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Não é todo mundo que tem o privilégio de ter uma amiga querida cujo nome é o mesmo de uma das personagens mais apaixonantes, em todos os sentidos, da literatura brasileira. Mas eu tenho. Depois de passar a adolescência e a juventude apaixonado por Ana Terra e sua linda filha Bibiana, frutos da combinação da História do Rio Grande do Sul com a fertilidade da imaginação de Érico Veríssimo, eis que hoje tenho uma Ana Terra de estimação. Mas ela não nasceu numa casinha perdida nos campos gaúchos, nem teve um tórrido caso de amor com um índio missioneiro ferido que acolheu em sua casa. Não. Ela vende pesos de porta na feira hippie. Ela é que os faz. E, a seu jeito, vai ana-terrando por cima da sociedade, mantendo-se à margem do esquema burguês sem, todavia, estar tão em casa na fronteira quanto a Ana Terra de Veríssimo.

Mas foi num desses papos que a gente tem quando passo por lá que me surgiu a ideia de escrever sobre algo que é tremendamente atual e, ao mesmo tempo, tremendamente eterno. Algo que a seu modo demanda um exame, um tratamento racional de algo que existe mas que só nos é apresentado como paródia de si mesmo. Refiro-me ao que o movimento feminista chama de – ou melhor, denuncia como – “ditadura da beleza”. O papo com a Ana Terra começou porque ela ficou indignada quando eu comentei que o Lula – que, mal que bem, é o maior macho-alfa da esquerda brasileira e por isso poderia literalmente escolher qualquer uma dentre milhões de mulheres belíssimas que o idolatram – parece só gostar de mulher feia. O cara é um barangólatra. Veja-se a amante que tinha quando presidente e a nova namorada. A legítima, ainda que tampouco bela, não conta por ter sido uma união anterior à sua ascensão social. Aliás, diga-se de passagem, ele se manteve na união até que a morte os separou, coisa que não se pode dizer do atual presidente.

“Ditadura da beleza!”, denunciou imediatamente minha amiga em resposta à minha denúncia da barangolatria do decápode eneadáctilo. Eu não neguei, mas tentei colocar uns tons de cinza na coisa; afinal o mundo, graças ao bom Deus que o criou, não é em preto-e-branco absolutos. Raras coisas neste mundo são objetivas ao ponto de poderem ser apontadas assim. O assassinato de um inocente, talvez. Mas não a beleza, e certamente não sua ditadura.

Existe uma “ditadura da beleza”? De uma certa maneira, ela existe e é querida por Deus. Ela faz parte da ratio divina, a ordem de todas as coisas (não por acaso nome de meu próximo livro, já à venda, publicado pela Editora Viv: tudo o que escrevo acaba, mal que bem, referindo-se a esta ordem. É minha monomania). Afinal, está no nosso hardware masculino que inevitavelmente percamos o fio da meada ao ver a bela face de uma linda mulher em plena fase reprodutiva. Isto é o que faz com que consigamos nos reproduzir, aliás; se os homens não se apaixonassem pelas moças ao ponto de perder qualquer parâmetro e medida, decidindo-se no ato a dedicar a vida a estar ao lado da dona daquele rosto perfeito e a servi-la, não chegaria a próxima geração. Simples assim.

E, do mesmo modo, a beleza feminina é a maior beleza que há. Se estivermos, nós homens, vendo o mais belo pôr do sol, do alto de uma montanha, embevecidos por todo aquele cenário, e subitamente uma linda mocinha nos ofertar seu sorriso – um sorriso que pode ressurgir mais tarde, ao contrário daquele pôr de sol, que é essencialmente único – será necessária enorme força de vontade para desligarmo-nos do sorriso e voltarmos a nos ater ao bendito pôr do sol. É assim que o homem foi feito, e a seu modo também é assim a mulher. Afinal, uma mulher é capaz de perceber a beleza de uma fotografia em que o foco seja outra mulher… Ou de ficar com raiva e ciúmes da outra bela que adentra o recinto. Ela percebe a beleza feminina tão bem quanto nós; a diferença é que ela a percebe em tom de guerra.

E é daí que vem o problema da expressão “ditadura da beleza”. A ditadura da beleza efetivamente existe, e ela opera – como qualquer ditadura – em detrimento da maioria e a favor de uma minoria. Uma moça belíssima, como há de ter sido a Ana Terra (de Veríssimo ou dos pesos de porta) aos vinte anos, tem privilégios e poderes que nenhuma outra mulher tem. Mas ela é para poucos, muito poucos. Ela paira pelo ar enfeitiçando os homens, mas um só será o felizardo. E este um, claro, não serei nem eu nem qualquer outro amigo feio, pobre e meio burrinho. Mas isto é, digo e repito, algo querido por Deus. Há uma segunda classe, e uma terceira classe, e ene outras classes de homens que buscarão e conseguirão a bela mãozinha de uma moça nem tão fantástica, ou se tão bela um pouco doidinha, ou qualquer outra coisa que a faça “cair de preço” no mercado matrimonial, que efetivamente existe e efetivamente é regido pelas leis do mercado, por menos que o desejemos. É injusto? No varejo sim, no atacado não. Cada um é como Deus o criou, e cada um se ajeita como pode, arranja um cônjuge que o ame e tem filhinhos, e escreve livros, e faz pesos de porta ou planta agrião.

