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Telhado Cultural
| Foto: Daniel Nardes/ Gazeta do Povo

Guru é o guia, o líder carismático que à sua volta congrega seguidores, quase sempre fanáticos. Guruato é o que em Curitiba denominamos o grupo que gira em volta do líder, assim como na ilustração encontrada nos versos de Adoniran Barbosa:

As mariposa quando chega o frio / Fica dando vorta em vorta / da lâmpida pra se esquentar / Elas roda, roda, roda / E dispois se senta em cima do prato / da lâmpida pra descansar.

O guruato tem a cara da cultura curitibana. Dos guruatos nascidos na década de 1970 – entre os quais os de Paulo Leminski (música e poesia), Jamil Snege (literatura), Oraci Gemba (teatro), Luiz Alfredo Malucelli (gastronomia) e Aníbal Curi (política) –, o guruato de Jaime Lerner foi o mais atuante. Tanto que realizou uma reforma urbana em Curitiba com repercussão internacional e, com régua e compasso, mudou a cara da cultura curitibana.

Excetuando-se o guruato de Aníbal Curi, que tinha sede própria na Assembleia Legislativa, Leminski transitava pelos bares alhures; Snege era rodeado pelos discípulos da Boca Maldita; Malucelli cozinhava para as agências de publicidade; Oraci Gemba era incensado em noites de estreias; e o guruato de Jaime Lerner batia ponto no Passeio Público, aos sábados.

Vitrine para celebridades e palco alternativo para os artistas que se apresentavam no Centro Cultural Teatro Guaíra (Guairinha ou Guairão), só faltava uma passarela coberta para levar as estrelas dos camarins do teatro ao Passeio Público. O projeto era factível – para usar uma palavra muito apreciada pela burocracia da época –, e quase saiu do papel e da imaginação do arquiteto Rafael Dely.

Naquela cidade que dormia com o boa noite da apresentadora Laís Mann, ao fim do “Show de Jornal”, eram poucas as opções culturais, especialmente ao cair da bruma. Ir ao teatro era, então, o melhor programa para sair de casa, com a seguinte fórmula: para esticar a noite, pizza e chopinho na boa e velha Baviera; um fondue no restaurante Matterhorn; uma massa da família Calicetti no restaurante Bologna; ou o “mineiro com botas” do insopitável Bar Palácio. Isso para um programa familiar mais abonado. Para os mais descontraídos, digamos, o chope com sanduíche de pernil com queijo do Bar Triângulo na Rua XV era bom demais.

No tempo em que muitos hotéis não possuíam restaurantes, décadas de 1950, 60 e 70, não raramente trupes de artistas, músicos de orquestra, companhias de dança, grupos de teatro e até delegações esportivas faziam as refeições no “Lá no Pasquale” do Passeio Público. A seleção brasileira de futebol foi uma delas, depois de um jogo amistoso em 1968, com Pelé, Gerson, Tostão, Rivelino e todo o elenco do tricampeonato mundial de dois anos depois.

O nosso Central Park era um “Hall da Fama” e o entorno do Guaíra era como se fosse a nossa Broadway. Portanto, para facilitar o trajeto entre a Broadway e o Central Park, no fim dos anos 1970 o arquiteto Rafael Dely sugeriu ao então prefeito Saul Raiz a construção de uma cobertura de mais ou menos 500 metros ligando o Teatro Guaíra ao Passeio Público. Seria um “Telhado Cultural”, segundo dizia, nas reuniões do Ippuc, Saul Raiz, que como prefeito acabara de entregar o trecho da Avenida Mariano Torres, ligando a praça do Círculo Militar à avenida João Gualberto e, por extensão, à Cândido de Abreu e ao Centro Cívico.

Com “petit-pavé” no traçado do tapete vermelho, a passarela coberta sairia dos fundos do Teatro Guaíra, na Rua Tibagi, passaria defronte ao Inter Americano, cruzaria o Jardim Leonor Twardowski (Café do Estudante) e chegaria ao restaurante do Passeio Público entrando pela esquina da Rua Luiz Leão, através da alameda paralela à Rua Presidente Carlos Cavalcanti.

Rafael Dely chegou a desenhar o “Telhado Cultural” quando esteve no Ippuc. Os originais sumiram e a ideia foi engavetada, provavelmente por conta de custos não previstos entre as alegorias urbanas criadas para rejuvenescer a paisagem daquela cidade que olhava os artistas com a cara de poucos amigos.

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