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João Burda
| Foto: Daniel Nardes/ Gazeta do Povo

Curitiba, com seus paradoxos, já foi conhecida como “Cidade Sorriso”, graças ao poeta, jornalista e caricaturista sergipano Hermes Fontes (1888-1930), autor de uma crônica com esse título publicada em 25 de fevereiro de 1929, na Gazeta do Povo. O simpático sergipano, que no Rio de Janeiro atuou nos mais importantes jornais e revistas, deve ter passado uma festiva temporada em Curitiba, para legar à cidade epíteto tão animador.

Muitos ainda gostariam de saber com quem Hermes Fontes tanto festejou naquela cidade dormitório que se recolhia com as galinhas, pois a capital mais fria do Brasil sempre foi estigmatizada como tacanha e taciturna. Não afeita a gratuitas demonstrações públicas de júbilo.

Porque já estamos sendo negligentemente vacinados, com alguns poucos já liberados a sair por aí a chutar latas e festejar a vida, nesses dias de festas pelos 328 anos de Curitiba vale a pena levantar um brinde para um dos maiores festeiros da “Cidade Sorriso”: João Burda.

Também conhecido como Capitão, por ter participado da Revolução Federalista (pelo menos assim se gabava), com herança de família oriunda da Lapa, João Burda comprou uma extensa área de terras no Bigorrilho, em 1890. Fabricava tijolos em seus domínios, que iam da Rua Euclides da Cunha até a Rua Jerônimo Durski, fazendo divisa com a Rua Padre Anchieta.

Não muito afeito a botar as mãos e os pés no barro, Burda não se atipou com o ramo e abriu um armazém de secos e molhados, na Alameda Princesa Izabel esquina com a Rua Bruno Filgueira. Morava não longe do negócio, ali na Júlia da Costa, perto da Rua Marechal João Bernardino Borman.

Pelo que se deduz da memória oral do Bigorrilho, o negócio do João Burda não era ficar atrás do balcão espantando as moscas. Tinha vocação para ficar na frente e, de preferência, sentado em cima de um engradado vazio de cerveja. E assim foi: largava o seu próprio armazém nas mãos de um empregado para bater ponto no armazém do vizinho Gregório. Chegava de manhã, ajeitava o engradado vazio diante da porta e começava a tomar cerveja da marca Providência, escura. Voltava para casa lá pelas nove da noite, quando já tinha oferecido cerveja para meio mundo. Não satisfeito com a folia que patrocinava no armazém do seu Gregório, o Capitão construiu um barracão para fazer bailes nos fins de semana, só para os amigos e parentes se divertirem. Não cobrava ingresso e ainda pagava o sanfoneiro.

Em 1908, o Bigorrilho era uma festa, e João Burda, o festeiro que fazia a folia chegar ao centro daquela modorrenta Curitiba, de pouco riso e muito siso. Quando o capitão Burda aparecia na Praça Tiradentes de charrete, era um espanto. Chegava no armazém do Candinho e pedia um balde, que enchia de cerveja para matar a sede dos cavalos. Mais espantados ainda ficavam os almofadinhas da Matriz quando Burda enrolava uma nota de 500 mil réis e com ela acendia o charuto.

Nos dias festivos do calendário, o Capitão da festa costumava contratar uma bandinha de circo para animar a cidade. A charrete na frente, a bandinha atrás e a piazada abrindo alas para a alegria subir e descer as ladeiras do Bigorrilho.

Em outras ocasiões, contam os pesquisadores Maria Luiza Gonçalves Baracho e Marcelo Saldanha Sutil (“Bigorrilho: a Construção de um Espaço Urbano”), “montado num cavalo pampa bonito, que pulava obstáculo como no hipismo, ele ia à Praça Osório e lá saltava sobre os bancos. O cavalo pampa, amarrado numa árvore enquanto o Capitão percorria o centro, era recolhido pela polícia. Já sabiam que era dele e o levavam embora. Ele ia à delegacia, pagava a multa, pulava mais um pouquinho e ia a cavalo para casa. Não sem antes provocar os milicianos. Bonachão e forte feito um touro, com o sorriso rasgado João Burda erguia uma cadeira até a altura do ombro, com dois dedos, e exclamava bem feliz: “Eu sou o Joãozinho bonzinho da Lapa”.

Com o passar do tempo, e de geração em geração, a cidade vai perdendo e transformando suas referências de costumes, seus signos, linguagens, paisagens, moradias e, o mais lamentável, os mais pitorescos referenciais humanos. E que assim seja, com ou sem saudosismos. No entanto, há que sempre se perguntar: em sua risonha e festiva passagem por Curitiba, Hermes Fontes teria se inspirado em João Burda para escrever sua crônica sobre essa “Cidade Sorriso”?

  • Na selva urbana, Dante Mendonça é um caçador de histórias. Um contador de histórias, como prefere ser conhecido.
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