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Crônicas de um Estado laico

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Por que o coronavírus nos obriga a ter fé?

  • PorJohn de Miranda
  • 10/10/2020 00:01
Coronavírus: modelo em 3D
Quando se trata do coronavírus, todos têm fé no sentido de acreditar em algo: qual o melhor modelo de isolamento, ou a melhor forma de não quebrar a economia.| Foto: Aris Messinis/AFP

“Fé” é uma palavra com diferentes significados. Podemos dividir esses significados entre os que são religiosos e os que são não religiosos. No sentido religioso, “fé” pode significar algo muito profundo e difícil de descrever, por exemplo: algo como uma confiança em coisas que não podemos ver (p. ex., em Hebreus 11,1). Aqui a fé é vista como uma certeza. Já do ponto de vista não religioso a fé é algo diferente: não se trata tanto de uma certeza no sentido forte recém-mencionado, e sim de uma expectativa, uma previsão baseada em probabilidades. Se eu dissesse algo como “acredito que aquela criança irá cair se continuar se balançando nos galhos da árvore”, estaria expressando uma fé deste tipo probabilístico.

No limite, como notou o filósofo britânico David Hume em Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral, até mesmo a frase “o sol nascerá amanhã” envolve uma fé probabilística: é extremamente provável que o sol nasça amanhã; mesmo que o céu esteja nublado, é extremamente provável que, em dado horário do dia, o sol estará em certa posição do espaço; porém, não posso dizer que tenho certeza absoluta disso, pois não é impossível que algo excepcional aconteça e o mundo deixe de ser como sempre foi – incluindo o nascer do sol.

Todos nós estamos exercendo a nossa “fé probabilística” com bastante intensidade nesses dias. Muita coisa está em jogo

É interessante notar que neste momento dramático de pandemia todos nós somos forçados a exercitar com maior intensidade alguns dos tipos de fé mencionados acima. Em termos não religiosos, todos nós acabamos crendo em algo quanto ao coronavírus. Uns ainda creem que é melhor manter o isolamento horizontal até que o referido vírus esteja totalmente controlado em nosso país. Outros creem ser melhor partir para um isolamento vertical (aliado ao tratamento precoce), em que se manteriam isolados apenas os indivíduos que fazem parte do grupo de risco, pois assim a nossa economia poderia tentar se estabilizar. No fundo, porém, nenhum dos dois grupos pode dizer que tem certeza absoluta sobre suas opiniões. A rigor, nenhum dos dois grupos pode dizer que tem certeza absoluta de que sua posição é a melhor. Ambos precisam crer nelas, e ambos podem estar errados. Veja-se, ademais, que não se trata tão somente de uma fé ocasional. Na verdade, dada a gravidade da situação, parece lícito dizer que todos nós estamos exercendo a nossa “fé probabilística” com bastante intensidade nesses dias. Muita coisa está em jogo. As nossas opiniões – e decisões – afetarão milhões de vidas.

Quanto à fé religiosa, por outro lado, engana-se quem pensa que ela é imune aos dramas e conflitos humanos. Se por um lado a fé religiosa pode trazer conforto àqueles que a praticam, por outro ela impõe desafios muito maiores que os que a mera fé probabilística jamais poderia impor. A fé religiosa implica uma certeza num nível muito mais amplo e determinado. O crente já nutre uma dada expectativa. No caso do cristão, por exemplo, ele crê que tudo ocorrerá conforme diz a Bíblia. Assim, se por acaso a dúvida se apossar dele (como ocorre diversas vezes), ela virá sobre essa crença, em toda sua profundidade e complexidade. Já o descrente, por seu turno, não tem esse tipo de expectativa. As coisas que ele espera dizem respeito a este mundo apenas. Muito menos está em jogo para ele.

Contudo, não se pode negar que o bônus da fé religiosa logo reivindica seu protagonismo: pois, ao mesmo tempo em que essa fé exige mais das pessoas, ela também promete muito mais do que a mera expectativa mundana pode oferecer. O crente tem a vantagem de poder situar todos os acontecimentos do mundo dentro de um plano maior. Ele não precisa se apegar a esperanças tão fugazes quanto a estas que temos para a presente vida. Ele não precisa fugir do fato de que o seu corpo não resistirá à ação do tempo e que tragicamente se decomporá; de que os seus feitos e a sua pessoa mesma não terão mais significado ou importância no futuro (já que é difícil imaginar que alguém se lembrará de nós daqui a 100 ou 200 mil anos).

Seja como for, ao menos uma coisa resta clara aqui, a saber: a nossa necessidade de decidir no que vamos crer. A escolha é algo do qual não se pode fugir. Até mesmo deixar de escolher já é fazer uma escolha. Nestes tempos decisivos em que vivemos, precisamos, pois, escolher no que vamos crer – e tomar responsabilidade sobre essa decisão. Creremos no isolamento horizontal ou no vertical? Creremos nos medicamentos que estão sendo experimentalmente usados? Creremos em todas as vacinas que virão? E – também – creremos nós na realização terrena ou no porvir? Mesmo que tomemos tais decisões com auxílio de outras pessoas, a verdade é que, ao menos no momento mesmo da decisão, seremos somente nós e Deus (ou o universo, para os descrentes). Esta aí algo do qual não se pode fugir: a necessidade de escolher no que vamos crer.

John de Miranda é mestre e doutor em Filosofia, segundo-vice-presidente do think tank Clube Austral e vice-diretor da regional gaúcha da associação Docentes Pela Liberdade (DPL).

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Comentários [ 1 ]

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    André Zacarias T. de Queiroz

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