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Antiviral - Maduro
| Foto: Reprodução/VTV

O anúncio feito pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, de que pesquisadores venezuelanos desenvolveram um antiviral capaz de neutralizar em 100% o novo coronavírus levantou dúvidas e críticas entre cientistas, além de piadas nas redes sociais. O líder chavista não apresentou resultado de nenhum estudo sobre o medicamento, apesar de afirmar que as pesquisas com o antiviral vinham sendo realizadas há nove meses.

Trata-se do medicamente batizado com o nome Carvativir. “Está estabelecida a patente nacional e internacional e o registro sanitário foi feito no país, e posso apresentar o medicamento que neutraliza 100% o coronavírus, o Carvativir”, disse Maduro em pronunciamento na VTV, rede de televisão estatal.

O presidente venezuelano disse ainda que os estudos sobre a substância serão apresentados em revistas científicas especializadas e à Organização Mundial da Saúde (OMS) para obter a sua certificação internacional. O líder, porém, não forneceu o nome de nenhum pesquisador responsável. Afirmou que se trata de “uma mente brilhante venezuelana” que está sendo mantida no anonimato “para proteger sua integridade, assim como protegemos nossa equipe científica”.

O coordenador executivo do Centro de Contingência de Combate ao Coronavírus de São Paulo, médico João Gabbardo, reagiu pelo Twitter ao anúncio do governo venezuelano. “A ignorância não tem lado. Pode estar à direita, ao centro e à esquerda”, escreveu o médico, que atuou ao lado do ex-ministro Henrique Mandetta no Ministério da Saúde.

O jornalista Jean-Philip Struck, que escreve para o portal Deutsche Welle (DW), também questionou. “Ninguém tinha ouvido falar de alguma pesquisa sobre isso (o antiviral) até o anúncio’”, escreveu no Twitter. O post foi compartilhado pelo também jornalista Guga Chacra, da Globo News.

Em reportagem do Infobae, site de notícias criado na Argentina em 2002 e que hoje tem 450 jornalistas atuando em vários países, a presidente da Sociedade Venezuelana de Infectologia, María Graciela López, disse que “desde meados do ano passado o Executivo nacional, incluindo funcionários do Ministério do Poder Popular para a Saúde, começaram a falar de uma molécula que estava em estudo, chamada DR10, a qual estava sendo desenvolvida pelo Instituto Venezuelano de Investigações Científicas (ICIV) e que havia demonstrado resultados milagrosos”.

Graciela López, entretanto, disse desconhecer informações seguras sobre os estudos envolvendo o Carvativir. “Não temos informação de que tenha passado pelas fases I, II e III de estudos nem que tenha sido publicado em revistas científicas arbitradas para ser submetido à revisão por pares, por pesquisadores que estão de fora do desenvolvimento do produto”, declarou.

Segundo Maduro, a Venezuela iniciará o quanto antes a produção em massa do novo medicamento para ser distribuído gratuitamente na rede pública, privada e em farmácias. O Ministério da Saúde venezuelano incorporará o medicamento aos protocolos oficiais de tratamento contra Covid-19. A proposta do governo venezuelano também é exportar aos demais membros da Aliança Bolivariana (ALBA), como Cuba, Bolívia e Nicarágua.

A anunciar o Carvativir, Maduro chamou o medicamento de “gotinhas milagrosas de José Gregorio Hernández”, em referência ao médico, cientista e religioso venezuelano morto há um século (em 1919) em um acidente automobilístico. Em abril do ano passado, a Congregação para a Causa dos Santos informou que a Santa Sé reconheceu um milagre atribuído à intercessão de Gregorio Hernández. Na ocasião, o arcebispo venezuelano Baltazar Porras recordou que há 102 anos, na companhia de outros proeminentes médicos venezuelanos, José Gregório deu o melhor de si para cuidar das vítimas da epidemia de gripe espanhola que causou estragos em todo o mundo.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que nenhum medicamento até agora – excluindo as vacinas – mostrou eficácia no combate ao Sars-CoV-2. Um grande estudo feito sobre quatro tratamentos foi divulgado em outubro. O ensaio Solidarity tratava de provar a eficácia dos antimaláricos cloroquina e hidroxicloroquina, o coquetel antiviral remdesivir, lopinavir e ritonavir, usados contra o HIV, e interferon. Nenhum demonstrou efeitos significativos na redução da mortalidade dos pacientes hospitalizados após 28 dias de tratamento, confirmou a OMS.

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