrgicos. Para grande parte deles este roteiro leva até o Hospital Angelina Caron, que sozinho respondeu por 36% do total de cirurgias realizadas no país, nos últimos dois anos.

De acordo com o médico Pedro Henrique Caron, que chefia o setor de cirurgias bariátricas neste hospital, a espera na unidade é de no máximo cinco meses. “Em São Paulo, por exemplo, a média é de cinco anos pela rede pública”, afirma ele.  Todos os dias, cerca de vinte pacientes são operados no local, o que ajuda a agilizar a fila de espera.

“Temos muitos centros especializados, em comparação com outros estados e o comprometimento das equipes em fazer esse atendimento ágil faz a diferença. Tanto que vemos em nosso dia a dia muitos pacientes de outros estados que até se mudam para o Paraná provisoriamente para conseguir realizar a cirurgia”, afirma Caron.

Curitiba sozinha conta com mais de 60 equipes multiprofissionais, especializadas em cirurgia bariátrica. Por esse motivo a capital foi escolhida para sediar, na última semana, o vigésimo congresso sobre o tema. Cerca de 2 mil profissionais reuniram-se para tratar sobre as inovações na área e os desafios para conseguir reduzir os índices de obesidade no Brasil, que cresceram quase 80% na última década.

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“Hoje deixo de sair para treinar”, diz paciente que perdeu 60 quilos

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O consultor Eduardo Trombini chegou a pesar 132 quilos antes de realizar a cirurgia que mudou sua vida. Foto: Reprodução/ Instagram

Mais do que colecionar um expressivo número cirúrgico, o Paraná concentra a maior quantidade de pacientes reabilitados. Atualmente atleta amador, o consultor da área de T.I, Eduardo Trombini, 36 anos, conseguiu a façanha de sair dos 132 quilos para os 72, em quatro anos. A mudança só foi possível graças à cirurgia bariátrica.

“Quando soube que ia ser pai quis mudar tudo, reescrever meus hábitos para ser um exemplo para a minha filha. Hoje me dá orgulho ver minha filha pedir para comer a mesma coisa que eu. É o meu troféu”, conta.

De troféus, Eduardo entende. Depois da cirurgia correu três maratonas internacionais e hoje mantém um perfil no Instagram, voltado para dicas de alimentação saudável.“Hoje eu deixo de sair para treinar, é uma mudança total. Claro que socialmente a sua vida muda após a cirurgia. Eu quis me afastar dos ambientes que cooperavam para a minha obesidade, que me faziam mal. Não que eu deixe de ir a churrascos ou ver meus amigos, mas eu trabalhei para mudar minha visão sobre isso. Se eu tenho dificuldade para comer picanha, por exemplo, troco pelo salmão e está tudo certo”, riu.

Com uma história parecida, a analista financeira Keith Thur, 33 anos, fez a cirurgia em agosto do ano passado. Ela faz parte de um grupo de acompanhamento de pacientes no pós-cirúrgico e divide a rotina, após a mudança no estilo de vida. “Eu sabia que ia ter consequências com a bariátrica, mas por eu estar tão decidida a viver essa nova oportunidade, mudar, eu fui muito bem”, relata.

Ela diz que após 15 dias da operação já foi posta à prova, quando participou de um aniversário de um parente, com pizzas e bebidas alcoólicas. “Eu participo de tudo, com as minhas restrições. O que eu não quero e nunca quis, foi isolamento. Eu escuto algumas pessoas, amigas que fizeram a mesma cirurgia, me perguntando como é possível participar de um churrasco sem comer a carne ou ingerir o álcool. E eu sempre respondo que para mim o que importa é socializar. Estar com os amigos e a família é o mais importante”, declarou. “Eu era uma plus size feliz e hoje sou uma magrinha feliz”, garante.

Anemia e pedra na vesícula são obstáculos no caminho dos operados

Uma mudança de vida tão radical precisa ser acompanhada de perto por uma equipe que não se limita ao cirurgião, anestesista e nutricionista. Psicólogos e educadores físicos viram importantes aliados quando é necessário driblar a sensação de estufamento com alguns alimentos e bebidas, o desgaste muscular, a queda de cabelo e até a amnésia.

Ponto comum de preocupação dos profissionais de saúde, a dificuldade na absorção das vitaminas nos estômagos e intestinos “novos” são os maiores obstáculos dos ex-obesos.  A anemia e a pedra na vesícula estão entre as consequências de um pós-operatório problemático, que podem ser evitadas com suplementação vitamínica ao longo da vida e medicamentos específicos para evitar os cálculos. A pedra na vesícula, por exemplo, surge em aproximadamente 40% dos pacientes submetidos a bariátrica.

“É importante falar que tratando de obesos graves, a bariátrica é a última carta na manga, quando o paciente já esgotou outras tentativas. Não podemos banalizar a cirurgia. Ela é o mais eficaz, mas tem indicação clara. Ela não é um milagre e sim uma segunda chance para adquirir novos hábitos de vida”, comenta o especialista em cirurgia do aparelho digestivo, Felipe Koleski.

“Cabe ao paciente entender que não será possível comer tudo o que quiser e cabe ao médico tratar as complicações evitáveis, como a pedra na vesícula. Se não fizermos isso, é uma nova cirurgia, mais um afastamento do trabalho e de suas atividades”, finalizou.

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Novos estudos focam na eficácia da bariátrica para tratar outras doenças

Sem perder o foco no tratamento para a obesidade, os novos estudos na área procuram comprovar a eficácia da cirurgia para o tratamento de outras doenças associadas como apneia do sono, diabetes, pressão e colesterol altos. O médico cirurgião, Carlos Schiavon, por exemplo, apresentou esta semana em congresso sobre o tema o trabalho que conduz no Hospital do Coração em São Paulo, com um grupo de 100  hipertensos.

De acordo com o especialista, os acompanhamentos feitos durante um ano mostraram que mais da metade dos pacientes que fizeram a bariátrica conseguiu retirar totalmente ou reduzir drasticamente a quantidade de remédios antes tomados para controle de pressão.

“O que eu acho importante é a cirurgia ter essa possibilidade de ajudar além da obesidade propriamente dita. A hipertensão atinge 30 milhões de adultos no Brasil e é uma doença silenciosa, associada à obesidade. A bariátrica é uma nova arma no tratamento multidisciplinar de uma doença que pode levar a um acidente vascular (AVC) ou infarto”, comentou.

Outra importante discussão entre os especialistas está o avanço da videolaparoscopia, técnica menos invasiva e comum na rede particular, mas ainda rara em pacientes que procuram o Sistema Único de Saúde. Com apenas três pequenos cortes, o paciente consegue ter uma boa recuperação e retorno as atividades em 15 dias.

“O grande salto de segurança na bariátrica foi a adoção de videolaparoscopia, mas isso aconteceu no início dos anos 2000. De lá para cá a inovação está no tratamento das doenças associadas”, completou Schiavon.

O atraso da adoção da técnica menos invasiva no SUS é explicado pelos repasses, que hoje custeiam aproximadamente R$ 5 mil para cada paciente realizar todo procedimento. “Está muito aquém do necessário”, diz o médico Pedro Caron.

Ainda assim,  os riscos de complicações vem caindo ano a ano com as inovações. A taxa de óbito, por exemplo, gira em torno de dois pacientes a cada mil operados.

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