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O presidente dos EUA, Joe Biden, chamou o presidente da Rússia, Vladimir Putin, de assassino| Foto: Eric BARADAT e Pavel Golovkin/AFP

“Um fantasma ronda a Europa”, escreveu Marx no início de seu Manifesto, referindo-se ao “fantasma do comunismo”. Hoje, outro vulto atormenta o Velho Continente: a escalada de tensão entre Ucrânia e Rússia, que pode colocar em rota de colisão os governos de Washington e Moscou. É bem provável que você não tenha visto essa informação ganhar destaque no noticiário televisivo. Mas, somente em 2021, já foram mortos, em confronto com separatistas, mais de 30 soldados ucranianos, ultrapassando a soma de todo o ano passado. Além disso, segundo fontes norte-americanas, o contingente russo na fronteira com a Ucrânia é maior do que o efetivo de 2014, quando invadiram a Crimeia.

Para se ter uma ideia da temperatura em que as coisas estão, a Rússia expulsou, na semana passada, 10 diplomatas americanos e sugeriu que o embaixador retorne a Washington, em resposta a sanções impostas pelo governo Biden. Moscou chegou a indicar, inclusive, que poderia recorrer a medidas diretas contra empresas dos Estados Unidos.

Alguns analistas enxergam, na atual disputa, uma tentativa, por parte do império americano, de impedir que os russos controlem ainda mais o fornecimento de gás para a Europa. Neste cenário, o deslocamento sem precedentes de tropas russas para o leste ucraniano seria uma “provocação inaceitável”. Outros especialistas defendem que Putin não deseja realmente invadir a Ucrânia, mas apenas usar suas tropas para dar um “susto” no Ocidente, uma vez que o presidente americano já propôs um encontro entre ambos, e a conversa seria capaz de acalmar os ânimos.

A Ucrânia está no centro de uma enorme disputa entre Estados Unidos e Rússia. Mas os comentários sobre essa contenda geralmente privilegiam os aspectos geopolítico e histórico, deixando de lado o pano de fundo econômico. Analisemos brevemente o que está por trás de toda essa questão, que poderia conduzir o mundo a mais uma crise.

Acontecimentos históricos recentes

Em 2002, a União Europeia convidou a Ucrânia para integrar a OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte. A reação russa foi enérgica, quando, em 2008, Moscou ameaçou apontar mísseis nucleares em direção a Kiev, caso aceitasse hospedar o polêmico escudo de defesa antimísseis dos EUA.

Em 2013, a União Europeia ofereceu 610 milhões de euros ao então presidente Víktor Yanukovich (pró-Rússia), se consentisse com os termos de um empréstimo do Fundo Monetário Internacional e assinasse um acordo de livre comércio com a UE. Em resposta, a Rússia sinalizou a imposição de severas retaliações econômicas, além de uma oferta de 15 bilhões de dólares, e de um terço de desconto no fornecimento de gás, como recompensa.

No final das contas, Kiev optou por ficar ao lado da União Europeia, o que conduziu o país a uma guerra civil. Os russos, então, anexaram a Crimeia, onde mantêm sua frota no Mar Negro, e um movimento separatista intensificou seus protestos na região de Donbass, no leste, de maioria étnica russa. É exatamente para esta região que Moscou enviou, nos últimos dias, um enorme efetivo de tropas e equipamentos bélicos.

Esse é o contexto histórico. Porém, o fundo econômico é ainda mais elucidativo.

O contexto econômico

Podemos dizer que hoje os dois grandes interesses geopolíticos e econômicos americanos são o 5G chinês e o gasoduto Nord Stream 2, que está sendo construído pelos russos, em parceria com os alemães. Como Kiev passou a ficar mais ao lado do Ocidente, Moscou decidiu fabricar uma outra linha de transmissão de gás que não passasse pelo território ucraniano. Assim, criou um novo trajeto, que sai do Mar Báltico e contorna a Ucrânia, chegando à Alemanha.

Os americanos estão fazendo de tudo para que o Nord Stream 2 não seja concluído, uma vez que colocaria a Europa ainda mais dependente do gás russo, que é fundamental para aquecer as residências europeias no inverno. A Ucrânia já não necessita tanto do gás vindo de Moscou, mas da quantia que recebe com a passagem do antigo gasoduto por seu território. Estima-se que a conclusão do Nord Stream 2 faria a Ucrânia perder cerca de 3 bilhões de euros por ano em dividendos.

É por esta razão que as próximas eleições alemãs são tão importantes, pois definirão o futuro do projeto. A Alemanha faz parte da OTAN, mas deseja continuar negociando com russos e chineses. A grande questão é: como fazer isso sem desagradar os Estados Unidos? Recentemente, com receio das sanções americanas, 20 empresas já deixaram o consórcio que está construindo o gasoduto. Uma vez que a conclusão da obra está prevista para daqui a 6 semanas, pode ser que a tensão entre Moscou e Washington cresça nos próximos dias. Tudo depende da possível reunião entre Putin e Biden.

No final de março, o Departamento de Estado americano deu um ultimato para que empresas europeias desistam do gasoduto russo. A Alemanha precisa decidir se abre mão do projeto e paga multas bilionárias, ou se o conclui e arca com pesadas sanções econômicas de Washington. Seriam eles capazes de chegar a um acordo? Só o tempo dirá. Não muito tempo, uma vez que o Nord Stream 2 deve ficar pronto, segundo estimativas, em menos de 50 dias. Até lá, só nos resta esperar que os impérios não contra-ataquem e que uma nova crise não se inicie. Ninguém aguenta mais.

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