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A gratidão
| Foto: Divulgação

Quando digitamos no Google a palavra “gratidão”, ela aparece 26.900 milhões de vezes. Já quando digitamos “autoajuda”, 152 milhões. Essa simples análise retrata muito da atual sociedade. Autocentrada e individualista.

Em “Arte de Insultar”, Artur Shopenhauer analisa o princípio da natureza humana em conservar a sua existência utilizando qualquer ferramenta a seu alcance. O foco é na maior quantidade possível de bem-estar. Tudo que se opuser a seu bem-estar gerará ira e ódio.

Por outro lado, São Tomás de Aquino descreve a gratidão em três níveis. O do reconhecimento pelo benefício recebido; o do agradecimento; e o da retribuição. Nesse sentido, nosso rico idioma deixa inerente a necessidade do mais alto nível de gratidão. O OBRIGADO significa que reconhecemos o benefício recebido e nos vemos obrigados a retribuí-lo. Você já refletiu hoje por quem tem gratidão além de seu pequeno núcleo familiar?

Eu, hoje, me sinto OBRIGADO, no melhor sentido da palavra, a expressar por aqui minha gratidão por Vanni Pasca. Além de crítico, curador e um dos maiores escritores sobre o tema do design, tratava-se de um grande amigo que muito me inspirou e ensinou sobre design. Na verdade, como todo bom professor, me ensinou valores que vão muito além do tema.

Na vida de um criativo, as incertezas, inseguranças, são uma constante. E, para esses momentos, Vanni Pasca sempre estava por lá, com sua rara sabedoria e frases embasadas em passagens históricas do design ou, ainda, em pensamentos de grandes filósofos.

Um de seus preferidos era Oscar Wilde que dizia: “viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe”. Vanni viveu e muito! Deixa um legado ímpar, eternizado em seus inúmeros livros. Seja no “Scenari del Giovane Design”, escrito em meados de 2000, no qual gentilmente inseriu a foto de uma poltrona feita com câmeras de ar por esse então jovem designer brasileiro que vos escreve. Acho que Vanni nunca teve a dimensão da importância daquele momento em minha trajetória, por mais que tentasse lhe dizer. Ou, ainda, em livros com narrativas diversas, na qual registrava a vivência de seus grandes e inúmeros amigos que fizeram a história do design mundial. Aos felizardos que, como eu, tinham o prazer de chamá-lo de amigo, em geral eram narradas em torno de uma mesa de bar, em um “bello aperitivo” italiano.

Suas histórias estão nos inúmeros livros escritos por Vanni. Registros de histórias que transformaram o design italiano no que é hoje. Dentre tantos, deixou um último legado. Um livro único chamado “Manual da História do Design”, que recomendo fortemente. Afinal, como o mestre Vanni ensinava, não há futuro sem conhecer o passado.

Me sinto muito à vontade para escrever sobre Vanni. Afinal, ele foi um dos maiores incentivadores de minha trajetória no design. Uma convivência intensa e profunda, na qual aprendi um dízimo da sabedoria deste mestre do design. A principal delas foi conhecer a teoria e a história para aplicar na prática. Foi assim que me ensinou os percursos para fundar minha indústria.

Era apaixonado pelo Brasil. Jamais recusava um convite para estar por aqui. E, graças a essa paixão, fizemos muitas atividades conjuntas. Tive o privilégio de trazê-lo ao Brasil para palestrar por duas vezes, de tê-lo como membro de concursos destinado a jovens, que ele me encorajou a organizar: o Brasilidade Industrial e o Brit Design Award.

Vanni Pasca deixa um grande legado e estará presente para sempre nos importantes registros sobre o tema design. Livros e livros à disposição para instituições, alunos ou simplesmente admiradores do bom design. E eu, caro amigo, prometo honrar a cada dia o trabalho em prol do bom design. Como me ensinaste. OBRIGADO, querido mestre.

*Vanni Pasca faleceu em 5 de outubro.

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