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Paulo Mendes da Rocha, o imortal
| Foto: Letícia Akemi/ Arquivo/ Gazeta do Povo

Um silêncio se impõe… as palavras desta coluna de hoje são tristes, no entanto, repletas de gratidão… ele se foi. Paulo Mendes da Rocha. Tal fato me entristeceu. Recordei-me de imediato o tanto que o Mestre da Arquitetura Paulistana esteve presente em toda a minha formação, sobretudo nos anos de graduação no curso de Arquitetura e Urbanismo.

Não presencialmente, não era necessário ver Paulo Mendes da Rocha para estar com Paulo Mendes da Rocha (como ele bem dizia). Paulo era, é, e sempre será, onipresente para qualquer pessoa relacionada ao mundo da arquitetura e design. Na verdade, tive o privilégio de degustar a inteligência do mestre (a sós) em duas ocasiões.

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A primeira quando, generoso que era, atendeu a um apelo de meu pai (amigos desde época de diretoria do IAB) para receber o então recém-estudante de Arquitetura. Permaneci ali deleitando de quase uma hora de diálogo com o grandioso arquiteto. O ano era 1996. Hoje, consciente da definição do tempo pelos gregos, vejo que foi um momento KAIRÓS, ou seja, um tempo de grande qualidad que permanece comigo desde então.

O segundo momento foi quando o programa Multishow me convidou, em 2003, a ir até a loja FORMA em São Paulo, para falar sobre minha recém-premiada Poltrona Supernova. Me surpreendi quando observei que, por lá, estava Paulo Mendes da Rocha, falando sobre o conceito de seu projeto para a FORMA.

Mesmo após concluir sua apresentação (ou aula, poderia-se dizer), novamente fui agraciado com a generosidade que só os grandes têm. O arquiteto veio minuciosamente analisar, dialogar e, por fim, elogiar minha peça. Mais um momento Kairós que carrego no coração para todo o sempre.

Por ali, me contou sobre projetos de design (que naquele momento não eram produzidos). Sobretudo, sobre uma chaise em chapa e perfil tubular que havia desenhado para uma empresa, em 1985.

Sim, Paulo dominava a boa forma. E era não apenas um exímio arquiteto, como um exímio designer. Na verdade, acredito que tudo que fizesse tangenciando a arte (pintura, escultura etc) seria perfeito dada sua formação humanista, senso estético, domínio construtivo.

Era também um grande poeta e filósofo, sempre questionando a forma como se desdobrava a cidade e os costumes da sociedade. Crítico a tudo que dividia, bloqueava, desintegrava a cidade. Condomínios e seus muros altos, lojas confinadas em shopping centers e pessoas se alimentando em comedouros (como descreveu sua ojeriza por áreas de alimentação de shoppings centers).

Na segunda-feira, dia 24 de maio de 2021, um dia pós sua passagem, resolvi visitar a Pinacoteca do Estado de SP. Um projeto de grande magnitude em São Paulo, que ele ressignificou, com maestria. Por ali, havia também uma linda exposição de “Os Gêmeos”, mas que naquele momento ficou em segundo plano. Um momento de procura e reencontro com meu ídolo.

Naquela homenagem silenciosa, ao luto a Paulo Mendes da Rocha, percebi que ele atingiu a definição de uma verdadeira obra de arte, tal qual definiu o filósofo Walter Benjamin.

Em seus projetos há uma aura, que insere suas obras-primas na “atemporalidade”. Através do ensino que é sua arquitetura. Onde a sutileza, a presença (e a sofisticada ausência) da forma, os detalhes… está tudo lá. É só observar. Se “saber ver a arquitetura” (como o livro que frequentemente recomendava aos jovens estudantes, de Bruno Zevi). E, assim sendo, permaneceremos aprendendo com o grande mestre. “Viva Paulo Mendes da Rocha”!

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