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Estudo defende que exercícios não ajudam a emagrecer

Pesquisadores britânicos avaliam que a atividade física não compensa dieta ruim, o que a indústria alimentícia estaria relutante em admitir

Quem quer emagrecer deve cuidar da alimentação e fazer exercícios físicos apenas para manter a saúde. É o que defende um editorial da britânica Academy of Medical Royal Colleges, publicado em fevereiro, que ganhou repercussão tardia em abril ao servir de base para um artigo do British Journal of Sports Medicine (BMJ). O estudo afirma que nenhum exercício físico, por mais intenso e longo que seja, compensa uma alimentação ruim.

Na prática, o fórum de universidades argumenta que, apesar de ótimos para a saúde, exercícios não ajudam ninguém a emagrecer. O artigo chama de “cura milagrosa” o conceito de que exercícios ajudam a perder peso, e aconselha os médicos a descartarem esse discurso. “Exercícios regulares previnem contra demência, diabetes, alguns cânceres, depressão, doenças cardíacas e outras sérias condições, reduzindo o risco de cada uma em pelo menos 30%, o que é muito melhor do que a maioria dos remédios”, diz o editorial.

“Exercícios têm efeito apenas moderado na redução da obesidade. Os aeróbicos ajudam principalmente a manter o peso”, afirma o texto, mais à frente. “Exercícios também mudam a distribuição da gordura ao reduzir a não-saudável gordura visceral, o que para alguns indivíduos é altamente benéfico para a saúde, ainda que o peso deles continue o mesmo na medida em que os músculos crescem”.

Indústria de alimentos que contém muito açúcar vendem ideia errada sobre obesidade, defende estudo. Imagem: Bisgtock

Indústria de alimentos que contém muito açúcar vendem ideia errada sobre obesidade, defende estudo. Imagem: Bigstock

Lobby?
O grupo de pesquisadores sustenta que a ideia de que exercícios compensam a má alimentação foi incutida pela indústria alimentícia, de forma a não reduzir o consumo de alimentos industrializados — boa parte deles, cheios de gordura e açúcar.

A ideia é está mais explícita no artigo do BMJ. “O público está convencido de uma mensagem inútil sobre ‘manter o peso contando calorias’, e muitos ainda acreditam, erroneamente, que a obesidade é totalmente devida à falta de exercício. Essa falsa percepção tem origem na máquina de relações públicas da indústria alimentícia, que usam técnicas parecidas com a da indústria de tabaco”, diz o artigo.

Os cientistas sustentam que marcas que produzem alimentos e bebidas calóricos buscam associar sua imagem com vida saudável, dando a entender que basta fazer exercício para compensar a alimentação. “A ciência nos diz que isso é equivocado e enganador. O crucial é de onde vêm as calorias. Calorias vindas de açúcar promovem armazenamento de gordura e fome. Calorias que vêm de gorduras induzem sensação de saciedade”, defendem.

Repercussão
Especialistas brasileiros ouvidos pelo Viver Bem concordam que exercícios físicos não salvam ninguém de uma dieta ruim. Também reconhecem que a malhação tem peso pequeno para a perda de peso, ainda que seja essencial para uma vida saudável. Mas estão divididos sobre o quanto a “diferenciação de calorias” ajuda ou não no combate à obesidade.

“Para emagrecer, diminui-se a quantidade de calorias ingeridas. Essa história de índice glicêmico [o tipo de caloria dos alimentos, citado no estudo] existe, mas é preciso bom senso quando se fala de alimentação. Não dá para dizer que vai funcionar em todo mundo”, afirma o médico endocrinologista Mário Kehdi Carra, diretor do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Ele lembra que a ideia do estudo é o fundamento de dietas como a Paleolítica e a Dunkan, que limitam carboidratos e mandam ver nas proteínas. Apesar da fama de eficazes, isso ainda não é sustentado cientificamente, diz o médico.

Carra argumenta que dietas da moda, como as que cortam glúten ou lactose, por exemplo, funcionam porque descartam de uma vez alimentos calóricos, dando pouca opção para o cardápio. Mas ele endossa a pouca importância que a malhação tem sobre a perda de peso. “Estética e conformação corporal são coisas fáceis de se vender, de enganar as pessoas. Realmente não adianta ir à academia, o exercício é responsável por aumento de gasto calórico muito pequeno. O exercício é excelente para não deixar engordar e para ter boa capacidade cardiovascular. Até porque você nasce com certa capacidade de gastar calorias”.

O médico cardiologista Osni Moreira Filho, presidente da Sociedade Paranaense de Cardiologia (SBC-PR), concorda que os exercícios físicos têm papel no mínimo coadjuvante na perda de peso, até porque muitos contribuem para aumentar a fome. “Isso não significa que o exercício não seja indicado. A atividade física com ajuste alimentar é a melhor forma de manter um vida saudável”, diz.

Para Moreira Filho, é válido discutir a influência do marketing da indústria alimentícia. “É o ‘marketing do halo’. Você fotografa a sua comida calórica perto de uma laranja e de uma bicicleta para passar a imagem de que todo o cenário é saudável, ou tem esse halo sobre ele”, explica. Ainda que, segundo ele, o capitão desse debate sobre eventuais regulações devesse ser legisladores e governo. “A questão é mais para agentes regulatórios. O médico pode fazer pouco sobre isso. Mas é absolutamente errado dizer que a pessoa pode comer mais porque faz atividade física”. diz

O assunto é meio tabu entre os médicos, mas o diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE), Jomar Souza defende que políticas públicas nessa área fariam a diferença. “A função da indústria é lucrar com os clientes. Não há nada de errado com isso desde quando não criem falsas expectativas, principalmente ao mostrar em suas propagandas aquelas famosas fotos do ‘antes e depois’. Não existem milagres, em nenhuma área da medicina. Não é diferente no tratamento da obesidade.”

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