Acusar a “ditadura da beleza” faz tão pouco ou nenhum sentido quanto acusar a “ditadura do cérebro” – que leva os mais inteligentes a conseguir com mais facilidade, por exemplo, sair da pobreza e, quem sabe, até se casar com alguém mais bonito – ou a “ditadura do dinheiro” – que faz com que o filho de um milionário tenha, claro, mais auxílios que o filho de um pé-rapado como eu. São modos de tentar igualizar um campo que não é igual, de tentar aplainar as montanhas e encher os vales, como a Sagrada Escritura diz que se há de fazer para a vinda do Cristo. Ora, montanhas e vales existem em todos os campos de nossa vida. O ser humano é sempre igual na sua dignidade humana; ninguém deixa de ter direito à vida, à constituição de uma família, à pequena propriedade, e por aí vai. Somos todos humanos. Mas passou disso somos diferentes. Um tem um nariz maior que o do outro, o outro é mais inteligente e a outra é mais bela. E é bom que seja assim. Não só porque o mundo seria um tédio se não fosse o caso, mas porque é isso que nos leva adiante.

Há uma história na tradição rabínica, segundo a qual um grande sábio viajou até os confins do mundo em busca de uma raça de imortais, de que ele soubera por velhos manuscritos. E viajou, e viajou, e subiu montanhas que não foram aplainadas, e passou por vales que não foram preenchidos, e um dia acabou chegando ao lugar onde deveriam estar os imortais. Olhou em volta, procurando os imensos templos, os belíssimos edifícios que imaginava encontrar, e nada viu. Aqui e ali uma que outra pilha de rochas poderia dar a algum arqueólogo uma vaga impressão de já terem sido partes de uma construção, mas o resto era, literalmente, só mato. E andou o velho sábio, e acabou encontrando umas pessoas nuas como Adão, deitadas ao sol, suspirando. Perguntou-lhes então ele, já desconsolado por ter chegado à conclusão de que a raça de imortais seria apenas uma lenda, se eles sabiam, se tinham ouvido falar de imortais que toda a vasta literatura dos antigos indicava estarem por ali. Respondeu-lhe um deles, entediado e sem abrir os olhos, que eram eles. Eram os imortais que passavam os dias e as noites imóveis, sem nada fazer, sem nada construir, sem tentar por um segundo que fosse aprimorar-se. O sábio, então, espantado, perguntou-lhes de suas obras, de seus livros, de seus palácios, de seus templos, e a resposta do imortal congelou-lhe o sangue: “Pra quê?”, respondeu-lhe, ainda sem olhar para ele, o imortal, “se as pedras que levantamos se tornam com o tempo em areia, os livros viram pó, os filhos morrem todos, e nós continuamos aqui?”.

E é isso que seria o nosso mundo se não houvesse essas diferenças, essas ditaduras todas: da beleza, da inteligência, da (no mais das vezes flagrantemente injusta) riqueza, do talento artístico, e do que mais for. São essas ditaduras todas que nos levam adiante. Eu toco saxofone há trinta e muitos anos, mas jamais tocarei como Ben Webster. Eu escrevo, mas jamais escreverei como Corção. Penso o Brasil e o amo, mas Suassuna sempre será meu mestre, diante de quem este burro só pode abaixar as orelhas. É uma ditadura. Mas não é uma ditadura que oprime, sim uma ditadura que me leva adiante: ouvir o sopro de Ben Webster ou as palavras de Suassuna, bem como ler as ricas linhas de Corção, mesmo sabendo que jamais chegarei aos seus pés, é algo que me leva adiante. E para cima. É algo que me insta a procurar ser melhor que o que eu sou, tendo diante de meus olhos aquela “cenoura” flutuante que faz o burro avançar.

O mesmo, por incrível que pareça, vale para a ditadura da beleza. E vale para as péssimas escolhas estéticas de Lula, que mostram haver algo de profundamente errado em seu âmago mais interior: talvez uma necessidade de estar acima, de ser o “lindão” da relação ao invés de, como nós outros homens, sonhar com o privilégio de servir a beleza de uma linda mulher.

