Depois de perder amigo para o câncer, homem doa medula óssea: “me senti escolhido”

Everson Farias Batista se cadastrou como doador e foi escolhido como compatível. O procedimento de retirada de sangue rico em células-tronco foi rápido

Pessoas interessadas em doar devem se cadastrar no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) e aguardar o procedimento, que é simples e pode salvar vidas. Foto: Divulgação

“Sinto como se eu fosse um escolhido. É muito bom saber que algo que existe em você, e que só você tem, pode ser o remédio para a vida de uma pessoa”. É desta forma que Everson Farias Batista, de 35 anos, define o fato de ser sido encontrado pelo Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) para ser doador de células-tronco da medula óssea.

A sensação de ser único e especial tem fundamento: entre as mais de 4,5 milhões de pessoas inscritas no banco brasileiro, ele foi determinado como compatível com alguém que ele nem sequer conhece, mas que pode ter tido sua vida salva por este bonito gesto.

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Ele, que doa sangue com regularidade e se cadastrou no Redome em 2012, já tinha até esquecido que poderia ser doador, quando recebeu uma ligação. “Foi no fim de janeiro e era um momento delicado para mim. Eu tinha acabado de sepultar um grande amigo que havia morrido de câncer, estava muito triste e questionando alguns sentidos da vida. E de repente toca meu telefone. Era o Hemobanco, dizendo que eu talvez pudesse ser doador para uma pessoa que estava justamente com câncer. Isso mudou minha forma de encarar tudo”, conta Everson.

Todo o processo, entre a ligação e a doação, demorou pouco mais de três meses. “No dia seguinte (da ligação) eu já estava no Hemobanco para fazer o segundo teste, para confirmar a compatibilidade. E em março entraram em contato informando que eu era realmente compatível com o paciente receptor e que se tivesse interesse poderíamos dar sequencia à doação”, conta.

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Everson tomou injeções para se preparar para a doação. Foto: aqrquivo pessoal

Local da doação

O procedimento em um primeiro momento seria feito em Barretos, São Paulo, mas depois foi ofertada à Everson – que mora em Tunas do Paraná, na região metropolitana de Curitiba – a possibilidade de realizar a retirada do material na capital, no Hospital de Clínicas Da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR). “O Redome arca com todos os custos: deslocamento, estadia e alimentação. O doador não tem nenhum gasto”, explica Everson.

Depois de um check up e consultas com a médica que orientou sobre o procedimento ele assinou um termo de compromisso. No dia 6 de maio começou a preparação, com o uso de um medicamento para estimular a produção de células-tronco. E no dia 10 de maio fez a coleta. “Cheguei às 7 da manhã e pontualmente às 8h começamos a coleta, que consistiu basicamente na retirada do sangue, que foi para uma máquina ser filtrado. Terminamos às 12h47”, fala Everson, que garante não ter sentido nenhum efeito físico em relação à doação.

Everson doou sangue rico em células-troco. Foto: arquivo pessoal

“Fui para o hotel em que estava hospedado no mesmo dia e ficamos, eu e minha esposa, Edinéia, aguardando para saber quantidade coletada era realmente suficiente. E foi. No dia seguinte eu já estava fazendo minhas atividades profissionais”, relata ele, que além de servidor público do município de Tunas do Paraná é produtor Cultural da orquestra cordas do Iguaçu. “Hoje (16 de maio) por exemplo, vou fazer minha caminhada de 11 quilômetros como sempre fiz”, celebra o pai de Mario, 17 anos, João, 8, e Miguel, 5.

Se fisicamente Everson não sentiu nenhuma diferença, psicologicamente a doação teve consequências que nunca serão apagadas. Mas todas são “do bem”, garante Everson. “Esta doação mudou minha forma de pensar a vida. Estava triste com a perda do meu amigo e ela veio me mostrar que por mais grave que uma doença seja ela não pode ser encarada como o fim. Nem todas as pessoas têm a oportunidade de encontrar a cura, mas neste caso, da doação, é sim possível, e ela está na sociedade, nas pessoas. A cura do mundo está nas pessoas”, reflete.

Tipos de doação

O caso de Everson, que doou sangue rico em células-tronco, é uma das possibilidades de doação. A outra, mais conhecida entre as pessoas, é a doação feita à partir da retirada da medula-óssea da crista ilíaca. “O acesso ao osso ilíaco é feito pelas costas e o procedimento é feito com anestesia.

A quantidade retirada vai depender tanto do doador quanto do receptor, mas geralmente não passa de 1000ml. Ficam de uma a três marquinhas de cada lado e o doador permanece no hospital de um a dois dias. Cerca de um mês depois da doação a medula já está totalmente recuperada”, explica a médica Ana Luiza de Melo Rodrigues, oncologista pediátrica do serviço de transplante de medula óssea do Hospital Pequeno Príncipe.

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Ela explica ainda que ser um potencial doador é simples. “Basta procurar um banco de sangue, que irá coletar cerca de 5 a 10 ml de amostra, apresentar um documento de identidade e preencher um formulário com informações pessoais. Esta amostra depois será analisada por um exame de histocompatibilidade e ficará no banco”. Caso haja algum receptor compatível, ela explica ainda que a doação não é compulsória, ou seja, mesmo estando cadastrado o doador será consultado para saber se tem interesse em doar.

Depois de confirmar o interesse, o doador será encaminhado para uma bateria de exames, para determinar se sua saúde está em dia e se permite que realmente passe pelo procedimento. “Nossa prioridade é a saúde do doador. Atualmente fazemos um check up extenso, por isso, em 10 anos que estou no hospital, nunca vi nenhum caso de doação que tenha resultado em problema para o doador”, garante a médica.

Oferta crescente

Atualmente o Redome, que é o terceiro banco do mundo em número de doadores, com mais de 4,5 milhões de doadores cadastrados. O Paraná é o terceiro estado com maior número, 486,009, de acordo com os dados atualizados em maio. “Os números estão crescendo. Há 30 anos, 30% das doações vinham de bancos estrangeiros. Atualmente, a chance de que o doador seja brasileiro é de 70%”, celebra Ana, consciente de que ainda resta um longo caminho pela frente. “Se formos ver em relação à população do país ainda é um número pequeno”, lamenta.

Além do cadastro, Ana ressalta que é fundamental manter os dados atualizados, para que a localização seja mais rápida possível e a chance de salvar uma vida realmente venha a se concretizar, como aconteceu com Everson. “Acho que naquele momento, que fiquei sabendo que seria doador, não havia nenhuma pessoa mais feliz que eu. Talvez o receptor, apenas”, brinca.

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