Dificuldade em reconhecer um rosto familiar na multidão nem sempre é distração

Prosopagnosia é o nome de uma condição que pode acontecer depois de uma lesão cerebral, como um AVC, ou mesmo ter origem congênita

Prosopagnosia: dificuldade em reconhecer rostos conhecidos pode ser alteração cerebralProsopagnosia: dificuldade em reconhecer rostos conhecidos pode ser alteração cerebral (Foto: Bigstock)

Andar pela rua e ser cumprimentada por alguém que você não se lembra quem é ou de onde o conhece. Pode ser uma falha na memória, que na sequência traz a resposta. Mas a resposta pode não ser tão simples assim.

Condição pouco conhecida, a prosopagnosia é o nome dado à uma falha ou alteração do processo neural que reconhece a face ou o rosto, mesmo de pessoas conhecidas ou até familiares. 

Embora acometa cerca de 2% da população mundial, os riscos aumentam em pessoas que sofrem lesões cerebrais, como um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Isso porque, de acordo com a médica neurologista Viviane Flumingnan Zetola, danos ao cérebro são as causas mais comuns para o surgimento da prosopagnosia nos pacientes.

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“A prosopagnosia pode ser derivada de lesões, como um AVC ou traumas, no lobo occipital e temporal do hemisfério cerebral direito, local relacionada à área da visão. Esse é, digamos, o local cerebral onde o dano ocasionado por qualquer tipo de lesão pode gerar como consequência a prosopagnosia”, explica a médica, que é também coordenadora do ambulatório de doenças cérebro-vascular do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC/UFPR).

Como o neurônio (célula do cérebro) é extremamente sensível à falta de oxigênio e sangue, no caso de um AVC que leva ao desenvolvimento da prosopagnosia, não há muito o que possa ser feito para reverter o quadro, segundo Zetola.

“Ele [neurônio] entra em uma isquemia, em uma falta de sangue que leva os nutrientes, e os neurônios mais especializados são os que morrem. É como se esses neurônios precisassem ainda mais desse teor energético. É difícil, mesmo com a plasticidade cerebral, substituirmos alguns dos neurônios que são extremamente especializados”, explica.

Origem hereditária?

Tradicionalmente, a prosopagnosia está mais relacionada a casos de lesões ou traumas no cérebro, mas há situações em que a condição possa surgir em pessoas sem nenhum histórico de lesão. Conforme explica a neurologista Viviane Zetola, a condição pode ser classificada, a partir de uma visão da neuropsicologia, como um distúrbio cognitivo.

“O pessoal da neuropsicologia trabalha a condição sem uma lesão cerebral, e eles têm chamado de prosopagnosia de desenvolvimento ou até congênita. Existe uma polêmia ao tratar da questão como sendo hereditária, porque são vistas características familiares, mas o gene ainda não foi encontrado”, explica a especialista. Da mesma forma, não há estudos suficientes que indiquem se a condição tem uma progressão ou piora.

Faça o teste!

Está em dúvida se tem essa condição? Por se tratar de uma condição que abrange o desenvolvimento e a cognição, existe um teste que indica se a pessoa tem ou não a prosopagnosia.

Trata-se do Cambridge Face Perception Test (o teste é todo em inglês).

“Quem faz o teste deve olhar para diversas faces, que devem ser reconhecidas, e dos resultados vão surgir diferentes questões, como: pessoas que reconhecem demais, pessoas que reconhecem de menos e a parte da normalidade. Pessoas que reconhecem mais são mais perceptivos, olham o nariz. As pessoas menos perceptivas olham para os olhos. Os resultados vão delineando melhor a condição”, explica a neurologista Viviane Zetola.

Quando não é prosopagnosia

Antes que a pessoa possa ser diagnosticada com a prosopagnosia (mesmo depois de ter feito o teste acima), é preciso excluir outras condições que também atrapalham o reconhecimento de faces:

  • Pessoas que têm baixo nível perceptivo ou cognitivo;

  • Deficiências intelectuais;

  • Histórico de doenças psiquiátricas;

  • Transtorno do espectro do autismo (TEA).

“Precisamos saber se essas pessoas não se encaixam nessas dificuldades de processamento que abrangem mais de uma área do que necessariamente só a face. Como é um processo de desenvolvimento, é possível apresentar déficits também no processamento de objetos”, explica a neurologista.

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