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Saúde e Bem-Estar

Vítima de violência doméstica, mulher perde vários dentes e recebe ajuda de ONG

Desde 2012, o projeto Apolônias do Bem faz implantes gratuitos em mulheres vítimas de violência. Projeto conta com ajuda de uma rede de dentistas voluntários

  • PorCarolina Werneck
  • 22/09/2017 09:06
Projeto desenvolvido por dentistas voluntários promove implantes dentários gratuitos em mulheres vítimas de violência. Foto: Reprodução
Projeto desenvolvido por dentistas voluntários promove implantes dentários gratuitos em mulheres vítimas de violência. Foto: Reprodução| Foto:

Quando a educadora social Thaïs Azevedo, de 68 anos, conheceu a ONG Turma do Bem, ela não sabia o quanto gostava de sorrir. Vítima de violência, ela tinha perdido vários dentes ao longo da vida e diz que se sentia mal por isso. “Eu lutava para não sorrir porque não queria mostrar minhas deficiências dentárias. Nem sei por quanto tempo tive que ficar contendo meu sorriso”, conta.

De acordo com o Instituto Maria da Penha, no Brasil, a cada 2 segundos uma mulher é vítima de violência física ou verbal. Os números são impressionantes e geram marcas que, muitas vezes, são quase tão traumáticas quanto a agressão em si. Desfiguradas, muitas não conseguem voltar ao mercado de trabalho e, mesmo as que estão empregadas, sofrem com a falta de autoestima decorrente de sua aparência pós-agressão.

Há um ano, Thaïs foi selecionada para o projeto Apolônias do Bem, que oferece implantes gratuitos para mulheres que perderam seus sorrisos para a violência. A iniciativa é da ONG Turma do Bem, certificada pelo Ministério da Justiça como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) desde 2002.

A organização é uma rede de dentistas voluntários que provê tratamento odontológico gratuito a crianças e adolescentes de baixa renda. Hilário Rocha, diretor de comunicação da ONG, conta que, em 2012, a organização queria diversificar esse atendimento. Lendo pesquisas sobre violência contra a mulher, os responsáveis pela ONG ficaram impressionados com os relatos de que muitos agressores preferiam atingir as vítimas em locais específicos. A região da boca era um deles.

Uma das beneficiadas do projeto em uma montagem de antes e depois dos implantes. Foto: Reprodução
Uma das beneficiadas do projeto em uma montagem de antes e depois dos implantes. Foto: Reprodução

“A gente conhece uma casa em São Paulo que é referência para mulheres vítimas de violência. Essa casa prestava vários tipos de apoio, mas não o odontológico”, lembra Rocha. Foi assim que nasceu o “Apolônias do Bem”. De lá para cá, já são mais de 750 mulheres atendidas. A seleção é feita levando em conta a situação social em que essas mulheres se encontram e também a gravidade das lesões. O projeto dá preferência a vítimas que já não vivam com seus agressores. “Se elas ainda estão com os agressores elas podem voltar a perder os implantes”, explica Rocha.

Recomeço

Para oferecer os implantes, a Turma do Bem conta com a ajuda da Implacil De Bortoli, que fabrica os materiais usados durante os procedimentos. Para Nilton De Bortoli Junior, consultor científico e proprietário da companhia, a parceria permite que a marca desempenhe um importante papel social. “Queremos facilitar a vida dessas pacientes que são, no projeto, a parte mais importante para nós.”

Rocha afirma que, em média, um tratamento assim custa R$ 60 mil, valor que a maioria não teria como bancar. Nesse ponto, o Apolônias do Bem é fundamental para retirá-las de uma posição social que tende a permanecer sempre a mesma. “Essas mulheres, além de serem excluídas pela violência, são excluídas pela sua saúde bucal. O projeto permite não só o restabelecimento da autoestima, mas a possibilidade de voltar para o mercado de trabalho, tornar-se arrimo de família, ter a dignidade restabelecida.”

Foi o que aconteceu com Thaïs. Embora já trabalhasse no Centro de Referência e Defesa da Diversidade, ela não se sentia à vontade com o próprio sorriso. “Você acaba se adaptando àquela situação que te detona, que te tira a vontade de sair, de ter uma vida social.” A educadora não gosta de relembrar as circunstâncias que a levaram a perder os dentes. Para ela, o problema é a soma do abandono social com a violência física em si. A educadora diz que sentia falta, por exemplo, de comer “uma maçã ou um sanduíche daqueles que você precisa abrir a boca e morder, o que é uma coisa tão básica”.

Depois de passar pelo processo de implante oferecido pela Turma do Bem, ela diz que descobriu em si mesma um sorriso que andava escondido sob o trauma. “Eu descobri que sou uma pessoa muito risonha. Foi como sair de um pesadelo, porque a própria vulnerabilidade te vulnerabiliza mais. Então apareceram essas pessoas incríveis e me tiraram dali e me devolveram a luz.”

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