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Quase 60 mil mulheres devem ter câncer de mama no Brasil em 2019

O câncer de mama terá taxas mais elevadas nas regiões Sul (73,07 casos a cada 100 mil mulheres) e Sudeste (69,50/100 mil) do Brasil

Câncer de mama: como é o tratamento contra esse câncer no Brasil?Câncer de mama: como é o tratamento contra esse câncer no Brasil? Foto: Bigstock.

“A mulher tem que se cuidar sempre. Eu tinha um nódulo benigno na mama e fiquei um ano sem fazer acompanhamento. Aí, apareceu um maligno na frente, e quando é maligno, o crescimento é muito rápido. Eu não tenho histórico na família, não fumo, tenho hábitos saudáveis. Se o câncer tivesse sido detectado no início, o tratamento teria sido mais brando, e acabou sendo muito pesado.”

Relatos como o de Veruska Carajeleascow ganham ressonância no 10º mês do ano, quando as campanhas do Outubro Rosa chamam atenção para um problema que atinge outras dezenas de milhares de mulheres no Brasil todos os anos.

O câncer de mama é o tipo de câncer com maior incidência na população feminina do País, excetuando o de pele não melanoma: o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que serão 59,7 mil novos casos este ano (3.730 deles no Paraná e 820 em Curitiba), o que representará cerca de 30% do total de neoplasias malignas entre as mulheres (sem contar as de pele não melanoma).

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Segundo a projeção para 2019, o câncer de mama terá taxas mais elevadas entre a população feminina das regiões Sul (73,07 casos a cada 100 mil mulheres) e Sudeste (69,50/100 mil) do Brasil, enquanto no Centro-Oeste (51,96/100 mil), Nordeste (40,36/100 mil) e Norte (19,21/100 mil) os patamares ficarão bem abaixo – na última região, não será sequer o tumor mais incidente.

O Paraná terá uma taxa bem superior à brasileira (64,70/100 mil e 56,33/100 mil, respectivamente), e em Curitiba o índice vai superar o do Estado (82,33/100 mil).

Marcelo Bello, mastologista e diretor do Hospital do Câncer 3 do Inca, unidade do instituto especializada no tratamento do câncer de mama, explica que a incidência da doença está muito relacionada ao nível de desenvolvimento social.

“O Norte e o Nordeste do Brasil têm taxas bem menores, enquanto as do Sul e do Sudeste se assemelham às americanas. No Norte, há mais casos de câncer de colo uterino, que têm mais a ver com índices menores de desenvolvimento. Câncer de mama é uma doença da vida moderna, é mais incidente entre mulheres que menstruam cedo, têm filhos mais tarde, se alimentam mal ou começam a beber jovens, por exemplo“, afirma.

Segundo números do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, em 2017 (último ano com dados disponíveis), 16.724 mulheres brasileiras morreram de câncer de mama, 32% a mais do que o registrado em 2010. No Paraná, foram 933 óbitos, o que representou um crescimento de 28% desde o início da década.

Como buscar ajuda

O enfrentamento ao câncer de mama espelha dificuldades da saúde pública em geral. No final de agosto, em relatório de auditoria sobre a Política Nacional para a Prevenção e Controle do Câncer apresentado no Tribunal de Contas da União (TCU), o ministro João Augusto Ribeiro Nardes apontou que, em 2017, 56% dos casos dos oito tipos de câncer prevalentes no Brasil (de próstata, mama, colo do útero, traqueia/brônquio/pulmão, cólon e reto, estômago, bucal e tireoide) atendidos no Sistema Único de Saúde (SUS) foram diagnosticados em grau avançado (estágios 3 e 4).

Os ministros do TCU determinaram na sessão que o Ministério da Saúde deve apresentar até o final de novembro um plano de ação com medidas a serem adotadas para que a política nacional seja cumprida.

Nardes relatou que o tempo médio entre a solicitação médica e a liberação do resultado de mamografias em 2017 na saúde pública do País foi de 84 dias, sendo 63 entre a solicitação e a realização do exame e mais 21 para a divulgação da análise. O prazo é considerado demorado por especialistas.

Segundo Gustavo Werutsky, diretor do Latin American Cooperative Oncology Group (Lacog), entre a detecção de um nódulo e a biópsia para confirmar ou não o câncer, a média é de quatro a seis meses na saúde pública brasileira, enquanto nos países desenvolvidos a espera no máximo é de dois a três meses. “Isso tem impacto no estágio da doença. O câncer de mama tem rastreamento definido e isso influencia na mortalidade da população. Quanto mais precoce o diagnóstico, mais chances de cura”, afirma.

Werutsky aponta que nos Estados Unidos 70% a 80% das mulheres fazem mamografia, enquanto no Brasil, dependendo da região, esse índice fica entre 20% e 30%. “A Sociedade Brasileira de Mastologia e um grupo de médicos de Goiás fizeram estudos que mostraram que essa porcentagem baixa não é por falta de dinheiro nem de mamógrafos. O que falta é uma melhor organização do sistema de saúde, especialmente o público, e educar melhor a população. Existem máquinas, equipamentos, mas muitas mulheres não fazem mamografia”, diz o diretor do Lacog.

Diagnóstico com a doença avançada

Com essas lacunas, muitas pacientes buscam tratamento quando a doença já está em estágio avançado – o que pode ser decisivo contra um mal cujo resultado varia conforme a corrida contra o tempo.

