A família passou por 32 países de quatro continentes. Foram 400 dias de viagem terminando na Nova Zelândia. Foto: acervo pessoal.
A família passou por 32 países de quatro continentes. Foram 400 dias de viagem terminando na Nova Zelândia. Foto: acervo pessoal.| Foto: MILTON_HARTMANN

Largar tudo para dar a volta ao mundo é fácil quando se é jovem e ainda está começando a vida adulta. Mas e depois que se tem uma família inteira formada, com casa, trabalho e filhos? Para muita gente, estas circunstâncias fazem o sonho de conhecer o mundo ser deixado de lado, mas não é o que aconteceu com a profissional de relações públicas Luciana Lima.

No final de 2016, ela e o marido, Milton Hartmann, largaram seus empregos em Curitiba para realizar uma expedição de 400 dias por seis continentes. E mais: levaram os dois filhos e um sobrinho junto. “Era um sonho que tínhamos, e quando o meu marido disse que estava cansado da imobiliária que tinha, eu falei: eu vou junto”, conta Luciana sobre como começou a preparação para a jornada.

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O roteiro inicial da jornada tinha 50 países em todos os continentes. Depois caiu para 45, e terminou cravado em 32 locais da América Latina (sul e central), Europa, Ásia e Oceania. A América do Norte e a África ficaram de fora por conta dos gastos que teriam com passagens de ida e volta, e também porque a Ásia fez com que o orçamento fosse além do previsto.

Na misteriosa e surpreendente Cuba, a família contratou Yudenes, guia e motorista em Havana. Foto: acervo pessoal.
Na misteriosa e surpreendente Cuba, a família contratou Yudenes, guia e motorista em Havana. Foto: acervo pessoal.| Milton Hartmann

Preparação

Luciana conta que começou a planejar a viagem em 2013, quando os filhos Caio e Sofia tinham apenas 1 e 4 anos de idade, respectivamente. “A gente queria tirar um ano sabático, conhecer o mundo, realizar este sonho, mas queríamos levar as crianças junto”, explica. Foi aí que o casal viu que a viagem não poderia ser apenas com uma mochila nas costas e algum dinheiro no bolso.

Ela e o marido passaram a economizar em tudo o que podiam, como o adiamento da troca do carro, da reforma da casa, da compra de coisas novas… “A gente gastou entre US$ 180 e 200 mil para nós quatro, e tudo anotado na ponta do lápis”, conta ela ressaltando que viajar assim, em família, não é como a maioria dos viajantes faz, se hospedando em albergues e dormindo até mesmo em estações ferroviárias. Por isso que os gastos foram um pouco maiores.

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A meta do casal era gastar no máximo US$ 100 por noite de hospedagem, com reservas em aplicativos como AirBNB e hotéis de rede baratos. “Nas Américas, na Europa e na Oceania a gente conseguiu cumprir bem o orçamento, mas na Ásia precisamos contratar receptivos locais e guias, já que era um pouco mais difícil se locomover e principalmente entender o idioma deles, que falam muito pouco o inglês”, conta.

Sofia até teve vontade de voltar ao Brasil no meio da viagem. Mas, no Nepal, fez oferendas e se vestiu como uma monja. Foto: acervo pessoal.
Sofia até teve vontade de voltar ao Brasil no meio da viagem. Mas, no Nepal, fez oferendas e se vestiu como uma monja. Foto: acervo pessoal.| Milton Hartmann

E a escola?

Com o dinheiro já reservado para a viagem familiar de volta ao mundo, Luciana e Milton se viram diante de um dilema: e a escola dos filhos? “A gente precisou conversar muito com o Caio e a Sofia – que na época da viagem já estavam com 4 e 7 anos. Não é fácil para uma criança passar um ano longe dos amigos e da escola. No entanto, as duas escolas em que estudavam apoiaram muito a experiência”, explica Luciana. Mas, cada uma com suas particularidades.

Como Caio ainda não estava no ensino fundamental, a escola permitiu que ele pulasse de série para continuar acompanhando a evolução dos colegas. Já Sofia ficou receosa ao saber que teria que ficar um ano atrasada em relação aos amigos. A escola dela até chegou a sugerir que fosse feito um ‘ensino remoto’, à distância, mas a logística da viagem acabaria tornando isso inviável.

