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O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, no Palácio de Miraflores, Caracas, 8 de novembro de 2019
O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, no Palácio de Miraflores, Caracas, em 8 de novembro de 2019| Foto: Palácio de Miraflores / AFP

“Cada experiência comunista é recomeçada na inocência” (Alain Besançon, A Infelicidade do Século)

Por que não estou surpreso? Ora, porque estamos diante de mais uma manifestação da antiga e consagrada tradição da cultura política de esquerda, que consiste em idealizar e sacralizar o próprio passado, jogando para o campo oposto do espectro político toda a sujeira que deixou na história. O mais recente representante desse hábito malicioso, como se sabe, foi o jornalista Guga Chacra, que tentou empurrar para o conservadorismo um dos mais notórios entulhos esquerdistas do século 21: o ditador venezuelano Nicolás Maduro.

“Nicolás Maduro, ditador da Venezuela, intensifica seu discurso extremista religioso... O ditador venezuelano é conservador nos costumes e nada tem a ver com a esquerda americana e europeia. Lembra inclusive líderes de direita da América Latina” – escreveu Chacra no Twitter. E completou: “O ditador Nicolás Maduro é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, contra o direito ao aborto, contra a legalização das drogas e defende mais envolvimento da religião na política. O ditador não é liberal em economia. É esquerda ultrapassada. Mas é conservador nos costumes”.

Na área de comentários, alguém retrucou (equivocadamente, como veremos) que também Dilma Rousseff era contra as drogas e o aborto. Mas o jornalista não se fez de rogado e dobrou a aposta, lançando no colo da direita também a ex-presidente petista: “Ela tem o perfil da direita latino-americana”.

Para a cultura política marxista, as convicções podem ser alteradas conforme a razão do partido e os objetivos da militância. Elas são sempre circunstanciais

Esclareço que, ao falar em “hábito malicioso”, não quero dizer que quem o reproduza seja, em si mesmo, necessariamente malicioso. Muitas vezes a ideia é repetida sem qualquer consciência. É precisamente o caso de Guga Chacra, cujo semblante algo aparvalhado, aliás, bem como o despenteio perpétuo do cabelo, causam a impressão de que ele nunca tem plena consciência de nada.

De maneira acrítica, quase inocente, Chacra parte do pressuposto liberal e individualista segundo o qual a opção por um determinado campo do espectro político – “direita” ou “esquerda” – é uma questão de convicção pessoal subjetiva, e de que há uma coerência simples, direta e imediata entre essa convicção e a sua expressão política, do tipo “sou de esquerda porque acredito nisso e naquilo”.

Não sabe o jornalista que, para a cultura política marxista, a relação entre convicção pessoal e ação política é dialética e pragmática, permanecendo insubmissa às exigências “burguesas” de coerência e sinceridade. Aí, as convicções podem ser alteradas conforme a razão do partido e os objetivos da militância. Elas são sempre circunstanciais. Um herdeiro dessa cultura pode, por exemplo, ser contrário ao aborto num dia e favorável no outro, a depender do contexto político. Ou, por outra, repudiar a legalização do aborto em seu país, mas recomendá-la ao país vizinho, e assim por diante. A verdade é que, nesses casos, é impossível conhecer-lhe a real convicção pessoal, e muito menos derivar dela a sua orientação político-ideológica.

Peguemos o exemplo citado da posição pretensamente contrária ao aborto por parte de Dilma Rousseff. Como constava expressamente do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) do PT, um dos objetivos do governo petista era: “Apoiar a aprovação do projeto de lei que descriminaliza o aborto, considerando a autonomia das mulheres para decidir sobre seus corpos”. O PNDH-3, recorde-se, foi assinado pelo presidente da República e seus ministros, dentre os quais a senhora Dilma Rousseff.

À época alvo de críticas, o governo alterou ligeiramente o texto do PNDH-3 em diversos pontos. Quanto ao aborto, o texto deixou de mencionar abertamente a descriminalização, sugerindo apenas se tratar de uma questão de saúde pública – um eufemismo conhecido para a legalização. O projeto abortista do lulopetismo inseria-se nas chamadas “políticas de combate à desigualdade” (no caso, de gênero e de classe). Nelas, em momento algum a vida do feto era objeto de interesse ou preocupação. Considerava-se o embrião mera extensão da mãe, quem, portanto, devia ter total liberdade para “decidir sobre o seu próprio corpo”.

Dilma Rousseff jamais questionou a posição oficial do seu partido em relação ao tema. Pelo contrário, endossou-a em diversas ocasiões. Em 2007, por exemplo, sabatinada pela Folha de S.Paulo, disse com todas as letras: “Eu acho que tem de haver a descriminalização do aborto. Hoje, no Brasil, é um absurdo que não haja a descriminalização”. Em 2009, em entrevista à revista Marie Claire, voltou a afirmar: “Abortar não é fácil pra mulher alguma. Duvido que alguém se sinta confortável em fazer um aborto. Agora, isso não pode ser justificativa para que não haja a legalização. O aborto é uma questão de saúde pública... Como saúde pública, achamos que tem de ser praticado em condições de legalidade”.