“Algo que chama a atenção é que 45% das pacientes no Brasil têm câncer de mama com menos de 50 anos, índice maior do que em países desenvolvidos. Em um estudo feito com mais de 3 mil pacientes entre 2016 e 2018 no SUS, em torno de 70% apresentaram estágio clínico 2 ou 3, ou seja, com a doença localmente avançada, enquanto no sistema privado esse patamar caiu para 55%. Então, a paciente do SUS se apresenta para o diagnóstico com a doença mais avançada e chance de cura menor. A da rede privada faz exames com mais frequência, então a chance é maior”, explica Werutsky, que destaca que essa discrepância é resultado da falta de rastreamento e da demora entre a suspeita e o diagnóstico na saúde pública.

“Devido ao diagnóstico em fase mais avançada, o índice de mortalidade em relação à incidência no SUS é maior que em países desenvolvidos, enquanto no privado não é muito diferente.” – Gustavo Werutsky, diretor do Lacog.

Outro fator que contribui para essa diferença é que, apesar de avanços recentes, a incorporação de novidades ao tratamento no SUS é mais demorada.

“O acesso ao tratamento precisa melhorar na saúde pública, com medicamentos mais novos. A paciente da rede privada tem à disposição praticamente todos os remédios aprovados nos Estados Unidos e na Europa, mas a do SUS não. Esse acesso ou falta dele tem grande impacto na sobrevida da paciente. A medicação que é aprovada para o sistema privado não está disponível no dia seguinte no público. Então, é como se nós tivéssemos dois países, um em que há essa disponibilidade, até porque os convênios são obrigados, e outro onde não há esse acesso. E isso não é só para o câncer de mama, é para várias doenças. Não há a mesma perspectiva de cura e sobrevida”, lamenta Werutsky.

O especialista argumenta que a facilitação do acesso a medicamentos inovadores no SUS passa pelo aprimoramento e pela agilização dos processos de análise de novos produtos. “A medicação representa cerca de 1/3 do custo da oncologia, então o remédio não é uma carga pesada. É melhor do que gastar mais depois para tratar uma paciente com metástase (quando o câncer se espalha para outros órgãos) ou lidar com as consequências da perda de uma mãe de família, que poderia estar trabalhando”, complementa.

À época da divulgação do relatório do TCU, o Ministério da Saúde argumentou que a análise não representa o cenário nacional e teve limitações metodológicas, e que desde o início da década a destinação de recursos federais para tratamento de câncer mais que dobrou.

Números em estabilização

Marcelo Bello, diretor do Hospital do Câncer 3 do Inca, argumenta que na verdade houve um ajuste na captação de dados, que hoje seriam mais fieis à realidade, e que a curva estatística das mortes por câncer de mama no Brasil não é tão dramática quanto demonstrado nas tabelas do SIM.

“A mortalidade está estabilizada desde 2012, 2013, o que acontece é que o SIM antes não era tão bem preenchido. Então, está ocorrendo um aumento dos registros baseado na melhoria da informação”, diz Bello.

A estabilidade se deve aos tratamentos eficientes. “Por ser o câncer mais incidente na população feminina, é muito estudado, e o diagnóstico e o tratamento tiveram uma evolução muito grande nos últimos 30 anos. Mas tudo dentro de um país é um contexto: o Brasil vem enfrentando muitos problemas econômicos, e isso tem reflexos na saúde pública.”

O mastologista também enxerga que os principais gargalos estão nos diagnósticos, com muitos ainda sendo feitos em estágios avançados da doença. “Precisamos melhorar e agilizar isso para que os tratamentos sejam feitos mais rapidamente. Temos a lei dos 60 dias (para início do tratamento no SUS), mas é a partir do diagnóstico. Tem situações em que há uma demora de até 180 dias para conseguir o diagnóstico. Dá para tratar, mas precisa ter em mente que já se passaram seis meses”, adverte.

Bello acredita que a população brasileira está “razoavelmente informada”, e que o problema maior reside na infraestrutura e organização. “A regulação é necessária, mas ainda não dá conta de fazer do jeito correto. Muita coisa tem que ser recentralizada, contrariando o padrão do SUS. Mamografia está se fazendo muito, o problema é confirmar a suspeita”, explica.

“Muitos diagnósticos têm que ser feitos na rede secundária. Hoje, há muitas dificuldades na rede primária (mantida por estados e municípios), que muitas vezes não tem infraestrutura e tecnologia, e isso acaba sobrecarregando as outras esferas. Não tem tanta unidade de câncer assim, então acaba sobrando para a rede terciária também. No Inca, deveríamos estar fazendo apenas tratamento, mas 20% a 30% dos nossos pacientes são diagnosticados aqui.”

Nos últimos anos, o Brasil expandiu a legislação relativa ao câncer: além da lei da notificação compulsória e da lei dos 60 dias para início do tratamento no SUS a partir do diagnóstico, foi criada em 2013 a Política Nacional para a Prevenção e Controle do Câncer dentro do SUS. Uma proposta para que os exames para confirmar a doença sejam feitos no máximo 30 dias após solicitação do médico está tramitando no Congresso Nacional.

Bello enxerga as novidades na legislação com ceticismo.

“É claro que é importante ter leis sobre o assunto, mas elas acabam colocando tudo no mesmo balaio, sendo que cada câncer age de um jeito. Alguns podem esperar 30 dias, como o câncer de próstata; outros, apenas um dia, como um caso de leucemia de uma criança. Não faz sentido, o País não tem estrutura para isso. Essas leis têm um apelo emocional muito grande, dificilmente alguém vai votar contra. Mas se não der condições, estrutura, não adianta fazer lei”, alerta.

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