Luciana conta que Sofia as vezes perguntava sobre a volta, se poderia ir embora antes, mas a viagem já estava toda fechada. “Nisso a escola dela ajudou bastante, fez um trabalho de acolhimento que ajudou muito na volta”, explica. Durante a viagem, uma das professoras da turma entrou em contato com a jovem pedindo que ela gravasse um vídeo para exibir aos alunos na aula de geografia. A família estava no Vietnã.

A volta foi de muita festa.

A Argentina fez a família passar por três 'perrengues'. Um um deles, o carro ficou sem combustível no meio da Patagônia. Foto: acervo pessoal.
A Argentina fez a família passar por três 'perrengues'. Um um deles, o carro ficou sem combustível no meio da Patagônia. Foto: acervo pessoal.| Milton Hartmann

Entre idas e vindas

No começo da viagem, a família teve um convidado a mais nos planos: o primo Felipe, de 9 anos de idade. Luciana tinha ido ao Rio de Janeiro se despedir da família e chamou o menino para passar as férias viajando. E lá foi ele para o primeiro destino.

Pé na estrada e um carro bem carregado: a jornada começou pelas estradas do sul do Brasil até o Peru, passando pelo Uruguai, Argentina, Chile e Equador. Logo na saída, na Patagônia argentina, a família ficou sem gasolina, já que as distâncias são muito longas entre um posto de combustíveis e outro. “Já estava anoitecendo e olhamos um para a cara do outro: e agora?”, conta Luciana se divertindo, mas que na hora foi um certo desespero. Milton foi a pé em busca de socorro, até que uma família de Buenos Aires que estava viajando pela região o levou até um posto. A viagem do Felipe terminou um pouco antes, em Santiago, já que ele precisava voltar para estudar.

A viagem de carro, admirando as belas paisagens da América do Sul, terminou em Lima. De lá não dava mais para seguir pelas estradas, e o casal passou a viajar de avião. Logo na chegada em Medelín, na Colômbia, a família se viu sem ter onde dormir, já que a reserva que tinham feito teve uma confusão de datas. Mas nada que atrapalhasse a viagem, e logo conseguiram outro lugar para ficar.

A mágica Rússia fez Luciana usar de toda mímica possível para se comunicar. Quando não conseguia, recorria para o aplicativo que traduzia o alfabeto cirílico para o português. Foto: acervo pessoal.
A mágica Rússia fez Luciana usar de toda mímica possível para se comunicar. Quando não conseguia, recorria para o aplicativo que traduzia o alfabeto cirílico para o português. Foto: acervo pessoal.

A viagem então seguiu para o Panamá, Costa Rica, México e Cuba. Depois, a Europa entrou no roteiro com diversas paradas bem diferentes do que a família tinha visto na América Latina. “Ficamos encantados com a Europa”, conta Luciana sobre a organização das cidades, a limpeza, tudo funcionando como deveria.

A Rússia também estava no caminho, mas não sem algum perrengue. Lá a família ficou em um hotel bem pequeno em Moscou, e toda a comunicação com os funcionários tinha de ser feita com mímicas e aplicativos tradutores. “Na Rússia, quase ninguém fala inglês”, explica Luciana sobre o alfabeto cirílico. Na China também aconteceu algo semelhante.

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A viagem teve também passagens pela Índia, Nepal, Tailândia, todo o sudeste asiático até a Austrália e a Nova Zelândia, onde a jornada terminou em fevereiro deste ano. Luciana relatou toda a viagem em um blog , recheado de fotos e depoimentos dela e das crianças.

A jornada terminou na Nova Zelândia em fevereiro deste ano. Foto: acervo pessoal.
A jornada terminou na Nova Zelândia em fevereiro deste ano. Foto: acervo pessoal.| Milton Hartmann

Já caiu a ficha?

Luciana e o marido agora estão “descansando das férias”, assimilando tudo o que aprenderam na jornada. Ela conta que a cada dia lembram de algo que aconteceu na viagem, uma experiência, um perrengue, uma cultura, um hábito diferente: “A gente aprendeu a desapegar, a viver com muito menos do que acha que precisa”.

Eles viajaram com três malas, sendo uma grande para as duas crianças, uma média para ela e outra média para o marido. Toda semana lavavam as roupas que usavam, e quando não dava mais, doavam as peças e compravam novas “em lojinhas de rua, supermercado, nada de grife”, conta Luciana. Aliás, ela voltou pra casa e disse: “pra que eu preciso de tantas bolsas?”.

Para a família, a ficha ainda está caindo.

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