Escolha o tipo certo de anticoncepcional contra trombose

Relato da universitária de São Paulo sobre trombose venosa cerebral decorrente do uso de anticoncepcional oral gerou nervosismo entre as jovens – mas não é motivo de pânico

Anticoncepcionais orais são fatores de risco para a trombose (Foto: VisualHunt)

Calma, a culpa da trombose não é apenas do anticoncepcional oral. Embora o uso do anticoncepcional seja um fator de risco, especialmente os das novas gerações, como Yaz e Yazmin, a trombose é uma doença multifatorial, desencadeada pela associação de diferentes situações de risco, e que normalmente se manifesta nas pernas, não no cérebro.

Para a estudante universitária de Botucatu (SP), Juliana Bardella, a trombose fugiu à “regra”. Em um relato no Facebook, Juliana conta que, depois de cinco anos de uso do anticoncepcional oral Yaz, passou a sentir dores de cabeça e enxaquecas e, depois de um exame de ressonância magnética, recebeu o diagnóstico da trombose venosa cerebral.

Cinco anos de YAZ, três ginecologistas diferentes, e nenhum me alertou sobre a trombose, mesmo perguntando a respeito, nenhum falou que seria um risco. Não tenho histórico familiar, não sou fumante, e os exames de sangue estavam normais, não tinha predisposição a ter trombose”, relata Juliana.

Seria um relato de causar pânico em todas as jovens brasileiras (e mesmo de fora) que fazem uso do anticoncepcional, certo? E é, mas há soluções.

Os fatores de risco mais comuns para a doença, de acordo com a angiologista e cirurgiã vascular Flávia Tristão, são: sedentarismo, tabagismo, situação de repouso prolongado (depois de passar por um procedimento cirúrgico, por exemplo, que exige longas horas em posição deitada), trauma, neoplasia (tumor cancerígeno, que gera uma infecção e um estado pró-coagulante maior no organismo), jovens que passaram por casos de aborto espontâneo (que pode indicar alguma trombofilia) e os anticoncepcionais orais, especialmente os da nova geração.

Atenção, o tempo de uso do anticoncepcional não influencia no risco da trombose.

Se você é do tipo que faz exercícios, tem hábitos de vida saudáveis, não passou por nenhum período de repouso prolongado, trauma ou recebeu o diagnóstico de neoplasia, estaria livre da doença? Ainda não. Sobra a genética.

“A jovem pode não ter nenhuma história de trombose na família, mas ainda ter uma predisposição genética que é só dela. Na junção dos genes da família, formou uma predisposição dela. Existem estudos que indicam que a mutação do gene G20210A predispõe especificamente ao seio venoso, e pode ser que ninguém mais da família tenha. É uma coisa que não se consegue determinar”, explica a médica angiologista, que atua no Hospital Nossa Senhora das Graças e no corpo clínico do Hospital das Clínicas / UFPR, em Curitiba.

Como descobrir uma predisposição assim?

Existem exames genéticos que podem indicar a predisposição de cada indivíduo a uma trombose, mas não são recomendados pelos especialistas, devido ao preço e à confiança nos resultados. “Existem várias pacientes que tem eventos de trombose e que tiveram os testes genéticos com resultados normais. Esses testes são para determinar o uso de anticoagulante para o resto da vida em pessoas que já tiveram a trombose”, explica Flávia.

E agora?! Abandono o anticoncepcional?

Não necessariamente. Se você tiver dúvidas do seu anticoncepcional oral, converse com seu médico sobre modelos alternativos.

Os anticoncepcionais orais monofásicos – ou de um só hormônio, no caso a progesterona, têm um risco menor de desencadear trombose, se comparados aos anticoncepcionais de hormônios combinados: progesterona e estrogênio.

“O que traz o risco maior para a trombose é o estrogênio. Se o anticoncepcional tiver os dois hormônios, vai ter risco. Então, é melhor que use um anticoncepcional sem o estrogênio, só de progesterona, que pode ser encontrado em formas orais ou injetáveis”, explica a médica ginecologista Maria Letícia Fagundes, do hospital Marcelino Champagnat.

Fique de olho!

O caso da estudante de São Paulo foi incomum, com uma trombose em um sítio, ou local, alternativo, o cérebro. Como na maior parte dos casos a trombose ocorre nos membros inferiores, é importante ficar de olho.

Se começarem a surgir veias pequenas, se você sentir dor ou inchaço súbito na perna, ou braços, procure um médico. Quando identificadas em uma fase precoce, a trombose não deixa sequelas. Caso contrário, há o risco de a trombose evoluir para uma embolia pulmonar, que é mais difícil de tratar. “Uma trombose evolui para veias maiores, podendo chegar a uma embolia. Mas é difícil que uma trombose de perna evolua para uma trombose na cabeça”, ressalta a médica cirurgiã vascular.

“Quando a menina vai se consultar e tem varizes ou varicoses, os médicos costumam não prescrever os anticoncepcionais, porque são fatores de risco bem evidentes. A avaliação médica é bem individualizada, mas qualquer risco diferente de zero é um risco enorme, e é importante buscar um método mais adequado”, explica a médica ginecologista.

Números importantes

Entre 15 a 20 pessoas, a cada 100 mil, são diagnosticadas com trombose decorrente do uso de anticoncepcional oral, principalmente dos de geração mais recente. Das pílulas mais antigas, o número de casos cai para 5 a 10, a cada 100 mil pessoas.

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