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Filipe Figueiredo

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Explicações para os principais acontecimentos da política internacional

Conflito no Oriente Médio

A dura realidade do resultado na guerra na Síria e a aventura turca

  • Por Filipe Figueiredo
  • 06/03/2020 07:16
guerra síria
Explosão após ataques aéreos russos na vila de al-Bara, no sul da província de Idlib, no noroeste da Síria, em 5 de março de 2020| Foto: Omar HAJ KADOUR/AFP

A vida de milhões de sírios continua sendo discutida como uma commodity. Isso para sermos gentis, quando não são usados como verdadeiros escudos humanos sob a mira de fuzis e de aviões. Essa é a consequência direta da soma da continuidade do conflito na Síria, das ações da Turquia e da falta de coesão da União Europeia sobre o assunto, mesmo com a crise de refugiados já durando mais de cinco anos. São esses os problemas de verdade, o que precisa ser resolvido.

É muito mais fácil imputar responsabilidade no refugiado, a pessoa física, ver um vilão, um “bárbaro”, onde existe apenas uma pessoa querendo sobreviver ao conflito em seu país e fornecer sustento à si e aos seus. As palavras refugiado e imigrante parecem sinônimas, mas não significam a mesma coisa, nem na lei, nem no conceito. Para milhões de pessoas irem da Síria ou da Líbia para a Europa é porque algo aconteceu no local de origem dessas pessoas; no caso, a destruição de seus países por interferências estrangeiras.

Ditadores e aliados 

Não se trata de defender os governos de Bashar al-Assad ou de Kadafi. O ditador sírio é um herdeiro de uma dinastia autoritária que foi alçado ao posto de sucessor ungido do pai com a morte precoce de seu irmão, Bassel al-Assad. Seu irmão que era preparado desde tenra idade para governar o país; sim, como em uma dinastia. O oftalmologista Bashar al-Assad, de repente, teve que se tornar figura pública, aparecer ao lado do pai e demonstrar uma força que não possuía, nem possui.

Como um tiranete sem os contatos e a legitimidade do irmão demonstra força? Pela repressão, pura e simples. Ainda assim, o que começou como um protesto popular no interior da Síria se tornou uma guerra civil com, no auge, cinco lados diferentes, que se emaranhavam, relacionavam e contradiziam. Em 2015, entretanto, uma grande mudança. A Rússia decidiu garantir sua base de apoio na Síria e impedir que seu aliado Assad fosse derrubado, e realizou sua maior operação militar no Levante na História.

Ao manter um aliado de longa data (as relações Rússia-Síria são estreitas desde o final dos anos 1960) no Oriente Médio, a Rússia consegue “contornar” o cordão de países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) que a cercam e o isolamento causado pelos estreitos de Bósforo e de Dardanelos, dor de cabeça russa desde o século XIX. O principal exemplo disso é a base naval de Tartus, cedida pela Síria à Rússia em 1971 e, atualmente, a única base naval russa fora de território ex-soviético.

Além disso, a presença russa na economia da Síria, antes da guerra, era estipulada em quase vinte bilhões de dólares, numa relação assimétrica que garantia o superávit russo. Como país produtor de gás natural e petróleo, a Síria necessita do conhecimento russo na área, e grandes empresas como Stroitransgaz e Tatneft possuíam joint-ventures com as companhias estatais sírias para construção de gasodutos e exploração de petróleo. Já os anos seguintes da intervenção russa viram novos desdobramentos.

Um divisor de águas

Primeiro, a quase destruição do Daesh, graças à uma confluência de forças: curdos, EUA, Rússia, Irã, Hezbollah e Iraque. Também viram a formação de uma coalizão pró-Assad. Progressivamente, Damasco recuperou território dos chamados rebeldes. Síria, Rússia, Irã e Hezbollah operando em conjunto, sob óbvia coordenação russa, os novos donos dos céus sírios. Hoje, em 2020, a conclusão disso é: Assad venceu a guerra. Goste-se ou não dessa conclusão, não deixa de ser a realidade.

A maior parte do território sírio é controlado pelo regime, assim como as principais cidades. Dos atores que controlam outros territórios, vários o fazem em bons termos com o governo russo, como os curdos de Rojava. Esse também é o caso do “tampão” turco no leste do país, criado para impedir que os curdos sírios mantivessem seus pontos de contato com os curdos na Turquia; tampão proporcionado pela decisão de Trump de deixar os curdos à própria sorte.

Sobra apenas um território, o bolsão de Idlib, que é controlado por forças apoiadas pelo governo turco. Foi nessa região que, na última semana, dezenas, talvez centenas, de combatentes foram mortos, com dezenas de veículos destruídos. O exército sírio avançou rumo à cidade. No avanço, vitimou algumas dezenas de soldados turcos. A Turquia retaliou com uma mobilização que ela ainda não havia realizado, com aviões-radar, drones, uma brigada de carros de combate, dentre outros.

Ameaças de contra-ataques russos e o receio da escalada do conflito fizeram Erdogan abaixar a cabeça e voar até Moscou conversar com Putin; inicialmente, o presidente turco queria uma conferência com diferentes líderes em Ancara. O acordo, no final das contas, foi uma versão atualizada do antigo acordo de Sochi; ou seja, os avanços das forças de Assad por vilarejos da região foram consolidados. A Turquia ganhou a partilha da principal rodovia do bolsão.

