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Genocida, fascista, nazista... Quantas vezes por dia você tem ouvido ou lido essas palavras nos últimos tempos? Imagino que você esteja cansado de ouvir gente falando em genocídio para se referir a uma pandemia, causada por um vírus, em que praticamente todos os países do mundo foram afetados e tiveram milhares de mortos.

Quem aderiu a esse vocabulário deveria saber que chamar alguém de genocida, por exemplo, também pode ser considerado crime. Injúria, calúnia e difamação não são tipificações criminais imputáveis apenas a jornalistas, mas a qualquer um que acuse os outros sem provas, invente ou modifique fatos para fazer parecer que alguém agiu de má fé e atingir sua reputação.

Estou entre os brasileiros que não aguentam mais essa gritaria insana, com gente dizendo que o Brasil vive um genocídio ou está à beira da implantação do fascismo ou de uma ressurreição do nazismo.

Além de desonesta essa prática de abusar de algumas palavras relativas a atrocidades passadas acaba prejudicando vítimas reais de crimes em massa, cometidos contra a humanidade.

Não é de hoje que políticos e militantes enchem a boca para acusar opositores da prática de genocídio, como se as pessoas para quem eles apontam o dedo acusatório estivessem cometendo assassinatos em série e exterminando populações inteiras de forma premeditada.

Seria mais ou menos como se estivessem colocando veneno na água para ver todo mundo morto só pelo prazer de aniquilar seres humanos que consideram indignos de viver sob outra ideologia ou forma de pensar.

Genocídio na história recente

A história mostra que genocídios reais (não esses, imaginários) infelizmente aconteceram em alguns lugares do mundo, como na Alemanha nazista, com o extermínio de judeus em câmaras de gás, e na China atual, com o desaparecimento ou a prisão de muçulmanos uiguris em campos de concentração.

Há, inclusive, indícios até de prática de esterilização forçada de mulheres para que elas não possam mais ter filhos e assim, simplesmente suma da face da terra o grupo de pessoas que praticam uma religião que não é aceita pelo governo comunista chinês. A Gazeta do Povo tem vários artigos publicados sobre a perseguição aos uigures na China.

Genocídio é uma palavra fortíssima, que significa extermínio de grandes grupos humanos por conta de religião, raça, etnia, nacionalidade ou ideologia política.

Há registros de genocídio no mundo desde a antiguidade. Só do começo do século XX para cá é possível listar vários. Os mais conhecidos são os extermínios provocados pelo nazismo, fascismo e comunismo.

Tríade genocida: comunismo, nazismo e fascismo

Levantamento feito pelo professor francês Stephanie de Courtois, da Universidade Paris VII, um dos maiores estudiosos de comunismo do mundo, atribui às ditaduras comunistas a morte de 110 milhões de pessoas nos últimos 100 anos, média de mais de um milhão por ano (a maior parte na China e na Rússia).

A título de comparação, a ditadura militar no Brasil, que foi violenta, matou 434 pessoas. E antes que me acusem de apologia aos militares da era AI5 antecipo que não estou fazendo essa comparação para minimizar os crimes cometidos durante o regime militar brasileiro. Foram crimes bárbaros, cometidos por disputa política, mas não foi genocídio.

Genocídio real, tal qual o dos uigures chineses, que está em pleno andamento sem que os ditos "defensores de minorias" se inflamem, foi o Holodomor, na Ucrânia, na década de 1930, quando os comunistas soviéticos confiscaram fazendas produtoras, acabaram com a produção agrícola e deixaram a população morrer de fome.

Alguns especialistas falam na morte de 2 milhões de ucranianos entre 1932 e 1933. Perderam a vida por inanição e falta de nutrientes. Tem historiador que calcula em 12 milhões o número total de vítimas por levar em conta as crianças que já nasceram desnutridas, com baixa imunidade e acabaram morrendo logo depois.

Holodomor, em ucraniano, significa “matar de fome”. A falta de comida não foi uma tragédia natural, causada por pragas, que destruíram plantações ou pelo clima, mas resultado de uma política agrícola desastrosa instituída pelo líder da revolução russa, Joseph Stalin.

Para não reconhecer o erro, Stalin recusou-se a aceitar ajuda humanitária dos países vizinhos, que estavam vendo a população morrer por falta de comida. Esse sim foi um genocida. Se quiser saber mais sobre a fome provocada pelo comunismo na Ucrânia também pode navegar pelas editorias Mundo e Ideias aqui da Gazeta do Povo, onde há vários artigos publicados sobre o tema.

O holocausto nazista matou cerca de 10 milhões de judeus, além de ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová e pessoas com alguma deficiência. Hitler e seus seguidores não toleravam deficientes físicos ou mentais.

