Merda, presidente!
| Foto: Felipe Lima

Nos anos 1980, a manchete de primeira página do extinto jornal O Estado do Paraná saiu com todas as letras, e garrafais: “Curitiba joga merda na água que bebe!” Mussa José Assis, então editor do elegante jornal do ex-governador Paulo Pimentel, não escreveu merda, imprimiu a pura verdade. E, se repetisse a manchete agora, não seria nenhuma deselegância. Seria mais uma bosta a ser compartilhada nas redes sociais.

Na boca do povo, os dejetos sempre foram tantos que inspiraram o prefeito Rafael Greca a deixar uma frase para a história. Ao inspecionar os estragos causados pelos rios e riachos entupidos de pneus velhos, sofás e poltronas, geladeiras enferrujadas e armários, Greca subiu num barranco e, apontando o dedo para o povo em sua volta, ensinou: “Rio não caga!”

Um dos traços mais notáveis de nossa cultura é que se fale tanta merda.

Nunca se falou tanta merda como nos dias de hoje. Principalmente por parte do presidente da República. No Palácio do Planalto, na Granja do Torto, no Itamaraty, no Congresso Nacional, no Supremo Tribunal Federal, nos pronunciamentos ao vivo na televisão, principalmente nas redes eletrônicas de esgoto, só se fala isso. Sobre o PT, habituado aos chorumes da Petrobrás, nunca se falou tanta merda; sobre a Operação Lava Jato e o ministro Sergio Moro, nunca se disse tanta merda. Na imprensa escrita, só não se lê tanta cacaca porque agora o papel jornal tem servido muito mais pra embrulhar titica de cachorro.

Para conhecimento do presidente Jair Bolsonaro, On bullshit (expressão em inglês usada para desqualificar alguma declaração de merda) é o título original do livro Sobre falar merda, escrito pelo filósofo da Universidade de Princeton Harry G. Frankfurt. Nos Estados Unidos, foi parar na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times, aquele jornal cujo antigo correspondente no Brasil também chegou a falar algumas merdas sobre a adega do Lula.

O livro não é um tratado sobre a merda orgânica. É sobre a merda oral, o que é de fato falar merda. E o que é falar merda? No primeiro parágrafo, o autor não deixa a menor dúvida: “Um dos traços mais notáveis de nossa cultura é que se fale tanta merda. Todos sabem disso. Cada um de nós contribui com sua parte. Mas tendemos a não perceber essa situação. A maioria das pessoas confia muito em sua capacidade de reconhecer quando se está falando merda e de evitar se envolver. Assim, o fenômeno nunca despertou preocupações especiais nem induziu uma investigação sistemática”.

Balela, falação, impostura, vigarice, conversa fiada, lorota, em suma, é tudo a mesma merda. Mas não confunda merda com mentira. O falador de merda, alerta o autor, quer apenas impressionar, passar uma impressão diferente sobre si mesmo. Ele não está necessariamente sendo falso ou mentiroso. O falador de merda não está nem aí para a verdade e os fatos. O mentiroso esconde fatos que conhece. Inventa deliberadamente sua história, mas respeita a verdade, mesmo fugindo dela. E aí é que está a grande merda: justamente por causa do desrespeito pela verdade é que o falador de merda é mais perigoso que aquele que mente.

Na música, Caetano Veloso tem uma composição com o título Merda, de 1986: “Merda, merda pra você / Desejo merda / Merda pra você também / Diga merda e tudo bem / Merda toda noite e sempre a merda”.

No teatro, “merda” é uma saudação de boa sorte. Na origem do bom augúrio, as pessoas chegavam aos teatros em carruagens. Quanto mais carruagens, mais merda os cavalos deixavam nas ruas e calçadas. Assim, muitas pessoas entravam no teatro com os sapatos sujos de merda; quanto mais merda deixada nos capachos, mais a casa estaria cheia.

Chico Buarque de Hollanda jogou bosta na Geni, não jogou merda. Só usou da palavra quando sugeriu ao presidente Lula criar o “Ministério do Vai Dar Merda”. Lula não seguiu o conselho. Mas, por suas origens sindicalistas, adquiriu o direito de desconsiderar a liturgia do cargo e botar a mão na merda nos seus mais diversos sentidos. O estilo “chulo e xucro” do líder parece ter sido também assimilado por Dilma Rousseff em reuniões palacianas, quando fez do palavrão uma exaltação ao seu cordão de puxa-sacos. Numa daquelas audiências, Dilma sapiens tratou o ministro da Justiça com a finesse de costume: “Eu não vou pagar pela merda dos outros!” – disparou. Acabou pagando.

O presidente Jair Bolsonaro, ao contrário do Lula, tem um humor com origem nas “piadas da caserna”, quando ouviu do general Figueiredo que “cheiro de cavalo é melhor do que o cheiro do povo”. Para fazer graça, num dia Bolsonaro nos diz que cocozinho de índio petrificado pode atrapalhar licenciamento ambiental. No outro, a propósito de meio ambiente, nos ensina que fazer cocô em dias alternados pode ser útil para a preservação ambiental.

Para um histriônico tão sem graça, só nos resta desejar melhor sorte: “Merda, presidente!”

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