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Ilustração - Avião Vacina Covid
| Foto: Daniel Nardes

Se perguntar aos sobreviventes dos frenéticos anos 1980 onde eles estavam no verão de 1987, a resposta será quase a mesma, com versões mais ou menos parecidas sobre a história de um navio pesqueiro proveniente da Tailândia que jogou ao mar 22 toneladas de maconha no litoral brasileiro. Seria história de pescador, não fosse o produto enlatado na medida para inspirar livros, músicas, filmes e algumas lendas, levando o episódio a ficar na história como o Verão da Lata.

Ao atravessar o Atlântico com destino aos EUA, o navio Solana Star passou por algumas tormentas e rumou para a costa do Rio de Janeiro para realizar reparos. Tormentas nos mares do sul são previsíveis. O que os piratas de alto bordo não esperavam é que a agência norte-americana de combate às drogas (DEA) prendesse o líder dos traficantes internacionais e que ele delatasse a rota e os planos da quadrilha. Após o DEA avisar a Polícia Federal, um contratorpedeiro da Marinha brasileira saiu em busca do navio maconheiro. Não acharam nem o cheiro da carga. Ao avistarem o contratorpedeiro, os tripulantes do Solana Star despejaram no mar 15 mil latas de maconha. 22 toneladas de Cannabis sativa da melhor qualidade, embaladas a vácuo, num enlatado semelhante ao leite em pó.

No verão de 1987/8, a história foi para o livro de ocorrências policiais e ganhou o imaginário popular. A notícia do carregamento jogado ao mar deixou o povo dos mares do sul em sentinela. A rapaziada ficou alucinada. Escolas de mergulho nunca receberam tantos alunos, nunca se vendeu tantos binóculos e a Polícia Federal, a ver navios de luneta, não tinha como prender ninguém, pois as provas do crime viravam fumaça. Das 15 mil latas jogadas ao mar, apenas duas mil foram apreendidas. O saldo foi o Verão da Lata.

Baseados no que aconteceu no surrealista verão de 1987, podemos imaginar o que pode acontecer no verão de 2021, quando os aviões cargueiros começarem a despejar no Brasil as primeiras vacinas da Covid-19. Muito provavelmente teremos governantes de esquerda e direita em delírio, insuflando nas redes sociais uma guerra civil, com seus partidários portando bandeiras de origem da imunização. Numa alucinação coletiva, sem distinção de idade e do bronzeado da pele, de um lado veremos autoridades desorientadas e sem rumo, pois a bússola foi inventada pelos chineses no Século XI. Por outro lado, cientistas e infectologistas serão tratados como terroristas instrumentalizados para tomar o poder através da mutação genética do eleitorado. Como se sabe, no Brasil vale mais o carimbo do burocrata do que a assinatura de um cientista. Se em 1928 já existissem as redes sociais, o que seria da penicilina? Coitado do bacteriologista Alexander Fleming.

Sem máscara, a falta de respeito com o próximo vai estar na cara. As convenções sociais e humanitárias serão desconsideradas no Verão da Vacina. Assim como a Terra é plana e até a Lei da Gravidade corre o risco de ser revogada pelo Supremo Tribunal Federal, as vacinas no index do Ministério da Saúde (a Pfizer/ BioNTech requer armazenamento a -75 °C, a chinesa CoronaVac, atestado ideológico) serão consideradas subversivas, objetos de apreensão em nome da segurança nacional. Se a ciência atestar que a vacina é uma arma de grosso calibre contra o vírus, será liberado qualquer armamento fornecido por russos e chineses.

No Verão da Lata, o cantor Tim Maia chegou a contratar mergulhadores profissionais para vasculhar a Baía da Guanabara, Angra dos Reis e adjacências. No Verão da Vacina, Zeca Pagodinho pretende tomar quatro vacinas: no braço esquerdo, no braço direito e nas duas nádegas. E se faltarem seringas e vacinas no Brasil, não hão de faltar no Paraguai.

Na selva urbana, DANTE MENDONÇA é um caçador de histórias. Um contador de histórias, como prefere ser conhecido.

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