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Jaimer Lerner, Dante Mendonça e Ziraldo
| Foto: Daniel Nardes/ Gazeta do Povo

Em fevereiro de 1962, quando o bolsista Jaime Lerner botou o pé em Paris pela primeira vez, levas de manifestantes entupiam o Quartier Latin, protestando em cadência contra a falta de liberdade na Argélia, a colônia francesa no norte da África.

— OAS, assassin!

A OAS era a “Organisation Armée Secrète”, organização paramilitar clandestina francesa, criada em Madrid, em 1960, com objetivo de obstruir com sangue a independência da Argélia.

— OAS, assassin!

No sufoco de todo aquele povo nas ruas, não foi fácil para Jaime Lerner andar pelas largas calçadas do Boulevard SaintGermain com a mala na mão, desviar da multidão aglomerada na esquina do Boulevard Saint Michel, para alcançar o número 19 da Rue Cujas, o endereço do Hotel Saint Michel que foi por muito tempo morada de Jorge Amado.

A 500 metros dos Jardins de Luxemburgo e a 250 metros do Pantheon, naquele tempo o Hotel Saint Michel era um tanto modesto. Hoje é um quatro estrelas que não caberia na bolsa de estudos do jovem engenheiro que muitas vezes chegou a passar fome no seu estágio em urbanismo no Ministério da Construção: “No início do mês, assim que recebia a bolsa de 150 dólares por mês, minha fome de Paris era tanta que eu saía gastando. Eram 15 dias de fartura para o espírito, outros 15 de escassez para o estômago” – relembra Jaime Lerner.

Desde sempre Jaime Lerner guardou Paris como parada obrigatória em suas andanças pelo mundo, uma segunda casa. Assim como a Casa do Brasil na França foi sua segunda casa, depois do Hotel Saint Michel da Rua Cujas.

Num tempo em que as rodinhas das malas ainda não eram um dos ruídos intermitentes nas duas margens do Sena, o arquiteto desceu o Boulevard Saint Michel em direção à esquina do Boulevard Saint Germain com a mala um pouco mais pesada e levando no lado esquerdo do peito outro endereço: Maison du Brasil - Cité Internationale Universitaire de Paris - 7L boulevard Jourdan.

Tombada pelo Patrimônio Histórico da França, a Casa do Brasil foi construída a partir de um projeto a quatro mãos dos arquitetos Lúcio Costa e Le Corbusier. No Carnaval de 1962, Jaime Lerner se apresentou na Casa do Brasil na França. Ao entrar no saguão de entrada, parou em frente a um rapaz no alto de uma escada que cantava “Chega de Saudade”, de Tom e Vinícius — nome do primeiro disco de João Gilberto, que naquele ano marcaria o início da Bossa Nova.

— Muito prazer, meu nome é Zélio Alves Pinto.

— O meu é Jaime Lerner. Posso ajudar?

E foi assim, com a decoração para o baile de Carnaval da Casa do Brasil na França, que começou também uma longa amizade com os irmãos Zélio e Ziraldo Alves Pinto, transmitida de cartunistas para cartunistas, entre eles Claudius Ceccon, Paulo e Chico Caruso e, principalmente, Millôr Fernandes. O que muito pesou para a criação da Gibiteca de Curitiba, em 1982.

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Há três anos morando em Curitiba – pois como um catarinauta, havia subido a Serra pela Auto Viação Catarinense –, certo dia atendo o telefone na redação do jornal o Estado do Paraná, onde eu iniciava um trabalho de 40 anos como cartunista:

- Jaime Lerner gostaria de falar com você aqui no gabinete do prefeito.

No dia seguinte não só conheci Jaime Lerner pessoalmente, como também recebi uma passagem aérea da Varig para conhecer o cartunista Ziraldo, na lendária redação do Pasquim. Convidado por Jaime Lerner para desenvolver uma versão moderna do curitibaníssimo Bala Zequinha, Ziraldo me passou todos os traços e o espírito do personagem que, como gostaria Jaime Lerner, seria publicado diariamente nas páginas do jornal Diário do Paraná, a princípio, para interagir com a reforma urbana de Curitiba.

Ao voltar para casa com as orientações de Ziraldo e o novo “Balazequinha” embaixo do braço, tive o privilégio de pertencer à privilegiada geração que acompanhou bem de perto a revolução urbana de Curitiba.

Como diria um dos personagens do filme Casablanca, foi o início de uma bela amizade.

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