Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
  • Ícone FelizÍcone InspiradoÍcone SurpresoÍcone IndiferenteÍcone TristeÍcone Indignado
A cidade sem Carnaval
| Foto: Imagem: Daniel Nardes/ Gazeta do Povo

Graças à pandemia, a Escola de Samba Acadêmicos do Contra enfim vai dormir na santa paz de uma cidade sem Carnaval. Desfiles e folguedos estão cancelados, o prefeito Rafael Greca foi poupado de ser comparado ao Rei Momo e os mascarados da quarentena vão se encontrar na esquina das Marechais cantando “Máscara Negra”, a clássica marchinha de Zé Keti:

Foi bom te ver outra vez
Tá fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele Pierrô
Que te abraçou e te beijou, meu amor

A Escola de Samba Acadêmicos do Contra é uma das mais antigas agremiações carnavalescas de Curitiba. Foi fundada no início do século passado, quando um clube social convocou os curitibanos para os bailes no Tríduo Momesco com o destacado aviso: “Fica proibida a entrada no salão do instrumento musical chamado cuíca”.

Muitos anos depois, os Acadêmicos do Contra, com suas tradicionais contradições, marcharam em protesto no primeiro desfile da finada “Não Agite”, nossa primeira escola de samba nos moldes do Carnaval carioca. Em se tratando de folia, a “Não Agite” era uma contradição que só poderia ter nascido numa cidade com tantos contrários à fuzarca. À parte o paradoxo, uma escola de samba num clube de futebol fundado por alemães já é um despautério. Mas, com esse nome, quem não a conheceu como bloco carnavalesco ficaria ainda mais abismado.

Perguntem aos remanescentes da família Mazza – principalmente ao Mazzinha – o tamanho da empolgação da “Não Agite” descendo o Alto da Glória. Tinha uma parada obrigatória nas confeitarias Cometa e Pérola; continuava na Rua XV de Novembro e vinha outro breque no bar Trocadero. Com os foliões devidamente abastecidos, a folia caminhava em direção à Avenida Luiz Xavier (a Boca Maldita, sim senhor), “emborrachados”, porque “garrafa cheia não queriam ver sobrar”.

Naqueles idos da Carmem Miranda, carnaval de rua era privilégio de branco. Menos na altura do nº 1.100 da Silva Jardim, onde rolava samba e um pouco de jazz. Era puxado pelo motorista de táxi Nicanor, o Bola Sete, com o mestre Claudionor e mais quatro bambas que formavam não um sexteto, mas um “seispreto”. Só mesmo na Curitiba dos contrários, um “seispreto” de jazz.

Dos mais ilustres e ilustrados fundadores da Escola de Samba Acadêmicos do Contra, o crítico literário Wilson Martins foi o primeiro a provar por a+b que Curitiba é um “Brasil diferente”. Ao nosso modo, uma cidade avessa às mínimas efusões de júbilo durante o Carnaval. Na capital dos contrários, o cronista Ernani Buchmann também se insurgiu contra o Rei Momo galego de cabelo pixaim – se é que ele existe –, ao reivindicar que se extermine o mirrado Carnaval de Curitiba por falta de quórum. Presidente da Academia Paranaense de Letras e vitorioso ex-presidente do Paraná Clube, Ernani propõe algumas mudanças no “funeral do samba”, como dizem os discrepantes: “Em primeiro lugar, que seja o Carnaval abolido por decreto e a chave da cidade entregue ao maestro Norton Morozowski, de formação clássica. Por decreto do prefeito, as escolas de samba, blocos e grêmios carnavalescos sofreriam modificações em seus estatutos, passando a se denominar “conjuntos carnavalescos de música erudita”. Assim, teríamos a Camerata Mocidade Azul, os Enamoradas da Valsa, a Orquestra Sinfônica Embaixadores da Alegria e a Filarmônica da Sapolândia.

Enquanto isso, cheia de sisos, nas esquinas das Marechais, a Escola de Samba Acadêmicos do Contra se agrega aos profissionais da saúde e grupos de risco para saudar os infectados.

Na mesma máscara negra
Que guarda o teu rosto
Eu quero matar a saudade
Vou beijar-te agora
Não nos leve a mal
Fomos vacinados neste carnaval

*Na selva urbana, DANTE MENDONÇA é um caçador de histórias. Um contador de histórias, como prefere ser conhecido.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]