Pela velha estratégia do “deturparam Marx”, a esquerda mundial tem procurado justificar os crimes contra a humanidade cometidos por regimes comunistas ou criptocomunistas

Mais tarde, temendo perder os votos dos cristãos, a então candidata a sucessora de Lula mudou o discurso. Passou a se dizer “pessoalmente” contrária ao aborto e “favorável à vida”. A preocupação com o destino do feto continuou ausente, todavia, e, estranhamente, o argumento passou a ser o de que o aborto configurava “uma violência contra a mulher”. Ou seja, para sustentar a sua nova opinião, Dilma Rousseff apresentou razões diversas das tradicionalmente alegadas pelos antiabortistas. Enquanto estes consideram o aborto uma violência inominável contra o feto, ela tratava o aborto como violência contra a mulher (mas cometida por quem, afinal?).

Enfim, a então candidata petista mudou de posição, ma non troppo. Com a sua notória dificuldade de expressão e raciocínio, ao afirmar ser contrária ao aborto em nome da defesa da mulher – antes que do feto, bem entendido –, produziu involuntariamente um híbrido monstruoso entre as suas opiniões antiga (fiel à linha partidária) e nova (orientada pelo marketing eleitoral). Daí o uso recorrente de platitudes como “isso é uma questão de saúde pública” – ao que a imprensa deveria ter indagado: para a mãe ou para o feto? Ou: “sou favorável à vida” – ao que uma imprensa honesta deveria ter insistido: da mãe ou do feto? Ou ainda: “sou pessoalmente contra o aborto” – que deveria ter suscitado nos jornalistas o seguinte questionamento: o que significa isso na prática? Se for eleita presidente, vai ou não encampar a legalização?

Como se vê, para a cultura política de esquerda, essencialmente coletivista, o conceito de convicção pessoal nem sequer faz muito sentido, não passando de um arcaísmo moral pequeno-burguês. Como explica o grande romancista Arthur Koestler, descrevendo a sua experiência como membro do Partido Comunista Alemão: “Gradativamente, aprendi a desconfiar de minha preocupação mecanicista com os fatos e a considerar o mundo à minha volta sob a luz da interpretação dialética. Era um estado satisfatório e, de fato, abençoado: uma vez assimilada a técnica, você não era mais perturbado pelos fatos; automaticamente, eles assumiam a cor apropriada e encaixavam-se no lugar certo. O Partido era infalível, tanto moral quanto logicamente: moralmente, porque os seus objetivos eram corretos, ou seja, conformes à Dialética da História, e justificavam todos os meios; logicamente, porque o Partido era a vanguarda do proletariado, sendo este a encarnação do princípio ativo na História... Dolorosamente, tateávamos às cegas em nossos espíritos, não apenas para encontrar justificativas para a moção estabelecida [pelo partido], mas também para descobrir antigos pensamentos que pudessem provar a nós mesmos havermos desde sempre entretido a opinião adequada”.

Mas se, inocente e atabalhoadamente, Guga Chacra procura nas pretensas convicções pessoais de tipos como Maduro e Dilma critérios para classificá-los politicamente, ainda assim reproduz, como dissemos, uma estratégia nada inocente de autopurificação da esquerda, praticada de maneira calculada por jornalistas esquerdistas puro-sangue, e bem mais espertos que ele. Quem não lembra, por exemplo, da cara-de-pau com que Mino Carta tentou empurrar Stalin para a direita? “Para mim, todo regime que vira ditadura... vira automaticamente, a meu ver, de extrema-direita”.

Mas não pense o leitor que é só no bas-fond intelectual da imprensa brasileira que essa tese vigora. Como dissemos, trata-se de uma tradição universal da cultura política de esquerda. Peguemos, por exemplo, uma conhecida explicação do filósofo Gilles Deleuze sobre a diferença entre esquerda e direita: “Acho que não existe governo de esquerda... Não existe governo de esquerda pois a esquerda não tem nada a ver com governo. Se me pedissem para definir a esquerda eu o faria de dois modos. Primeiro, é uma questão de percepção... O que é não ser de esquerda? Não ser de esquerda é como um endereço postal. Parte-se primeiro de si próprio, depois vem a rua em que se está, depois a cidade, o país, os outros países e, assim, cada vez mais longe. Começa-se por si mesmo e, na medida em que se é privilegiado, costuma-se pensar em como fazer para que esta situação perdure. Ser de esquerda, ao contrário, é um fenômeno de percepção. Primeiro, vê-se o horizonte e sabe-se que não pode durar, não é possível que milhares de pessoas morram de fome. Isso não pode mais durar. Não é possível esta injustiça absoluta. Não em nome da moral, mas em nome da própria percepção. Ser de esquerda é começar pela ponta. Começar pela ponta e considerar que estes problemas devem ser resolvidos”.

