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Pedro Franco fala sobre a profissão do designer.
| Foto: Bigstock

Certa vez me perguntaram sobre qual a maior qualidade que um designer deve ter. Respondi sem pestanejar: DISCIPLINA. Em tempos de autoritarismo mundo afora, já me antecipo de que não se trata da DISCIPLINA militar, da obediência, da reprodução. Falo da disciplina sobre o olhar curioso e crítico.

Ser designer é uma escravidão do eterno olhar curioso, e para ser designer é necessário um espírito crítico. Uma boa criação não surge “do nada”, mas sim da observação crítica de seu entorno. Para tal ação não basta estar em lugares incríveis, com uma boa bibliografia na cabeceira, tampouco ouvindo uma boa música. É um bom começo, mas não basta!

No que tange à criação, não basta o ócio. Conforme o genial pensador sobre criatividade Domenico De Masi, o ócio somente é criativo se não for passivo. Uma síntese entre o estudo, o trabalho e a diversão é a tríade para o sucesso criativo, de acordo com De Masi.

Um bom designer, assim como um bom filósofo, deve se focar muito mais em estar sempre fazendo as perguntas certas em detrimento de ter as respostas certas. O ato criativo por si só é uma eterna “troca”. Seja o percurso escolhido, o trabalho com grandes indústrias, o trabalho por uma coleção individual ou ainda pela criação sob medida para pessoas; o ponto mais importante é a troca. Deixar um pouquinho de sua alma, em tangência com a alma do outro.

No caso de uma indústria, por vezes observo a imposição de um caminho estético; do que discordo veementemente. É necessário o entendimento sobre o DNA daquela empresa, das pessoas que estão por trás de cada uma delas, suas qualidades e defeitos para, então, se iniciar o processo criativo. Idem ao projeto personalizado para uma pessoa, família. Quais suas necessidades? Qual seu histórico? Suas paixões? E assim por diante.

Já no processo de criação de uma coleção conceito particular, o mesmo segue. Qual a linearidade do meu pensamento? Qual a linha guia de valores que transcorre a minha trajetória?

Procuro seguir a cartilha acima, e dessa forma me orgulho de cada criação que desenvolvi no decorrer dos últimos 20 anos. Sempre com meu DNA (e meu momento) expressos, porém, obviamente com as variações decorrentes das paixões e necessidades de cada cliente.

Observo hoje projetos de arquitetura, design de interiores ou de produtos sendo replicados num grande processo de COPY and PASTE. Fábricas lançando produtos que nada expressam suas histórias, pessoas vivendo em casas exatamente iguais a de seus amigos (sem uma lembrança, um porta-retrato), e designers que variam suas criações em função da “cor do verão”, sem qualquer linearidade criativa.

Dizia o filósofo Nietzsche que não há existência autêntica sem o resgate do “eu”, e que na multidão a subjetividade é certa. Já o filósofo dinamarquês Kierkegaard filosofava sobre a questão da ausência de espírito caracterizada pela renúncia à singularidade ocasionada sobretudo pelo homem refém do falatório e da insegurança.

Em resumo, o ser um bom designer passa pelo caminho da DISCIPLINA. A troca constante com o entorno e com as pessoas são os ingredientes para uma produção com alma e autoral.

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