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Hasteamento da Bandeira Nacional no Palácio do Alvorada: patriotismo| Foto: Marcos Correa/PR

A dois anos de comemorar o Bicentenário da Independência do Brasil, teremos nesta segunda-feira uma comemoração de 7 de setembro sem desfiles militares e sem povo nas ruas. Uma portaria do Ministério da Defesa orientou as Forças Armadas a evitar festividades com aglomerações, por causa do risco que isso implica no contexto da pandemia do novo coronavírus. Apesar disso — ou justamente por causa do momento inédito que o país está vivendo —, essa é um oportunidade para os brasileiros refletirem sobre patriotismo.

Um 7 de setembro sem paradas militares nos leva a pensar no significado do patriotismo para além dos seus símbolos mais óbvios. O amor à pátria vai muito além da capacidade de se defender de ameaças externas. Vai muito além das cores da bandeira e tampouco é monopólio desse ou daquele grupo político.

Patriotismo é o sentimento de pertencimento a um país. Em artigo publicado em 1999 na revista Political Psychology sob o título "On the Varieties of National Attachment: Blind Versus Constructive Patriotism", os pesquisadores americanos Robert T. Schatz, Ervin Staub e Howard Lavine apresentaram os traços cognitivos e comportamentais de duas variedades de patriotismo: o cego e o construtivo.

O patriotismo cego se caracteriza pela fidelidade rígida e sem questionamentos à nação. O patriotismo construtivo, por sua vez, é identificável pela fidelidade crítica, visando a obter mudanças positivas de longo prazo pelo bem do interesse nacional. "Ambas as orientações são 'patrióticas' no sentido de identificação positiva e de sentimento de vínculo afetivo com o país", escrevem Schatz, Staub e Lavine.

O trio de pesquisadores conduziu dois estudos com estudantes americanos para medir as diferenças entre as duas variedades de patriotismo, segundo critérios cognitivos e comportamentais. Entre outros resultados, descobriu-se que o patriotismo construtivo está mais relacionado a atitudes de valorização de eficácia política, de conhecimento político, de busca de informações e de ativismo. Já o patriotismo cego está mais ligado ao nacionalismo, à preocupação com contaminação cultural e à desconexão com o sistema político.

Os autores apresentam, portanto, o patriotismo cego e o patriotismo construtivo como duas dimensões separadas de um mesmo fenômeno, unidos entre si por cidadãos que compartilham de um forte sentimento de vínculo ao país — o grau de adesão dos participantes do estudo a esse sentimento foi verificado por meio de uma lista de dezessete fatores que medem o "pertencimento nacional".

Se essas duas dimensões de patriotismo fossem aplicadas à realidade brasileira atual, descobriríamos algumas diferenças em relação aos estudos conduzidos nos Estados Unidos. Por exemplo, a preocupação com a contaminação cultural, ou seja, com a possibilidade de que a identidade nacional esteja ameaçada pela entrada de imigrantes, se revelaria bem menor no Brasil. Além disso, a distinção entre "patriotas cegos" e "patriotas construtivos" no que se refere ao grau de conhecimento político talvez não se mostrasse tão acentuada no Brasil como o foi nos Estados Unidos.

Em essência, porém, o reconhecimento de que existem duas dimensões do sentimento patriótico — um mais rígido, avesso a questionamentos, e outro mais crítico, que almeja transformações — é muito útil para compreender a realidade atual no Brasil.

No Brasil, essas duas variantes de patriotismo estão em choque. Mas identificar-se com uma ou com outra não dá a ninguém o direito de reivindicar o monopólio do amor à pátria.

Em tempo, se alguém quiser fazer um teste rápido para saber a qual grupo patriótico pertence, pode responder às seguintes perguntas, adaptadas do estudo acima citado: "Se eu critico o Brasil, faço isso por amor ao meu país" e "Se outro país criticar uma política adotada no Brasil sobre a qual tenho pouco conhecimento, eu não necessariamente vou apoiar a posição do meu país". Se você concorda com ambas as afirmações, provavelmente é um patriota construtivo.

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