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Duas semanas atrás eu gravei um vídeo aqui para a coluna falando de privilégios e agora me vejo, de certa forma, obrigada a falar de patrimonialismo - essa outra praga que nos persegue desde que o Brasil foi dividido em capitanias hereditárias e os "senhores de terra" deixaram como herança para os descendentes não só seu naco de Brasil, mas uma arrogância que faz os "coronéis", "doutores" e "excelências" de hoje se sentirem melhores e com mais direitos que os demais brasileiros.

Muitos dos que deveriam servir ao povo, porque se propuseram a isso prestando concurso ou se candidatando a cargo público, invertem a lógica e pensam que somos nós, os brasileiros "comuns", que servimos a eles. Por esse pensamento deturpado, não basta garantirmos, através dos impostos que pagamos, que o governo tenha caixa para honrar a folha de pagamentos. Eles realmente acham que devemos pagar seus alugueis, ternos, livros, passagens aéreas, diárias de viagens, até as pensões de suas filhas solteiras até a morte, não importa com que idade.

É preciso enfatizar que não há nada de errado em se tornar servidor público, muito pelo contrário. É nobre dedicar a vida a servir à coletividade. E é correto o governo usar parte do que é arrecadado com impostos para pagar os servidores. Não há país sem serviço público, não há serviço público sem pessoas dispostas a trabalhar pela população e trabalho, sem remuneração, é escravidão e não, emprego.

O problema é a inversão de valores que rege a mente de muitos dos que estão no serviço público. Refiro-me àqueles que realmente pensam merecer mais do que salário e não se assombram, como nós, com os privilégios que foram sendo anexados a determinados cargos com o passar dos anos. Estes simplesmente usufruem das benesses e debocham da nossa indignação como se vivessem em outro planeta. É um raciocínio patrimonialista.

No outro vídeo eu citei alguns dos muitos benefícios garantidos por lei a parte – é bom frisar, parte - dos servidores dos três poderes, tanto na esfera federal, quanto estadual e municipal. E o quanto era importante não nos calarmos para que esses privilégios não se perpetuassem.

Repercussão

O vídeo dos privilégios foi compartilhado pelos assinantes e seguidores da Gazeta do Povo nas redes sociais e viralizou no WhatsApp. Através de grupos de família, amigos e colegas de trabalho atingiu dezenas de milhares de pessoas, que entraram na corrente de indignação. E chegou também para uma juíza federal de São Paulo, que não gostou do que eu disse ou de parte do que eu disse. Na verdade, não gostou do que eu não disse.

A "doutora", cujo nome prefiro não mencionar, permitiu-se deixar processos de lado por uns minutos, num dia útil, para me ligar na redação aqui em Curitiba e me alertar que de nada adiantava o que eu estava "pregando", porque há no Brasil algo chamado direito adquirido.

"Aquilo que você tá batendo lá pra lutar, pra tirar, tal, tal, tal, não vai cair nunca!", me disse a juíza num tom desafiador.

"Você tá falando: vamos lutar pra tirar isso, vocês não vão tirar nunca. Trata-se de direito adquirido, não se discute. Não vai tirar.”

Ela tem razão. Faltou mesmo um esclarecimento sobre isso. Quem já tem privilégios, poderá usufruir deles até morrer ou até as filhas solteiras morrerem, em alguns casos, desde que a consciência assim o permita. Muitos dos novos deputados e senadores, e alguns dos antigos, já abriram mão de vários dos privilégios garantidos por lei, cientes da situação fiscal do país e em respeito a todos os brasileiros, em especial a seus eleitores. Por que outros tantos não o fazem? Patrimonialismo.

À juíza, esclareci que minha intenção naquele vídeo, intitulado "Até quando vamos nos calar sobre privilégios de deputados, senadores, juízes?", era alertar as pessoas que quando nos calamos os privilégios se perpetuam eternamente e, pior, os beneficiados seguem achando que têm mais direito do que as outras pessoas de usufruir do dinheiro que é de todos. E disse também que quis reforçar que podemos sim exercer pressão sobre o parlamento para que nossos representantes revoguem leis que deram a servidores privilégios que não aprovamos.

Ela acabou declarando ser contra carro, motorista, seguranças e assessores particulares, além de passagens aéreas e diárias de viagem para ex-presidentes, especialmente aos que sofreram impeachment (Dilma e Collor) ou Lula, que cometeu crimes, foi julgado e condenado. Mas não falou sobre os benefícios garantidos aos juízes, desembargadores, ministros de tribunais superiores, promotores e procuradores. Suponho que esteja de acordo com eles.

Volto a dizer: precisamos combater essa cultura do patrimonialismo. A pessoa sabe que tem um privilégio que, embora legal, não é moralmente aceitável, mas, em vez de entrar na luta para que ele acabe, debocha dos que ousam levantar a voz contra esses “benefícios adquiridos" sabe-se lá por que.

Indignado como eu?

Se você não viu o vídeo anterior e for assinante da Gazeta do Povo pode acessar o texto e o vídeo dos privilégios clicando aqui. Ele foi publicado na coluna Vozes.

Não assinantes que, por ventura, estejam lendo esse texto como uma "degustação" ao cardápio das Vozes da Gazeta, podem assistir ao vídeo anterior nas redes sociais ou no canal do YouTube da Gazeta.

E eu insisto no recado: se você entende que o dinheiro público é arrecadado por todos para ser usado em benefício da maioria (ou de minorias desassistidas) não se cale para os privilégios e não aceite posturas patrimonialistas.

Os privilégios hoje garantidos por lei podem sim deixar de existir se os parlamentares entenderem que esse é um desejo da população em geral, do eleitor. E aqueles que têm “direito adquirido” podem continuar com suas atitudes patrimonialistas, desrespeitando os princípios de coletividade. Só não esperem mais que fiquemos em silêncio. O Brasil aprendeu a se manifestar. E não aguenta mais ficar calado.

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