Ah, como é maravilhosa a aura blasé do soixante-huitardismo, pela qual se pode dizer as bobagens mais simplistas e cabotinas parecendo estar dizendo algo extremamente profundo. Porque, cortando o blablablá retórico pós-estruturalista, o que o filósofo parisiense está sugerindo aí é algo muito simples: ser de esquerda (como, coincidentemente, ele próprio) significa ser generoso e pensar nos outros, enquanto ser de direita é ser egoísta e só pensar em si mesmo. Não há governo de esquerda porque, enfim, a esquerda é sempre pura e bem-intencionada, não podendo jamais ser cobrada pelos seus erros, que empurra para os outros. Enfim, a forma é chique e empolada, mas o conteúdo não difere de um panfleto escolar qualquer produzido pelo PCdoB.

Mao, Fidel, Pol Pot, Ho Chi Minh, Chávez, Maduro, Lula, Dilma: nenhum desses nomes representou a “verdadeira” esquerda, dizem os esquerdistas, porque a “verdadeira” esquerda não se equivoca, não peca, não comete crimes

De uma forma ou de outra, na boca do provinciano jornalista brasileiro ou do filósofo avant-garde, trata-se, no fim das contas, do apelo à velha estratégia do “deturparam Marx” – pela qual a esquerda mundial tem procurado justificar os crimes contra a humanidade cometidos por regimes comunistas ou criptocomunistas. Segundo essa tese, nunca se é de esquerda o bastante, porque a esquerda estaria sempre em oposição ao poder, não passando de uma ideia bonita, uma virtualidade jamais atualizada. A esquerda sempre como pedra, jamais como vidraça. Comovente, não?

Ninguém descreveu melhor que Jean-François Revel essa estratégia esquerdista de fuga à responsabilidade. Em seu livro A grande parada: Ensaio sobre a sobrevivência da utopia socialista, o autor mostra que, ao contrário do que quer crer o senso comum, a queda do Muro de Berlim e o colapso da URSS não significaram o abandono da utopia socialista, mas, antes pelo contrário, a sua depuração ideológica e ulterior renascimento sob mil e uma novas aparências, algumas das quais formalmente contraditórias com as premissas dogmáticas originais. Fazendo-se de morto para assaltar o coveiro, por assim dizer, o socialismo conseguiu sobreviver mediante um artifício de propaganda admirável: a cisão absoluta entre as suas dimensões “real” e “utópica”, a primeira interpretada como simples distorção (ou traição) acidental da segunda. Assim, pairando altaneira no mundo das ideias puras (para desespero de Marx em sua tumba), a utopia socialista pôde seguir sendo oferecida viçosa e sem máculas qual uma vestal romana.

Nas palavras de Revel: “A esquerda não se equivoca jamais ou, quando muito, se equivoca apenas em relação a si própria, em seu próprio seio, de um modo indigno de ser discutido senão pelos pares que a compõem, jamais sob condições que pudessem levá-la a dar razão, ou mesmo a palavra, aos seus adversários”.

Ou seja, a esquerda no poder nunca é a verdadeira esquerda, porque a verdadeira esquerda é sempre a que ainda virá a assumir o poder. Stalin foi um dos primeiros representantes dessa “esquerda falsa” na qual a “esquerda verdadeira” tentou se limpar. Depois dele, a esquerda gritou: “Agora vai”. E o que veio foi Mao Tse-tung; depois, Fidel, Pol Pot, Ho Chi Minh, Hugo Chávez, Maduro, Lula, Dilma etc., todos com o mesmo resultado catastrófico. Nenhum desses nomes representou a “verdadeira” esquerda, porque a “verdadeira” esquerda não se equivoca, não peca, não comete crimes. O equívoco, o pecado e o crime são atributos da “falsa” esquerda – ou seja, a direita. A “verdadeira” esquerda nunca pode ser julgada por parâmetros atuais, porque o seu projeto não está no presente, sendo indefinidamente adiado para um futuro desconhecido. A “verdadeira” esquerda só poderia governar o Paraíso.

Cito Revel mais uma vez, e encerro por aqui: “Segundo essa argumentação, o horror das consequências provaria a excelência do princípio... Pois, ao se avaliar os zeladores de um modelo ideal, não são os atos que deveriam servir de critério, mas as intenções. No fundo, o reino do comunismo não é deste mundo, e o seu fracasso aqui em baixo é imputado ao mundo, não ao comunismo enquanto conceito”.

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