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HPV: o que falta para alcançarmos a redução de casos de países desenvolvidos

Inglaterra, cuja vacinação contra o HPV completa 10 anos, reduziu a incidência do câncer de colo de útero em quase 90%

No Brasil, vacina contra HPV é gratuita para o público-alvo; campanha ampla começou em 2014. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo.

A principal promessa da vacina contra o Papilomavírus Humano (HPV) quando se iniciou a campanha pelo Ministério da Saúde em 2014 visava a redução nas infecções pelo vírus e, consequentemente, nas taxas de câncer de colo do útero do país — é o terceiro tipo mais incidente entre as mulheres (atrás do câncer de mama e cólon e reto); estão previstos 16 mil novos casos no Brasil para o biênio 2018-2019, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), número que pouco variou desde o início das campanhas de vacinação públicas, em 2014.

O baixo índice de vacinação na segunda dose da vacina e a propagação de boatos e notícias falsas sobre prováveis reações impedem a redução dos casos e nos deixam muito atrás de países como o Reino Unido, por exemplo — um estudo do departamento de Saúde Pública da Inglaterra mostrou uma redução de 86% na incidência do câncer do colo do útero entre as mulheres vacinadas contra o HPV entre os anos de 2010 a 2016.

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A vacinação é aplicada nas meninas e mulheres da Inglaterra desde setembro de 2008, e os resultados do estudo foram divulgados no início de junho no periódico científico Journal of Infections Diseases.

Na Austrália, a vacina é aplicada há 10 anos e as entidades de saúde conseguiram perceber uma redução pela metade nas taxas de infecções pelo mesmo vírus, conforme divulgou a imprensa local. Os números australianos foram tão impactantes que a Sociedade Internacional de Papilomavírus calculou que o país pode ser o primeiro no mundo a erradicar o câncer cervical.

Vacina contra o câncer

O vírus HPV, segundo dados do (INCA), é o principal responsável por 70%, em média, dos casos de câncer cervical entre as mulheres. E é o único câncer prevenível por vacina. No Brasil, o público-alvo principal do imunizante são meninas entre 9 e 14 anos, e meninos, entre 11 e 14 anos (porém, pessoas de até 49 anos podem ter benefícios com a vacina).

Por mais que existam cerca de 200 tipos diferentes de HPV, 12 estão associados ao desenvolvimento de tumores e quatro são os mais encontrados no Brasil: os tipos 6, 11, 16 e 18.

A vacina quadrivalente adotada pelo Ministério da Saúde protege contra os HPV’s considerados de baixo risco (tipos 6 e 11, que geram verrugas anogenitais) e os considerados de alto risco (16 e 18), que causam o câncer de colo de útero.

“Ainda que seja recente falar da vacinação e o impacto no Brasil, temos alguns dados que comparam a incidência de casos de câncer hoje com 10 anos atrás. Tivemos uma redução, aproximada, de cinco casos, a cada 5 mil pessoas, para 4,7 casos. Há uma menor incidência, mas infelizmente ainda existe uma prevalência, porque a população aumenta, as pessoas vivem mais tempo, e outros fatores, como genético, também influenciam no surgimento do câncer”, explica Stephen Stephani, médico oncologista do hospital do Câncer Mãe de Deus, de Porto Alegre (RS).

“Quebra” das doses

Índice que toma a segunda dose da vacina cai para cerca de 40%. Foto: Fernando Pereira / SECOM – PMSP

Como a proteção contra o HPV se completa a partir da aplicação de todas as duas, ou três doses, (dependendo do tipo de vacina), a quebra nas aplicações faz com que o país não obtenha os resultados na redução da taxa de câncer.

“A literatura médica mostra que, apesar de conseguirmos quase 95% de cobertura vacinal na primeira dose, apenas metade do público recebe a segunda dose. Isso representa cerca de 2,4 milhões de meninas no Brasil sem os efeitos da vacina. Estima-se também que metade das meninas entre os 15 e 25 anos possam ter tido contato com o HPV, algo em torno de 54,6%. Nem todos os vírus são perigosos, mas pelo menos 40% dessas meninas tiveram contato com um tipo que gera o câncer”, explica Stephani.

Na primeira etapa da vacinação, apenas meninas dos 9 aos 14 anos receberam a vacina, que depois foi ampliada aos meninos (dos 11 aos 14 anos) e jovens mais velhos, até os 26 anos.

A capital brasileira com a maior taxa de prevalência de HPV é Salvador, com 71,9% da população infectada. Em seguida, aparecem Palmas (61,8%), Cuiabá (61,5%) e Macapá (61,3%).

O que prejudica a prevenção contra o câncer?

Alguns fatores são listados pelos especialistas como complicadores para a cobertura completa da vacina contra o HPV. Entram aí a saída da vacinação das escolas para os postos de saúde e os receios de pais sobre a segurança e eficácia do imunizante, especialmente entre as meninas. De lá para cá, as campanhas de vacinação têm dificuldades em fazer uma cobertura de pelo menos metade da população.

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Mas, a vacina não é a única forma de prevenção – que deve ser associada ao exame preventivo Papanicolau ou citopatológico, realizado por médicos ou profissionais da saúde capacitados:

“O que vemos na prática, e os dados mostram isso, é que é cada vez menor a quantidade de exames preventivos colhidos. As pacientes reclamam que, às vezes, elas procuram o atendimento de saúde mas não têm quem faça a coleta. Em outros países o rastreio à população é algo organizado, o que não é o caso no Brasil. Aqui, a mulher busca por conta própria. E, se ela não vai ao médico, o rastreio da doença é prejudicado”, explica Natasha Sarmento Correia Araújo, médica ginecologista do Serviço de Patologia Cervical do Hospital Oncológico Erasto Gaertner, em Curitiba.

Colhendo o preventivo com frequência anual (embora o período possa mudar conforme orientação do médico), há maior incentivo à vacinação e, consequentemente, redução nos casos de câncer ou, pelo menos, diagnóstico precoce da doença.

“Vários estudos, grandes, bem desenhados mostram que a vacina é altamente eficaz e segura. Se a vacinação poderia extinguir a doença? Na medicina não usamos nem 100%  nem 0%. Mas uma vez que o HPV, especialmente os subtipos mais agressivos, fosse controlado, haveria uma diminuição drástica do câncer”, explica Roger Shiomi, médico oncologista clínico do Instituto de Hematologia e Oncologia Curitiba (IHOC) – grupo Oncoclínicas e preceptor da residência médica de Oncologia Clínica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC/UFPR).

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