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4 principais dores dos empreendedores
4 principais dores dos empreendedores| Foto: Unsplash, Medienstürmer/Reprodução

O Brasil se encontra na sétima posição do ranking mundial de empreendedorismo, segundo o levantamento Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2020. Acredito, contudo, que a situação deva mudar na próxima edição do relatório, visto que somente em 2021 o número de empresas abertas no país chegou a 4 milhões. Somos uma nação de gente empreendedora por natureza. O próprio GEM 2020 apontou que empreender é o segundo maior sonho dos brasileiros, atrás somente de viajar – e quem não quer conhecer o mundo? Uma derrota justa, afinal.

Voltando ao nosso principal tópico, ao mesmo tempo em que não falta vontade ao empreendedorismo brasileiro, na prática, o que se constata é uma falta de conhecimento técnico que impacta no negócio. Não é nada complexo, está longe de ser um “bicho de sete cabeças”, mas que se não for observado pode comprometer a continuidade da empresa.

Em minha experiência na BBX, percebi que são quatro as principais dores dos empreendedores no país: 1) planejamento financeiro; 2) elaboração do business plan; 3) desconhecimento sobre governança e compliance; e 4) divergência de informações em relação à comunicação institucional.

Posso afirmar que 90% das mentoradas que chegam até nós o fazem porque estão com dificuldades financeiras. No processo, não é raro que outros problemas que estavam latentes sejam descobertos, mas o primeiro contato costuma ser em razão de uma questão financeira na maioria esmagadora dos casos. Muitos empreendedores têm a visão errônea de que o planejamento financeiro é sinônimo, simplesmente, da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE); acreditam que é assunto restrito à contabilidade, que é planilha de orçamento mental e balanço.

A percepção é de que muitos empresários que estão à frente de pequenas e médias organizações não têm a mesma visão daquelas que são consideradas “grandes” acerca da figura do Chief Financial Officer (CFO). Eles enxergam a “pessoa do financeiro” não como um diretor, mas como alguém cuja responsabilidade é pagar contas. Geralmente, o contador é considerado o braço financeiro do negócio, mas se esquecem de que esse profissional exerce uma função operacional, que coleta e apresenta dados. Ele não vai, ao menos rotineiramente, trabalhar com e debater estratégia, pois não é incomum que ele seja um trabalhador liberal, que auxilia diversas outras empresas.

Não há o hábito de tratar, desmembrar a fundo, esses dados apresentados pelo contador. Eles são apenas administrados. Se a operação está no “azul”, tudo certo. Se está no “vermelho”, vai procurar ajuda. Ocorre, porém, que há uma série de fatores externos de mercado que, invariavelmente, vão refletir na organização e que precisam de análise constante.

E isso tem ligação intrínseca com a elaboração do business plan, do plano de negócios. Quando o brasileiro abre uma empresa, o planejamento inicial é muito voltado a insumos e à própria contabilidade. A preocupação maior é com a concepção do empreendimento, não com a estratégia de sobrevivência. Também é usual confundir o business plan com a definição de missão, visão e valores. Só que o que é preciso ter em mãos são linhas de previsibilidade do negócio, de entendimento quanto ao momento de expansão da empresa, da necessidade de aumentar o time, dos custos atrelados a esse crescimento. O contrário também precisa estar contemplado: o que vai definir uma eventual redução? Se for necessário diminuir a equipe, quais cargos são cruciais? Quais serão os impactos de desligamentos?

Ainda, os empresários desconhecem processos de governança – ancorada nos princípios da transparência, equidade, prestação de contas (accountability) e responsabilidade corporativa – e compliance, que busca o bom cumprimento de normas legais e regulamentos internos, e descumprem boas práticas básicas, como oferecer comissões “por fora”, por exemplo.

A comunicação institucional também demonstra um certo despreparo por parte dos empreendedores. Ao fechar parcerias e conquistar clientes é comum que se “venda” uma ideia da empresa que, na prática, o empresário não terá como dar conta, justamente porque falta uma estratégia mais robusta.

Essas principais dores são reflexo de uma questão cultural do empreendedorismo brasileiro. Muitos empreendem por necessidade, por oportunidade, e não estão preparados para desenvolver um verdadeiro planejamento estratégico, que acaba sendo sempre relegado ao segundo plano. Só que empreender no Brasil exige tanta resiliência e burocracias que quando o empresário vê já se passaram dois, três, cinco anos desde a abertura do negócio.

O brasileiro tem o empreendedorismo correndo nas veias. O que é necessário é desenvolver um conhecimento que vai além de cursos e formações técnicas. É preciso orientação, aconselhamento. A mentoria empresarial pode ser uma boa saída, pois ela agrega diferentes visões e experiências, confere pluralidade ao negócio. Lembrando, é claro, que um único mentor só não faz verão, com o perdão do trocadilho. Trabalhar em conjunto com dois ou mais especialistas é crucial, pois assim haverá uma maior rede de apoio e de troca. Ressalte-se, além disso, que não se deve deixar para procurar auxílio apenas quando um gargalo aparecer. Deixar para solucionar problemas só quando eles se revelam pode ser tarde demais.

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