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Máscara de proteção - Covid-19
| Foto: Pixabay

“Em todo homem dorme um profeta e, quando ele acorda, há um pouco mais de mal no mundo...” (Emil Cioran, Breviário de Decomposição)

Dos rincões mais inóspitos e (ainda) selvagens da internet, acaba de nascer o termo que, concebido originalmente como piada, decerto entrará para a história como caracterização cientificamente precisa do tipo sociológico contemporâneo por excelência: o pandeminion. Quando a pandemia do coronavírus tiver passado, restará ainda ele, o pandeminion – essa criatura obstinada, inconsolável, plangente, em eterna vigilância contra um eventual retorno do assim chamado “velho normal”. O bardo do pandeminion é Lulu Santos. Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia é o seu salmo preferido. A.C. e D.C. (antes e depois do corona), o modo como passou a separar as fases profana e sagrada de sua biografia.

Escrevo “quando a pandemia tiver passado” e logo me arrependo. Pois é possível mesmo que, caso triunfe o pandeminion – ou seja, caso não se lhe retire o diabo do megafone –, a pandemia não acabe jamais. A Covid-19 é a cenoura de burro do pandeminion, aquilo que, preso em sua fronte, e sempre à sua frente, o faz progredir indefinidamente. Há o ciclo do vírus e há o ciclo do fanático. O primeiro mede-se em meses; o segundo, em décadas.

Fanático, sim. Pois o pandeminion enquadra-se perfeitamente na fenomenologia de Emil Cioran. Em “Genealogia do Fanatismo”, que compõe o seu Breviário de Decomposição (1949), o escritor romeno descreve o fanatismo como a “tara capital que dá ao homem o gosto pela eficácia, pela profecia e pelo terror”, uma “lepra lírica que contamina as almas, as submete, as tritura ou as exalta”.

Testemunhei a súbita conversão de amigos e conhecidos em pandeminions. Surpreendi-me com os seus aplausos às ações truculentas de PMs e guardas municipais contra banhistas insubmissos e ímpios praceiros

Lepra lírica, sim. Pois o pandeminion é, antes de tudo, um sentimentalista. E também um kitsch, no sentido de Milan Kundera: “O kitsch faz com que duas lágrimas escorram em rápida sucessão. A primeira lágrima diz: como é bom ver crianças correndo pela grama! A segunda lágrima diz: como é bom comover-se, junto com toda a humanidade, por crianças correndo pela grama!”.

Como não poderia deixar de ser, esse fanático, sentimentalista e kitsch é necessariamente um prosélito, alguém incapaz de refrear o impulso de invadir o espaço alheio munido com sua pretensa revelação e, sobretudo, com o seu pavor, que distribui generosamente por onde passa, como se fora uma dádiva divina.  Diz Cioran: “Em um espírito ardente encontramos o animal de rapina disfarçado; não poderíamos defender-nos demasiado das garras de um profeta... Quando elevar a voz, seja em nome do céu, da cidade ou de outros pretextos, afaste-se dele: sátiro de nossa solidão, não perdoa que vivamos aquém de suas verdades e de seus arrebatamentos; quer fazer-nos compartilhar de sua histeria, de seu bem, impô-la a nós e desfigurar-nos”.

Na condição de fanático – possuído, portanto, por esse “espírito ardente” –, o pandeminion não deve ser confundido com outras espécies da fauna social surgida nos últimos meses. Não se deve confundi-lo, sobretudo, com o surfista de pandemia – o espírito cínico e oportunista para quem a crise atual foi apenas um excelente meio de colher dividendos materiais ou simbólicos, pecuniários ou políticos.

Não, o pandeminion não é um cínico. É coisa muito pior: um pedagogo de adultos. Não é um corrupto. É, muito pelo contrário, incorruptível – o que significa que é indemovível. O corrupto dorme e, por vezes, tem bons sonhos. O fanático, jamais. Se, e quando, dorme, não sonha: elucubra. A corrupção é impressionista; o fanatismo, expressionista. Os vícios dos corruptos, velhacos e farsantes, diz ainda Cioran, são “mil vezes mais suportáveis que os estragos provocados pelo despotismo dos princípios; porque todos os males da vida provêm de uma ‘concepção da vida’”.

O pandeminion recebeu o coronavírus como Parousia. Dali em diante, no intervalo entre dois episódios de uma série do Netflix, um furor ético imprevisto brotou-lhe da alma, inspirado pela certeza de que o joio e o trigo seriam, enfim, separados, e de que cabia a ele – e a mais ninguém – o papel de ceifeiro.

Vi com os meus próprios olhos o surgimento dessa escatologia hipster. Testemunhei a súbita conversão de amigos e conhecidos em pandeminions. Surpreendi-me com os seus aplausos – antes reservados ao pôr-do-sol no Arpoador – às ações truculentas de PMs e guardas municipais contra banhistas insubmissos e ímpios praceiros. Assombrei-me ao notá-lo baixando gravemente o seu escudo facial – qual um cruzado, na iminência da batalha, o visor de sua armadura. E sair por aí, transido, de “espada” em punho (um borrifador de álcool 70), à cata dos hereges sem máscara e sem pânico.

No calendário litúrgico particular do pandeminion, passam-se os dias de forma idêntica

Desde o início do surto mundial da Peste Vermelha, tenho dito que o coronavírus despertou em muita gente o seu tirano interior, e que, agora, qualquer síndico de cortiço, gerente de bordel e prefeito de província vê a si mesmo como a encarnação de Stalin ou de Mao Tse-tung. Cioran previu esse estado de coisas e, com 70 anos de antecedência, descreveu o pandemônio dos pandeminions: “Olhe à sua volta: por toda parte larvas que pregam: cada instituição traduz uma missão; as prefeituras têm seu absoluto como os templos: a administração, com seus regulamentos – metafísica para uso de macacos... Todos se esforçam por remediar a vida de todos; aspiram a isso até os mendigos, inclusive os incuráveis: as calçadas do mundo e os hospitais transbordam de reformadores. A ânsia de tornar-se fonte de acontecimentos atua sobre cada um como uma desordem mental ou uma maldição intencional. A sociedade é um inferno de salvadores!”.

No calendário litúrgico particular do pandeminion, passam-se os dias de forma idêntica. O início do Jornal Nacional apanha-o invariavelmente genuflexo diante do televisor. Verte as primeiras lágrimas já no “boa noite” de William Bonner. Benze-se a cada audição da palavra “Covid”. Contrito, prepara-se para aclamar o evangelho: a contagem diária de mortos. Meditabundo, sorve com ânsia de náufrago a homilia de Renata Vasconcellos. Professa o credo na ciência e em seu único filho, Atila Iamarino. Pede proteção contra as tentações da hidroxicloroquina. Comunga com o biscoito da sorte que veio no chinês do aplicativo de entregas. Reza a oração de Santo Henrique Mandetta de la Scienza, Scienza, Scienza. Ergue-se. Pela quinta vez no dia, asperge lisoforme na soleira da porta. Benze-se com álcool gel. Física e emocionalmente exaurido (está sem diarista desde março), joga-se na cama feito um saco de batatas. Sem jamais conseguir terminar de ver a Live do Felipe Neto com o Luís Roberto Barroso, entra no Instagram, posta a hashtag “fique em casa” (a última do dia) e, desligando o celular, finalmente adormece. De máscara. Da Hello Kitty.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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