“A Turquia” entre aspas, já que boa parte das forças ali presentes possui apenas o apoio turco, são originárias da chamada “oposição síria”. O que inclui os jihadistas salafistas do Tahrir al-Sham, antigamente chamados de “al-Qaeda na Síria”. Sim, a Turquia coopera diretamente com um grupo designado como terrorista por diversos de seus aliados. Uma das razões pelas quais a Otan deu de ombros aos apelos turcos por apoio logístico e material, embora o distanciamento entre a Otan e Ancara seja anterior e mais profundo.

O que deseja a Turquia

A suposta intenção da Turquia na sua presença Síria é garantir que não ocorra um novo fluxo em massa de refugiados para dentro de seu território, manter essas pessoas em Idlib, enquanto garante a “representatividade” militar de seus aliados, pensando em garantir um assento numa futura cúpula que decida o futuro sírio, seguindo o Processo de Astana. Ao mesmo tempo que faz isso, a Turquia novamente usa esses mesmos refugiados como ferramenta de pressão contra a Europa.

Mais uma vez, cenas de milhares de pessoas tentando entrar em território grego, pelo chão e pelo mar, incentivados pelas autoridades turcas, num tema já abordado aqui nesse nosso espaço. A resolução da questão dos refugiados, entretanto, passa pelo fim da guerra na Síria, para que essas pessoas possam retornar e o país ser reconstruído. E a guerra não vai acabar enquanto a Turquia ocupa territórios sírios, arma grupos terroristas e realiza operações militares de larga escala!

Ou seja, embora o discurso turco seja o de que o país que mais arca com o “fardo” de receber milhões de refugiados, o que é parcialmente verdade, no fundo, é uma situação que legitima outras ações de Ancara, muito menos nobres. O retorno dessas pessoas, a reconstrução síria, a solução dessa parte da crise de refugiados passa pelo reconhecimento da dura realidade já citada: Assad venceu. Putin venceu. Pensando nisso, qual será a postura europeia?

A União Europeia e a Otan podem apaziguar Erdogan, direcionando mais alguns bilhões de euros para a Turquia sob a justificativa do assentamento dos refugiados. Podem também enviar sistemas antiaéreos, apoio logístico, quem sabe uma ou outra demonstração de força. Isso vai arrastar o conflito, manter o status quo em Idlib e não vai melhorar a vida das centenas de milhares de pessoas que estão nesse bolsão, entre a espada e a outra espada. Ou então, os países ocidentais podem seguir outro caminho.

O caminho de dar um basta em Erdogan. De falar a verdade, que sua política externa agressiva ameaça a própria coesão da Otan. De que, mais importante do que acomodar sírios pelos diversos países europeus, o importante é criar a realidade que permita o retorno dessas pessoas. De que, caso ele queira enfrentar a Rússia, ele o fará sozinho. A Otan não vai ajudar, assim como Israel, Iraque, sauditas, egípcios, também não vão ajudá-lo. A aventura de Erdogan no oeste da Síria fracassou e é hora de deixar isso claro para ele.

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Comentários [ 6 ]

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    Thiago Alvim Costa

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    Felizmente Assad venceu com o imprescindível apoio dos russos, liderados pelo glorioso e pragmático Vladimir Putin. Tenho apreço pelo Erdogan a respeito do resgate dos valores islâmicos da época dos 4 primeiros Khalifas, mas é preciso entender que as pessoas a quem ele apoia ( “rebeldes”), não querem seguir regras é muito menos bons valores. Bem ou mau Bashar mantém a ordem e a paz na Síria .

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    Stefano Maestrello

    ± 4 dias

    Não confundir refugiados com tráfico humano/imigração ilegal é o mínimo que se espera de alguem que estudou até o ensino superior.

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    • ± 4 dias

      Stefano, infelizmente essa confusão é bem comum. Um abraço

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    Carlos Henrique Provin Almeida

    ± 4 dias

    Caro Felipe figueiredo. É perceptível o prazer em sua fala ao falar que Putin e Assad venceram. É incrível como historiadores admiram ditadores. Passam pano para qualquer intervenção russa. E condenam toda intervenção americana. Caso clássico de dois pesos duas medidas. Ahh... e o tampão turco é culpa do Trump. Ou seja, se fica é ruim, se sai é ruim também. Na verdade não importa o que os EUA façam, sempre vai ser base para critica dos historiadores que, em 90% dos casos, são isentinhos como o Felipe Figueiredo.

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    • ± 4 dias

      Finalmente, perceba que não faz sentido chamar alguém que trabalha em se expor, incluindo suas opiniões, de "isentinho". Não há "isentismo" algum no texto, apenas realidades. Algumas tão complicadas de aceitar que você não gostou Um abraço

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    • ± 4 dias

      Olá Carlos, não há prazer algum, mera constatação. Fique à vontade para apontar os motivos disso estar eventualmente errado, de que, na verdade, outra facção está vencendo o conflito, ou, ainda, seus motivos para desejar que o conflito se arraste Sobre "admirar ditadores", sugiro ler meus textos para comentar baseado na realidade, não em algo pré-concebido em sua cabeça Além disso, são dezenas de páginas sobre Putin. E, curiosamente, esse mesmo texto deixa clara a laia de Assad... E sim, o tampão turco é consequência direta da política de Trump. Novamente, mera constatação. Feita inclusive pelo ex-secretário de Defesa, o general Jim Mattis, quando renunciou. Pode criticá-lo também

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