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Turismo

Poemas, animais silvestres e pomares estão na trilha do Bosque de Portugal

Parque criado há 24 anos, no Jardim Social, é também um memorial sobre a história da língua portuguesa

Logo na entrada do Bosque de Portugal há o mais famoso poema do escritor português Fernando Pessoa. Foto: Guilherme Grandi/Gazeta do Povo

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. É com este poema de Fernando Pessoa que o Bosque de Portugal recebe curitibanos e turistas há 24 anos no Jardim Social. Por uma pequena rua à direita de quem segue pela Fagundes Varella (ou à esquerda para quem vai no sentido bairro-centro), o parque é um convite para quem deseja caminhar pela sua pista, relaxar sob as copas das árvores ou simplesmente contemplar poesias de ícones das literaturas portuguesa e brasileira.

O Bosque de Portugal foi criado em 1994, pelo então prefeito Rafael Greca, com o objetivo de preservar a mata ciliar do Rio Tarumã, que passa no meio da área. A ideia foi fazer uma homenagem ao povo português e ao nosso idioma, o quinto mais falado no mundo. Mas também como uma forma de revitalizar este ponto do bairro.

Quando o bosque foi inaugurado, não havia nada mais do que um trecho da rua Ozório Duque Estrada com um matagal de um lado e “muitos desocupados do outro, que ficavam deitados embaixo das árvores consumindo drogas e promovendo pequenos furtos”, como conta o sorveteiro José Félix. Ele trabalha no bairro há quase quatro décadas, e conhece todos os moradores da região: “hoje é muito mais seguro andar por aqui”, completa.

O 'boulevard' termina no memorial com um mosaico de petit pavê e as oito colunas com os países que falam a língua portuguesa.

O ‘boulevard’ termina no memorial com um mosaico de petit pavê e as oito colunas com os países que falam a língua portuguesa. Foto: Guilherme Grandi/Gazeta do Povo

Esta foi a primeira grande área de mata nativa preservada no Jardim Social, que ganhou também um memorial com uma ampla praça de petit pavê no trecho em que a rua Ozório Duque Estrada terminava sem saída. Logo no início do boulevard há uma coluna com o mais famoso poema de Fernando Pessoa, escrito nos azulejos decorados típicos de Portugal.

Depois, o caminho leva até um mosaico de pedras com uma rosa dos ventos estilizada e uma caravela portuguesa, em referência às embarcações que levavam os grandes navegadores do país pelo mundo. E logo ao lado, circundando a praça, estão oito colunas com os nomes dos países que falam o idioma português: Portugal, Brasil, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Angola, Guiné Bissau e Timor Leste. Este último foi construído em 2007, quando o território conquistou a independência.

A descoberta da história da língua portuguesa, embalada pelo som da gaita do sorveteiro José Félix, animou o turista paulistano Bruno Zanardi. Ele veio passar o final de semana em Curitiba e aproveitou para conhecer o bosque. Bruno conta que achou “bem interessante ter um parque assim, com as poesias de Luís de Camões ao longo da trilha, além de ser um local preservado no meio da cidade”.

A trilha, no meio da mata nativa, possui 22 colunas com poemas de escritores portugueses e brasileiros.

A trilha, no meio da mata nativa, possui 22 colunas com poemas de escritores portugueses e brasileiros. Foto: Guilherme Grandi/Gazeta do Povo

As poesias de Camões, citadas pelo turista, são apenas algumas das muitas retratadas nas colunas ao longo da Alameda dos Cantares. A trilha, que começa na praça principal do Bosque de Portugal, entra pela mata através de uma ponte sobre o Rio Tarumã e passa por 22 pilares com mais poemas escritos sobre os típicos azulejos portugueses. Lá também estão obras de Manuel Bandeira, Cecília Meirelles, Olavo Bilac, Mário de Andrade, entre outros.

