Ter um “dia do lixo” no meio da dieta funciona?

Prática é discutida entre os profissionais da saúde: método pode comprometer o resultado do esforço já realizado e gerar compulsão

O dia do lixo está associado ao consumo de alimentos calóricos, pobres em nutrientes e ricos em carboidratos ou gorduras, além de um maior consumo de sal. Foto: Bigstock.O dia do lixo está associado ao consumo de alimentos calóricos, pobres em nutrientes e ricos em carboidratos ou gorduras, além de um maior consumo de sal. Foto: Bigstock.

Quem realiza acompanhamento nutricional com um profissional já deve ter ouvido falar no termo “dia do lixo”: aquele momento muito esperado, que pode incluir apenas uma refeição, se limitar a um adicional de mil calorias por dia ou ainda resultar em um dia inteiro de comilança, no qual quem está em dieta é liberado para comer de tudo, sem restrições.

A prática, indicada por muitos nutricionistas e nutrólogos, é também questionada. Será que “meter o pé na jaca” compromete todo o esforço já realizado?

A bióloga e nutricionista Luciana Peixoto afirma que existe uma base científica em discussão sobre o assunto, especialmente em relação à qualidade dos alimentos e à quantidade de calorias ingeridas nesses dias. Com seus pacientes, ela prefere adotar o conceito de “refeição livre”.

Quem indica a instituição do “dia do lixo” defende que ampliar o consumo de calorias é importante para uma maior indução na produção de leptina, hormônio responsável pelo controle da ingestão alimentar e aumento do metabolismo.

Luciana, que atua como nutricionista clínica e esportiva, explica que, muito além da simples fugidinha da dieta, há uma técnica estabelecida na área esportiva chamada realimentação estratégica, também conhecida como “platô de emagrecimento”, que usa o dia do lixo para que o organismo fuja da inatividade do metabolismo causada pelos novos hábitos alimentares saudáveis.

“Isso gera um choque metabólico, mas funciona entre atletas de alta performance, que fazem uso de dietas rigorosas e restritivas. Achar que vai funcionar com qualquer um é um grande equívoco”, diz a nutricionista.

Dia do lixo x refeição livre

A refeição livre, conceito aplicado pela nutricionista Luciana Peixoto, tem como objetivo proporcionar ao paciente o acesso à vida social sem restrição. Ela pode acontecer em dias distintos, até duas vezes por semana, dependendo dos objetivos procurados.

“A ideia da refeição livre é poder sair para jantar pelo simples prazer da companhia e da comida gostosa. E o principal não é comer até passar mal, mas desfrutar o momento de uma boa refeição, tendo equilíbrio, poder de escolha e principalmente sabedoria nas suas tomadas de decisão”, cita a profissional.

A endocrinologista Daniele Zaninelli lembra que, na maior parte das vezes, o dia do lixo está associado ao consumo de alimentos calóricos, pobres em nutrientes e ricos em carboidratos ou gorduras, além de um maior consumo de sal. Ela diz que mesmo sem as melhores qualidades nutricionais, muitos alimentos que são consumidos apenas naquele momento podem ter seu lugar em uma dieta equilibrada.

“Para perder peso é necessário reduzir a ingestão calórica total. Quem faz restrições durante a semana toda e ‘tira o atraso’ aumentando muito a ingestão calórica no fim de semana provavelmente não alcança bons resultados na balança”, afirma.

Quer dizer que um dia de exageros pode comprometer toda uma dieta? As profissionais concordam que, além de influenciar na balança, esta prática pode desencadear compulsão alimentar e gerar outros distúrbios psicológicos.

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“A ansiedade na espera por aquele dia e o pico de insulina causado pela ingestão dos alimentos muito calóricos que, muitas vezes, demora para abaixar, causa apenas fome em excesso e pode gerar compulsão”, alerta a nutricionista Luciana Peixoto.

A endocrinologista Daniele Zaninelli cita ainda que o efeito sanfona pode ser desencadeado pelas dietas restritivas, que somada à falta de resultado no emagrecimento pode causar a frustração do paciente.

“Restrições alimentares excessivas podem desencadear episódios de compulsão alimentar. Se isso resultar na falha do tratamento, o paciente acaba se culpando. Com isso, vem a sensação de frustração, de não ser capaz de seguir uma dieta que na verdade não daria certo”, diz Daniele.

De forma saudável

Esqueça tudo o que for restritivo demais, a não ser que a restrição seja realmente necessária. “Nada deve ser proibido. Tudo pode caber na dieta desde que haja equilíbrio. E a decisão de comer algo ou não deve ser baseada no objetivo de cada um”, afirma Luciana.

A melhor forma de aderir às mudanças de estilo de vida a longo prazo é conseguir chegar a um meio termo, adequando as orientações à realidade de cada um, sem restrições excessivas ou consumo exagerado.

“O ideal é implementar um programa de reeducação alimentar, com adaptação dos hábitos alimentares, redução da ingesta calórica e, eventualmente, ingerir os alimentos preferidos de forma moderada, sem prejudicar os resultados”, complementa a endocrinologista Daniele Zaninelli.

Obesidade no Brasil

Segundo uma pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde e realizada pela Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), de 2017, após anos em uma crescente, a obesidade e o excesso de peso estagnaram no país. De acordo com o levantamento, quase 1 em cada 5 (18,9%) é obeso e mais da metade da população das capitais (54%) está com excesso de peso.

Para a endocrinologista, a obesidade deve ser tratada como uma doença séria e se engana quem pensa que depende apenas da conscientização do paciente em parar de comer.

“Na obesidade, há um desequilíbrio entre os sinalizadores do apetite e da saciedade que envolvem outros fatores além da ingestão alimentar. Quem está acima do peso costuma ter uma relação emocional com o ato de comer, mesmo que por curto prazo. Por isso, o emagrecimento saudável depende de mudanças efetivas de hábitos e orientação”, diz Daniele.

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