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Foto 1: Caverna de Lascaux, França 17.000 a.C.
Foto 1: Caverna de Lascaux, França 17.000 a.C.| Foto:

Outro dia refletia sobre o impacto do mundo digital em detrimento ao mundo analógico. Aqueles nascidos até os anos 1980 bem se recordam de como era a vida “desconectada”, sem internet ou aparelhos celulares.

Tínhamos muitas similaridades com costumes de pais e avós: brincadeiras infantis, ferramentas de trabalho muito semelhantes às utilizadas por outras gerações. Um lápis, uma caneta, a relação com o papel, tudo gerava conexões entre passado e futuro. Apesar da evolução da informática, as anotações em uma sala de aula eram ainda escritas.

Um dos mais importantes pensadores do século XX, o psicanalista Carl Jung enfatizava muito suas análises a partir do inconsciente coletivo e os arquétipos. Para ele, como inconsciente coletivo entende-se a inteligência e evolução comum de uma sociedade, uma presença tal qual a herança genética. Ele não se desenvolve individualmente, é herdado e representa um acúmulo de “expertises” como memória ancestral da evolução.

Foto 2: Caverna de Altamira, Espanha 20.000 a.C.
Foto 2: Caverna de Altamira, Espanha 20.000 a.C.

Complicado? Nem tanto. Basta analisarmos pinturas rupestres, feitas há milhares de anos, em diferentes partes do planeta, com representatividade similar. O que dizer do desenho das mãos gravadas em diversos logos históricos, como a Caverna de Lascaux (foto 1, França 17.000 a.C.), a Caverna de Altamira (foto 2, Espanha 20.000 a.C.) e a Cueva de los Manos (foto 3, Patagônia, 30.000 a.C.)?

Foto 3: Cueva de los Manos, Patagônia, 30.000 a.C.
Foto 3: Cueva de los Manos, Patagônia, 30.000 a.C. | Reprodução

Se naquele período não havia conexão entre essas diferentes civilizações - fosse pelo espaço-tempo, fosse pela locomoção -, como poderiam tais culturas paleolíticas expressarem-se exatamente da mesma forma?

E quantos de nós não tivemos o instinto de tal registro em nossa infância? De acordo com Jung, isso explica-se porque os arquétipos presentes no inconsciente são universais e idênticos em todos os indivíduos. Na inconsciência somos todos conectados. Mas o objetivo do aprendizado, do despertar de tal inconsciente está no objetivo final, ou no decorrer da experiência?

Será que na leitura de um livro, basta a leitura do enredo? Será que a experiência basta por meio de um Kindle, ou o ato de folhear as páginas, como ocorria há milhares de anos desde a biblioteca de Alexandria, nos desperta algo mais? Será que no ato de desenhar basta o resultado final, a imagem? Ou o processo e a experiência do contato da tinta ou do grafite sobre a superfície da parede ou do papel desencadeia algo a mais em nosso inconsciente? Não tenho respostas definitivas, somente perguntas.

Será que uma vez que rompermos tais experiências sensoriais táteis, trocando-as pela experiência digital, deixaremos nossa ancestralidade adormecida?

No decorrer da evolução jamais tivemos algo tão disruptivo. Talvez seja porque temos deixado de lado esta memória afetiva e ancestral que a artesanalidade esteja sendo muito procurada e valorizada. Talvez seja nosso inconsciente gritando para nos desconectarmos e darmos espaço a reconexão ancestral.

Chegando ao mote principal desta coluna, que é filosofar sobre o design, acredito que o tema seja de vital importância para a comunidade criativa. Escolas e instituições, designers da nova e das antigas gerações devem refletir sobre a intersecção do processo criativo entre o analógico e o digital.

Os tradicionais “sketches book” e a experiência “in loco” com processos produtivos e manuais são de vital importância. Nem tanto pelo resultado final, mas para o resgate com nosso background milenar adormecido em nosso DNA.

Obviamente acredito nas maravilhas tecnológicas que estão hoje à nossa disposição. Impressoras 3D, maquetes eletrônicas e renders de altíssima qualidade, mesa digitalizadora e tantas outras ferramentas fazem parte do meu “ser” design cotidiano. Porém, acredito que para criar (e inovar) não podemos desconsiderar os valores de nosso inconsciente coletivo, de nossa vivência milenar. Valores quase quânticos, à disposição para uma criação intuitiva…

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