O fascismo na Itália, na Espanha e no Japão também provocou milhares de mortes e deixou como legado a destruição da sociedade livre e produtiva.

Os regimes fascistas tiravam a liberdade de expressão das pessoas através da censura, confiscavam propriedades e bens, fechavam o comércio e a indústria, acabando com a livre iniciativa, desempregando empresários e trabalhadores, para depois dar esmolas a título de ajuda estatal.

O século XX ainda foi marcado pelo genocídio no Camboja (Ásia), em vários países da África e também em outros lugares da Europa. No último fim de semana, em 24 de abril, o mundo lembrou o aniversário de mais um genocídio, contra o povo armênio, que vivia na região da atual Turquia. Em 1915 entre 1 milhão e 1,5 milhão de pessoas foram assassinadas e centenas de milhares, expulsas de suas terras.

O assunto foi notícia nos grandes jornais agora, porque o atual presidente dos EUA, Joe Biden, usou a palavra genocídio, de forma apropriada, para se referir ao massacre do povo armênio. Foi o primeiro presidente americano a fazer isso, reconhecendo que o que os turcos otomanos fizeram contra os armênios foi mesmo um genocídio.

Uso apropriado da palavra genocídio

Quando digo que o presidente americano usou o termo de forma apropriada, é porque condiz com a definição do dicionário. “Genocídio é o extermínio proposital que aniquila, mata uma comunidade, um grupo étnico ou religioso, uma cultura.”

A história da tragédia na Armênia ainda está viva na lembrança de netos de centenas de milhares de pessoas mortas ou expulsas de onde moravam. Calcula-se que hoje existam de 6 a 8 milhões de armênios espalhados pelo mundo, sobreviventes de um genocídio real.

Só no Brasil vivem cem mil armênios, a maioria em São Paulo. E há também milhões de judeus pelo mundo, uma grande comunidade no Brasil, muitos descendentes dos que sobreviveram ao holocausto.

Quem anda usando a palavra genocídio a torto e a direito por causa de uma pandemia talvez nunca tenha parado para pensar no impacto disso sobre essas pessoas, que sabem o que é extermínio premeditado, perseguição religiosa, étnica ou política que resultam em massacres de verdade.

Os políticos e militantes de oposição ao governo, que usam palavras pesadas de forma errada como estratégia política, provam não ter um pingo de empatia pelos milhares de chineses, cubanos e venezuelanos que vivem no Brasil, também fugidos de verdadeiros regimes genocidas.

Como será que esses imigrantes se sentem vendo a palavra genocídio banalizada, como se não houvesse dor real  e crimes reais embutidos nela?

Reflexão

Se você usa a palavra genocídio para se referir à pandemia, sugiro uma reflexão. Essa palavra não cabe para se referir ao momento atual. Quem está matando agora é um vírus. E vírus não tem consciência, não planeja as ações, não escolhe inimigo.

Se for para responsabilizar governantes ou autoridades pela mortes da pandemia, seja por terem dado mau exemplo saindo às ruas sem máscara (e aí temos de João Doria a Jair Bolsonaro); por terem passado orientação errada, como aquela do ex-ministro Mandetta para as pessoas só procurarem médico quando estivessem com falta de ar; seja por terem gasto dinheiro de respiradores e remédios para pagar salários atrasados ou por terem desmontado hospitais de campanha antes da hora é melhor se perguntar primeiro qual palavra usar.

Corrupção é outro tipo de crime. Negligência, incompetência podem resultar em responsabilização, mas também não são genocídio. Alguém falar algo que você não gosta não faz dessa pessoa um nazista ou um fascista.

Se fôssemos classificar governantes como genocidas por causa das mortes de Covid, quantos genocidas haveria no mundo? Quem seria o pior? Aquele que comanda o país com mais mortes por milhão? O menor país, onde as mortes são mais perceptíveis? Ou governantes de populações mais numerosas, em que o número absoluto de mortes, obviamente, é muito maior?

Sugiro uma corrente pela utilização correta da palavra genocídio. Toda vez que alguém usa o termo com fins políticos, eleitoreiros ou militantes, banaliza o crime a ponto de nos fazer esquecer das vítimas de genocídios reais.

Isso não apenas é desumano e cruel, como também, perigoso.  A humanidade não deve nunca esquecer dos crimes bárbaros que vitimaram grandes grupos populacionais, sob o risco de permitir que isso volte a acontecer.

Não banalize as palavras genocídio, fascismo, nazismo e suas variações, em forma de xingamento direto. Não use, não curta e muito menos compartilhe mensagens em que essas palavras são usadas de forma errada. Se ouvir, conteste, repudie, porque calar também não é opção. Como diz o ditado popular, quem cala, consente.

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