A trilha e a pista de caminhada somam pouco mais de um quilômetro de extensão, e são usadas frequentemente pelo casal Geraldo Gomy e Maria das Graças. Eles moram a poucas quadras do bosque, e contam que encontram ali “frutas como araçá e maracujá do mato, além de alguns animais silvestres”. Segundo a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, os mais de 20 mil metros quadrados de bosque abrigam espécies como tico-tico, corruíra, sabiá, sanhaço, morcego e gambá. “É um prazer caminhar aqui”, completa Maria das Graças.

A poesia de Luiz de Camões aos navegadores também é retratada na Alameda dos Cantares.

A poesia de Luís de Camões aos navegadores também é retratada na Alameda dos Cantares. Foto: Guilherme Grandi/Gazeta do Povo

Entre os vários poemas retratados nas colunas, um deles chama a atenção de quem passa: “minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá”. A obra de Gonçalves Dias é normalmente usada para macetes em cursinhos pré-vestibulares, mas muita gente não conhece a continuação da poesia senão pela fórmula “seno A cosseno B, seno B cosseno A”. Ou, na obra original, “as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”.

Se isso não servir como um chamariz para conhecer o Bosque de Portugal, quem sabe o amor possa atrair a atenção de casais apaixonados:

“O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
porque já não posso andar só”

Este poema é do poeta português Fernando Pessoa aos enamorados. Ou ainda a poesia da lusitana Florbela Espanca:

“Livro do meu amor, do teu amor.
Livro do nosso amor, do nosso peito…
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.”

O amor da lusitana Sophia de Mello Breyner ao português falado no Brasil.

O amor da lusitana Sophia de Mello Breyner ao português falado no Brasil. Foto: Guilherme Grandi/Gazeta do Povo

E para encerrar o passeio, há também o amor da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner, escrito em 1919, ao jeito como falamos o português no Brasil:

“Gosto de ouvir o português do Brasil
Onde as palavras recuperam sua substância total
Concretas como frutos, nítidas como pássaros
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas
Sem perder sequer um quinto do vogal
Quando o poeta Brasileiro diz ‘Coqueiro’
O coqueiro fica muito mais vegetal.”

A inauguração do bosque, em 1994, teve a presença do então presidente de Portugal, Mário Soares. Junto do espaço também está a sede do grupo de escoteiros São Luiz de Gonzaga, que desenvolve projetos para preservação do parque e do rio desde a década de 1980.

Veja mais imagens do Bosque de Portugal:

A entrada na trilha, a partir da praça do Bosque, é feita por uma ponte sobre o Rio Tarumã.

A entrada na trilha, a partir da praça do Bosque, é feita por uma ponte sobre o Rio Tarumã. Foto: Guilherme Grandi/Gazeta do Povo

 

O poema de Gonçalves Dias é comumente usado em macetes de cursinhos pré-vestibulares.

O poema de Gonçalves Dias é comumente usado em macetes de cursinhos pré-vestibulares. Foto: Guilherme Grandi/Gazeta do Povo

 

A poetisa portuguesa Florbela Espanca retrata o amor como uma flor.

A poetisa portuguesa Florbela Espanca retrata o amor como uma flor. Foto: Guilherme Grandi/Gazeta do Povo

 

Na saída da trilha, já de volta à praça principal, mais um poema de Fernando Pessoa. Ao fundo, na direita, a sede do grupo de escoteiros São Luiz de Gonzaga.

Na saída da trilha, já de volta à praça principal, mais um poema de Fernando Pessoa. Ao fundo, na direita, a sede do grupo de escoteiros São Luiz de Gonzaga. Foto: Guilherme Grandi/Gazeta do Povo

Serviço
Bosque de Portugal
Rua Fagundes Varella com Rua Ozório Duque Estrada, sem número – Jardim Social
Aberto diariamente

Como chegar de ônibus
Hugo Lange – Linha 374 –
o ponto de partida é na Praça Santos Andrade (Centro).

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