Cada homem, cada pessoa, pertence a pontos diversos em milhares de escalas diferentes. Ele pode ser o melhor do mundo em sua arte, mas ser feiíssimo, como Pixinguinha ou Ben Webster. Ele pode ser belíssimo, mas burro como uma porta. Ele pode ser brilhante, mas chato como um pernilongo de beira de praia, feio como a fome e pobre de marré deci. Ou pode ser rico e feio, ou pode ser engraçadíssimo e fisicamente fraco e doentio. Em suma, estamos todos ao mesmo tempo, homens e mulheres, crianças e adultos, em vários degraus de várias escalas. Em criança, estamos nos primeiros degraus de quase todas. Mesmo os bebês mais lindos não têm qualquer garantia de virem a ser belos adultos. Mas, desde criança, todos nós somos chamados a galgar degraus, a ir em frente. A feia se enfeita e fica bonitinha. O burro estuda e vira uma anta culta. E por aí vai, ou melhor, por aí vamos todos. Só não podemos parar; só não podemos nos deixar ficar, desistir de melhorar, de nos aprimorar, de tentarmos ser tudo aquilo que nosso Criador nos concebeu para ser.

E é aí que entra a famosa ditadura da beleza. Quando meu primo, anos atrás, me perguntou se eu havia visto alguma foto da esposa do famoso político francês Sarkozy, respondi-lhe que não, mas que certamente se tratava de uma mulher belíssima. Claro, eu estava certo. Era nada mais, nada menos, que a fulgurante Carla Bruni. Afinal, o sujeito era o macho-alfa, o “ditador”, o dono do topo de uma escala de poder na República Francesa, e é claro e natural que ele haveria de escolher uma mulher que estivesse, ela também, no topo de uma escala. E a escala feminina mais natural para ser o critério de um homem na escolha de companheira é aquela em que a mão de Deus pesa mais que o esforço da mulher: a beleza. Faz sentido.

Mas quanto se toma a escolha (anti)estética de um Lula ou – horresco referens – de um Macron, o que se tem é um golpe de Estado, uma revolução, no pior sentido do termo: uma negação das escalas naturais, uma busca artificial de uma escala antinatural, que só diz mal da pessoa que a faz.

É antinatural, repito. Vai contra a escolha da mais bela obra de Deus. É como um diretor de gravadora que, tendo diante de si um Pixinguinha, preferisse gravar Anitta. É colocar o critério errado à frente. É, mais ainda, negar o critério mais evidente e que mais diz acerca de algo objetivamente existente. É claro que a Anitta é mais agradável aos olhos (se ela se comportar de modo minimamente decente, claro, o que não sei se lhe é possível) que o velho Pixinguinha, mas a música deve falar aos ouvidos, não aos olhos.

Esta ditadura, a da beleza, bem como as demais ditaduras que mencionei acima, servem a um bom fim. São elas que nos levam adiante. É a ditadura da beleza que faz com que a feiosinha ajeite o cabelo e, assim, arranje para si seu feiosinho, e que ambos tenham filhos “muito expressivos”, dos quais um pode vir a ser o novo Pixinguinha. Já a do poder, no caso de Lula ou de Macron, deveria apresentar como resultado natural a companhia de uma mulher belíssima, coisa que conduziria inconscientemente muitos rapazes a buscar “fazer uma diferença na política”. Mas não. Como exemplo oposto, a bela concubina atual do nosso presidente já dá um sinal mais natural neste sentido.

São muitas as escalas em que nos situamos, e cada uma delas, a seu modo, constitui uma “ditadura”. Mas a extrema beleza não indica, ou sequer facilita, a extrema felicidade. A mulher lindíssima tem tantos privilégios quanto problemas; a feia certamente terá muito menos problemas de avanços amorosos masculinos grosseiros, indesejados e mesmo agressivos, por exemplo, ainda que lhe seja mais difícil arranjar quem lhe troque o pneu furado. Do mesmo modo, o que não falta por aí é suicida rico. Ou gente extremamente talentosa que não consegue sequer navegar as dificuldades da vida cotidiana: o grande baixista de jazz Jaco Pastorius acabou a vida como mendigo. Morreu, literalmente, na sarjeta.

Cada ditadura tem seu peso, e cada ditadura tem sua importância. É o emaranhado destas escalas todas que compõe, na verdade, o mundo em que navegamos. Há quem – como eu e a Ana Terra – prefira abster-se da corrida de ratos da burguesia dinheirista e se dedique a alguma outra coisa que não dá dinheiro: a companhia de bons amigos, o estudo, a arte pela arte, o que for. Mas mesmo esta abdicação não significa, em última instância, que nossa vida não esteja entremeada com a de gente que está em diversas lutas por diversos graus de escalas que não nos interessam. Meu filho está fazendo um curso de marketing, por exemplo, e veio me comentar que o professor fala de mim(!) em muitas aulas, usando-me como exemplo das coisas mais inesperadas. Ora, marketing realmente não é a minha praia. Mas de algum modo a minha posição na escadinha da ditadura do bem-escrever, cujo topo jamais alcançarei, já bastou para que, de algum modo, eu servisse de inspiração a alguém duma área tão diferente. E é assim que a banda toca, vida afora.

É ótimo, então, que tenhamos tantos ditadores e ditadoras, tão benevolentes, em tantas áreas. Cada qual com seu cada qual, e é assim que construímos um mundo. E, claro, continuaremos sempre a abrir a porta correndo para que passem as mais belas, e o pneu de seu carro jamais ficará muito tempo furado. Servimos felizes a nossas ditadoras.

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