O que grandes mulheres de sucesso têm em comum?
| Foto: Unsplash

O que Margaret Thatcher, Maria da Penha e Marcia Cavalcante têm em comum? Poderia ser o gênero, sua base educacional ou terem suas trajetórias reconhecidas? Não, esta história é das nossas Marias de cada dia, mulheres, que como elas tiveram barreiras aparentemente instransponíveis. Foram os nãos da jornada, ao paradoxo do folhetim de Chico Buarque: “Não sou dessas mulheres que só dizem sim...”

Mas se olharmos profundamente, fomos sombra e escuridão, e não podemos negar o poder da natureza sobre nós. Escolhemos ou fomos escolhidas?

O tal planejamento de vida, de carreira, da profissão do futuro, do que “eu” quero ser quando crescer se esvai quando seguimos a verdade dos nossos corações. Mas não podemos negar a importância das bases. Essas tais bases da família, da comunidade, da escola, da experiência, dos mentores ou inspiradores de nossa jornada.

Pois bem, mas vamos ao que às três "Mars" (Maria, Margaret e Marcia) têm em comum.

Margaret viveu em uma família que acolhia jovens durante a guerra, e inspirada pelo senso de comunidade e pelo pai na política, se reconheceu como defensora da verdade. Era uma estudiosa inveterada que gostava dos mais diversos assuntos, teve até dificuldade em arrumar emprego. Não conseguia? Pois bem, aderia a movimentos em que pudesse contribuir com seu discurso firme e força de trabalho.

O marido foi seu mentor educacional. Margaret era contraditória, polêmica, mas tinha o chamado “gut feeling”, aquela intuição arrebatadora e a obstinação de suas crenças. Mas algo foi central: a experiência que trouxe quando era cientista. Permitiu usar as armas da metodologia científica para amparar decisões como então secretária da educação, aumentando o financiamento para pesquisa. Ela podia ingressar em qualquer área, seu conhecimento era transversal, unilateral, multifacetado. Governou o Reino Unido por 11 anos.

Já Maria da Penha é a personificação do que acontece no Brasil sistematicamente até hoje. Mulheres que se casam com homens que diariamente violentam suas esposas e filhas psicologicamente, intelectualmente e fisicamente.

Ela, a resiliência em pessoa, teve perseverança de lutar pelos direitos sem trégua, recorrendo a todas as instâncias por quase 19 anos. Formada como farmacêutica e mestre pela Universidade de São Paulo: mais do que Maria, uma nordestina forte que teve uma educação rígida em colégio de freiras. Foi base para a criação da lei Maria da Penha, que hoje é considerada uma das melhores do mundo no combate à violência feminina.

Marcia Cavalcante — esta que vos fala — viveu em uma família em que o avô que adotava o apelido de Zé Rego, vindo de Alagoas para Tubarão (SC) e então Curitiba, já acolhia em sua casa diversos jovens nordestinos para fazer faculdade, ensino técnico. Em certo momento, o então cônsul geral em São Francisco, nos Estados Unidos, cujo pai havia sido co-fundador com o Zé Rego de empresa hoje quase septuagenária, chegou a me contar que meu avô tinha iniciado a primeira incubadora do Brasil.

Eram jovens experimentando, lendo, discutindo, testando motores, todos na mesma casa. A minha avó, na simplicidade das roupas, cabelos e chinelos, tocava piano clássico, colecionava e lia livros em meio à cozinha cheirando a óleo de dendê, sem jamais deixar de mencionar as passagens pela escola alemã e francesa, por exigência das jornadas de educação em música de seu pai maestro e compositor Paulino Chaves.

Tudo era instigador, o mundo era infinito, os livros eram a viagem. Meu pai herdou isso e mais: a coragem! Sérgio instigou a filha a estudar e estimulou as ciências exatas, permitiu que fosse estudar mestrado sozinha, no Canadá, desde que fosse com as próprias pernas, nos ensinou a ser fortes, resilientes, navegadores dos sete mares. Mas sem esquecer da mão que balança o berço, não é Mamma Beatriz (in memoriam)? Quanto privilégio, que aventura, e quantos nãos.

Hoje, Marcia é co-fundadora da Curitiba Angels, doutora em tecnologia e inovação, protagonista da transformação digital de empresas e governos.

O que as Marias, Marcias, Margarets têm em comum?

Uma educação de base científica, e com princípios familiares exemplares. Vida a serviço da comunidade, sejam filhos ou seu entorno. Amor pelo trabalho, curiosidade e indagação, vontade intrínseca movida pelo conhecimento, coragem, a absoluta vontade de servir. Afronta a desconfiança da capacidade, o enfrentamento constante do medo das perdas.

E quando pensaram em desistir, veio a maternidade para ensinar: mudaram e tiveram que guinar suas vidas pela família: Margaret parou de se dedicar a vida pública para cuidar dos gêmeos, Maria parou de trabalhar para acolher suas filhas, Marcia postergou a sua promoção para ficar mais perto da filha.

Após serem negadas em posições de destaque nos picos de produtividade, muitas vezes na sombra do espectro complexo e masculino de conquistas, seguiram na busca de respeito e voz, e entraram em movimentos sejam sociais ou associativos para ampliar suas causas. Mas isso foi consequência e não causa.

Busquem suas causas! Sigam mais o coração e menos a razão. Laissez-faire, curtam a jornada. Valorizem e ampliem seus mentores. Estudem sempre e incansavelmente. Sejam gratos e gratas a quem lhes ensinou. Liguem, mandem uma mensagem agora e agradeçam! Lembrem dos que rezam por nós. Permaneçam sendo vida, pois ela é a prece contínua.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]